Registo da sessão de role-play de 7/IX/99 - Campanha anos 90
Local: Casa do Luís
Game Master: Ricardo Madeira
Aventura: "Thoth's Dagger", 2ª parte
Personagens:
Magi Clouds [Irina], Véronique D'Arcy [Raquel], Samuel
Phyllis [Luís]
NPCs:
Butros Al-Qusi, Hospedeira, Mikhay'el Sufiani, Clifton
Jorgensen, Padre Shanuda, Empregado de restaurante, empregado de tasca
1/IX/99 - Quarta-feira
16:30 - O avião descola de Lisboa. A bordo seguem Véronique D'Arcy à
janela, Sam Phyllis entre as duas raparigas, Magi Clouds na coxia e Butros na fila
imediatamente atrás.
D'Arcy entretém-se primeiro a ver a paisagem e depois a
escrever postais. Sam, indiscutivelmente cansado, ouve apenas a música disponível pelos
auscultadores do avião. Magi, com um olhar ocasional a Sam para se inteirar da saúde
dele, lê o seu livro: "De Vermis Misteriis" Este trata de fantasmas, pessoas
falecidas, mortos, maneiras de controlar os corpos dos mortos e até tem descrições de
rituais de preparação de mortos e afins.
A certa altura, Magi sente alguém espreitar-lhe por cima do
ombro. Virando-se, vê apenas a hospedeira passar no corredor. Aproveita e pede um sumo de
laranja. Continua a ler.
Magi tem a distinta impressão, assim pelo canto do olho,
que o sumo no tabuleiro à sua frente se torna vermelho-sangue. Um olhar directo revela
que não passa de uma imaginação exaltada pela leitura. Afinal, aquele capítulo trata
da preparação de entranhas...
(...)
Várias horas depois, o
avião efectua a manobra de aproximação a atenas. Magi sente-se estranhamente isolada, e
no entanto outro olhar confirma que os seus companheiros de viagem continuam nos seus
lugares.
Sam nota-lhe por fim o desconforto e pergunta-lhe o que se
passa. Ao som da voz dele, Magi fecha abruptamente o livro e disfarça. De facto, quando
Sam lhe pergunta o que está a ler, Magi diz-lhe ser um complicado livro do oculto, que
ele nem sequer conseguiria compreender sem primeiro ler outras obras.
20:30 - Aterramos em Atenas, num aeroporto que aos três viajantes parece
algo antiquado, habituados como estão aos aeroportos americanos.
D'Arcy e Sam saem para desentorpecer as pernas. Butros fica
a dormir no seu lugar e Magi aproveita para ler mais uns capítulos longe da curiosidade
de Sam. aos olhos dela, as luzes do avião parecem não estar muito seguras e a verdade é
que as sombras também não parecem lá muito estáticas. A leitura de Magi atinge os
capítulos onde se relatam as viagens de Ludvig Prinn.
D'Arcy aproveita para enviar os postais que escrevera no
avião para a loja em Arkham e compra mais postais. Ela e Sam comem também uma buchazinha
antes de regressarem aos seus lugares no avião. Magi levanta os olhos da leitura quando
eles regressam, e vê entre os novos passageiros uma jovem marcadamente parecida com a
Sharon Graves, de chapéu e óculos escuros. Magi encolhe-se no assento, tentando passar
despercebida. Minutos depois, a jovem revela ser outra pessoa conversando com a sua avó.
O alívio de Magi é notável.
Levantamos voo pela última vez.
(...)
Durante a viagem, Magi
lê capítulos que tratam de invocação de vários tipos de mortos e como os controlar.
Duas fórmulas em particular se cravam na memória dela: invocar filho da cabra e servo
invisível (cuja fórmula estava marcada na página).
Do lado de fora, por baixo do avião desfila o
Mediterrâneo. D'Arcy já dorme e Magi acaba por interromper a leitura para lhe seguir o
exemplo, bem aconchegada com o seu livro.
D'Arcy acorda com a voz do capitão. Espreitando pela janela
já consegue ver luzes ma costa. Estamos em fase de aproximação ao aeroporto do Cairo.
Magi também acorda, mas a primeira face que vê quando abre os olhos é da Sharon Graves,
de modo que o seu acordar é brusco e não muito agradável. Afinal, Magi repara que a
pessoa do outro lado do corredor até nem é assim tão parecida com a Sharon. Vira a
cabeça e dá de caras com Sam, babando-se. Tenta acordá-lo mas não tem sucesso. D'Arcy
limita-se a encolher os ombros quando se apercebe da situação e põe-se de joelhos no
seu lugar, virando-se para trás para chamar Butros. Ela chama, mas ele não acorda, de
modo que pede a outro passageiro que o sacuda levemente. Nem assim obtêm resposta. Aí
sim, D'Arcy fica intrigada e estende o braço para lhe tomar o pulso. Não há pulsação
na carótida do egípcio. Quase num salto, D'Arcy volta-se a sentar, de olhos
esbugalhados. Demora alguns segundos a rearranjar os seus pensamentos, e então avisa Magi
do sucedido. Como enfermeira, Magi toma conta da situação.
A jovem levanta-se e examina Butros. Está mesmo morto. A
sua lígua ate adquirira uma nojenta cor negra, pouco natural. Magi chama a hospedeira,
que fica perturbada, mas lá consegue lidar com a situação. D'Arcy, para o caso das
coisas, memoriza as faces dos passageiros mais próximos e potenciais assassinos - embora
o mais provável fosse o culpado ter escapado já em Atenas.
Aterramos. Como Sam continua inconsciente, as raparigas
inventam uma desculpa qualquer acerca de álcool e medicação e vêem-se forçadas a
carregar Sam entre ambas.
2/IX/99 - Quinta-feira
01:00 - O grupo passa por todas as formalidades para não-residentes no
aeroporto. A maior parte das pessoas em redor deles são turistas.
Quando caminhavam por um dos corredores, alguém dá um
encontrão à D'Arcy, sem parar para pedir desculpas. O primeiro reflexo da jovem é levar
a mão à carteira... que já lá não está. Sem pensar, D'Arcy de imaediato larga Sam e
corre pelo aeroporto fora atrás da figura que se afasta, gritando. O ladrão, vindo-se
assim perseguido, começa a revistar a mala em plena fuga. Bâtons, carteira, postais...
tudo vai sendo progressivamente atirado por cima do ombro. D'Arcy não pára para apanhar
as coisas a não ser para a carteira. Por fim o homem atira a mala fora e escapa-se
enquanto D'Arcy se contenta em apanhar as suas posses espalhadas pelo aeroporto enquanto
regressa para junto dos seus companheiros de viagem.
Os três viajantes saem então para o ar livre, com uma
D'Arcy subitamente mal humorada e resmungando quase constantemente entredentes em francês
acerca da eficiência da segurança em aeroportos estrangeiros.
À espera do grupo encontra-se um dos irmãos de Butros. Diz
chamar-se Mikhay'el Sufyani. As raparigas dão-lhe a triste notícia da morte de Butros.
Ele, no entanto, acaba por insistir na urgência com que se deve tratar a maleita de Sam e
então lá nos enfiamos todos num táxi com destino à estação de comboios; vamos o mais
directamente possível para o templo.
Na estação de comboios é Mikhay'el quem trata dos
bilhetes. aparentemente o próximo comboio é só às 6:30, de modo que nos instalamos nos
bancos com a bagagem à nossa volta. Magi propõe a D'Arcy dormirem por turnos. Apesar de
a achar um pouco paranóica, D'Arcy encolhe os ombros e concorda. Magi é a primeira a
fechar os olhos. D'Arcy senta-se num banco, cruza os braços e deixa-se ficar com um olho
nas malas e outro no Sam e algumas palavras de vez em quando ao reservado Mikhay'el.
--- " ---
Sam passeia mais uma
vez pelo sonho recorrente, com o seu rio, a vegetação, o deserto logo por trás, a
cidade com a sua procissão por labirintos adentro.
No altar frente à estátua do homem com cabeça de Ibis
(Thoth) decorre uma cerimónia. Há um corpo humano estendido no altar. Um homem vestido
de negro aproxima-se do altar, a sua cara encoberta por um capuz tão negro quanto a sua
vestimenta. Ele desvia o capuz e revela a cara...
--- " ---
3:00 - D'Arcy, farta de tentar puxar conversa com o pouco comunicativo Mikhay'el, acorda Magi e instala-se para dormir, bem agarrada à sua mala. Magi não se atreve a ler o livro ali, de modo que se deixa ficar com os seus pensamentos.
6:00 - Magi dá um passeiozinho ali junto da bagagem para desentorpecer as
pernas e espantar o sono. De súbito, um grito do banco: Sam acorda de olhos bem
esbugalhados numa máscara de terror, completamente em pânico. D'Arcy, de sono pesado,
nem acorda, mas Magi aproxima-se e conversa com ele. Sam não revela muito do sonho, e diz
apenas que tem uma enorme dor de cabeça e que não sete o resto do corpo. D'Arcy,
entretanto acorda.
Um telemóvel toca. Não é o de D'Arcy, de modo que esta
enfia a mão no bolso de Sam para atender por ele, já que ele se encontra demasiado
abalado. Surpresa das surpresas: do outro lado é Clifton Jorgensen quem fala. Está,
pelos vistos, no aeroporto do Cairo à procura deles e por convite de Butros. Há muita
discussão do assunto entre Magi e D'Arcy, que não sabem se hão-de confiar nele ou não.
Sam tenta por várias vezes fazer-se ouvir e votar para que se despiste o Clifton, mas as
raparigas não o consideram em estado de raciocinar, de modo que Magi acaba por pegar no
telefone e após mais umas quantas perguntas acaba por lhe dizer onde o grupo se encontra.
Ficamos então à espera do comboio e de Clifton. Não nos damos ao trabalho de lhe
comprar bilhete
6:24 - Com azáfama de actividade, um comboio chega. É o nosso, portanto trepamos para bordo e escolhemos um compartimento só para nós.
6:33 - O comboio começa a andar e Clifton ainda não se encontra a bordo. Sam não parece muito desapontado com o facto. No entanto, antes de saír da estação, o comboio trava. Clifton apanha o comboio mesmo na hora agá e acaba por dar com o compartimento do resto do grupo. Por esta altura está o grupo todo mais que desconfiado dele: Clifton parece ter vindo apenas por estar interessado na aventura. Aliás, deixa claramente implícito que a razão do seu atraso foi ter andado a comprar armas no Cairo. Apesar de sofrer um interrogatório por parte do grupo, não se descai com nenhum facto incriminatório, de modo que o grupo assenta para a viagem.
O sol nasce. A paisagem do lado de fora atrai D'Arcy,
que está visivelmente chateada e deixa o olhar vaguear pelo Nilo, as casas a paisagem
exótica. A um canto, Magi pega no seu livro e começa a ler para aprender o ritual de
preparação de um servo morto-vivo. Mikhay'el, com um olhar casual, vê o título e de
imediato se encolhe a um canto de olhos esbugalhados. Infelizmente, ninguém nota a
reacção dele.
Magi fica bastante entusiasmada com a leitura e chega a
pensar que a Sharon deve ter adorado ler o calhamaço. Sam nota-lhe talvez alguma pista
deste pensamento no olhar e pergunta-lhe o que está a ler. Magi responde ser um livro do
oculto e face à insistência dele diz-lhe que é um livro muito complexo que ele não
compreenderia sem antes ler outras obras. Sam diz sentir-se bem e capaz de ler, mas não
há nada que convença Magi a revelar o seu livro.
11:02 - Após visita do revisor, chegamos ao nosso destino. Apeamo-nos em
Ashmunayn. Sam partilha conosco o seu conhecimento do Egipto: Ashmunayn encontra-se apenas
a alguns metros de distância de Hermópolis, a qual fora um grande centro de cultura e de
ensino. Platão e Pitágoras, entre outros, tinham lá estudado. Os egípcios costumavam
chamar-lhe Khemennu e fora uma cidade sagrada para o Deus Thoth.
D'Arcy, que não se consegue livrar nem da sua má
disposição nem da sua desconfiança, vai à casa de banho e arma a sua besta longe dos
olhos dos outros. Deixa-a fechada na mala, mas sempre pode recorrer a ela em caso de
emergência.
Decidem procurar algum hotel, uma vez que Mikhay'el dissera
ser preciso esperar pela noite para ir às ruínas. Um grupo de crianças pedintes
aproxima-se do grupo e melgam-nos um bocado. Finalmente fartos, D'Arcy mostra-lhes o forro
do bolso num gesto que espera ser universal, mas Magi e Sam dão-lhes algumas moedas o que
é um grave erro: a maré de crianças sobe ainda mais.
Conseguimos finalmente um táxi que nos conduz ao único
hotel do sítio, um prédio pequeno e sujo onde alugamos três quartos: um para as
raparigas, outro para os rapazes e mais um para Mikhay'el. Sobem todos para descansar um
pouco e desfazer malas.
Algumas horas depois, Clifton bate à porta das raparigas
para as desafiar para um almoço, já todo a rigor para um safari. D'Arcy e Magi também
já mudaram para roupas mais leves. No quarto, Sam tem outro ataque no meio do chão, de
modo que o grupo discute as suas opções. Enquanto estão indecisos, Clifton mostra-lhes
as coisas que arranjou no Cairo: um saco cheio de armas que logo fascinam D'Arcy. Ela
consegue um 9mm emprestado. Magi contenta-se com o .38 Special.
Colocam então Sam na cama e saem à procura de um local
para comer.Clifton insiste no MacDonald's, mas D'Arcy está genuinamente interessada na
cozinha local, além de mais bem disposta desde que se viu com um 9mm na sua mala à
tiracolo. É claro que não encontramos MacDonald's, mas há um restaurante, de modo que o
grupo se separa: Clifton e Magi ficam pelo restaurante enquanto D'Arcy se dirige à tasca
do outro lado da rua. No restaurante, Clifton tem de traduzir o menú que está em
francês e egípcio e pedem bifes. Na tasca, D'Arcy entende-se com os empregados num
francês perfeito e come várias coisas um pouco indefinidas mas com aspecto de carne.
Pelo empregado, D'Arcy descobre que há certos túmulos que
ainda não foram descobertos pelos egiptólogos e cujos túneis vêm dar ao exterior.
Aparentemente, alguns dos locais dirigem-se lá de vez em quando para roubar alguma coisa
e vender nas feiras locais. Satisfeita, D'Arcy prepara-se para saír e leva algumas sandes
para Sam num saco.
Sai à rua. Como Magi e Clifton parecem estar ainda
entretidos no restaurante, D'Arcy desce a rua a ver lojas. Enquanto olhava uns quantos
artigos num expositor de rua, alguém a chama de um beco com um sotaque perfeito de
Oxford. D'Arcy, com uma mão cautelosamente perto da sua mala, aproxima-se. É um homem em
farrapos e diz ser o padre Shanuda, amigo de Butros. A uma D'Arcy desconfiada e
durpreendida, conta que aquele que o grupo conhece como Mikhay'el, e que na realidade se
chama Khalid Abd Al-Azi, pertence afinal ao outro culto e que só quer matar o grupo e
recuperar a adaga. D'Arcy apanha um susto enorme quando se lembra que deixaram Sam sozinho
no hotel...
O padre conta-lhe então um plano para apanhar Mikhay'el e o
imobilizar, que envolve um dos americanos ter de se encontrar com Shanuda, sozinho, nas
traseiras do Hotel. D'Arcy deixa-lhe o seu contacto e corre a falar com os do restaurante.
D'Arcy entra no restaurante, tendo deixado o padre no beco,
e conta tudo aos dois companheiros de viagem. Clifton demonstra ter umas tendências um
tanto ou quanto homicidas quando menciona matar ambos os padres, mas após muita
indecisão decidem todos acreditar no Padre Shanuda. Regressam então ao hotel.
15:00 - Entramos no hotel depois de termos sido seguidos por mais um bando
de crianças. No seu quarto, Sam está na mesma: vivo mas inconsciente. Quando o grupo
tentava decidir o próximo passo, Mikhay'el entra no quarto e explica que iremos às
ruínas assim que anoiteça, com Sam e a adaga para efectuar o exorcismo. O grupo tenta
fingir, perante ele, que nada mudou.
Mikhay'el sai então. D'Arcy segue-o a uma distância segura
para que ele não desconfie e vê que ele não se dirige para o seu quarto mas sim para a
rua. Ela comunica o facto antes de descer às traseiras à procura do Padre Shanuda.
Afinal é ele quem a encontra a ela, mas juntos sobem ao quarto de Sam, onde D'Arcy faz as
apresentações.
O Padre explica então o seu plano, que consiste em amarrar
e amordaçar rapidamente Mikay'el assim que ele regresse. Insiste particularmente na
necessidade de não o deixar fazer gestos ou pronuncia uma palavra que seja. Quando ele
explica que tal é necessário para que ele não invoque magia, D'Arcy claramente acha que
o Padre não está a jogar com o baralho todo. Seja como for, o grupo avaba por concordar
com o plano dele e vão arranjar cordas enquanto o Padre se esconde no quarto das
raparigas.
--- " ---
Sam vê desfilar
perante os seus olhos a paisagem que se lhe vai tornando odiosa de tão repetitiva: o
mesmo rio, a mesma vegetação, o mesmo deserto... por aí fora. Mais uma vez ele percorre
os túneis secretos do templo até ao altar, frente ao qual uma multidão de homens canta.
Um homem encapuçado e vestido de negro dirige-se ao altar. Ele abre os braços e descobre
a cabeça.
É a cabeça enorme de uma Ibis, não humana de todo. Ele
retira uma adaga das vestes e ergue-a sobre o corpo no altar. A adaga é aquela que o
grupo possui, a adaga de Thoth.
--- " ---
17:30 - Clifton, que mantinha uma vigia junto à janela, avisa que Mikhay'el
se aproxima. Magi dirige-se para o quarto dele pouco depois, tentando atraí-lo com uma
história acerca de Sam a delirar. Ele segue atrás dela até ao quarto dos rapazes. Magi
abre a porta e dá-lhe passagem. Uma série de coisas acontece ao mesmo tempo assim que
ele entra.
Clifton salta de trás da porta imediatamente, ao ver o
egípcio. Sem esperar por nenhum sinal, D'Arcy, que fingia limpar a testa de Sam com um
pano, reage imediatamente e tenta enfiar o pano na boca de Mikhay'el. Magi agarra-se a ele
toldando-lhe ainda mais os movimentos. Ele começa a pronunciar algo, mas D'Arcy lá lhe
consegue enfiar o pano pelas goelas adentro e calá-lo. Ele ainda assim resiste e tanto
Clifton como Magi têm de se esforçar para o imoblilizar. D'Arcy ajuda-os, e por fim
alcançam o objectivo.
Atraído pelos ruídos de luta, o Padre Shanuda chega então
e congratula o grupo pelo bom trabalho. Eles, ofegantes, não se sentem muito inclinados a
sorrir. Então shanuda pede a adaga para se livrar de Mikhay'el "sem deixar
pistas". Aí é que o caldo fica entornado, porque o grupo ainda não tem muito bem a
certeza de confiar nele.
Em bom espírito democrático, mas chateada que nem um
perú, D'Arcy decide deixar Mikhay'el ter uma palavrinha no assunto, talvez para negar
tudo? Shanuda aconselha-a vivamente a não o fazer... Portanto ela destapa-lhe a boca. Ele
diz uma data de sílabas sem sentido, D'Arcy apressa-se a tapar-lhe a boca de novo. Com
uma joelhada e a advertência de que só se aceita discurso em inglês, D'Arcy tenta a
mesma manobra de novo. Como ele reage exactamente da mesma maneira, ela tenta tapar de
novo. O problema é que ele cerra os dentes e ela não consegue. Ooops!
Ao pontapé e canelada, Magi tenta ajudar. D'Arcy não lhe
consegue tapar a boca nem ao soco e há luta no chão. Por fim, uma sílaba em particular
ecoa pelas paredes e dentro da cabeça de D'Arcy, que imediatamente ganha uma respeitável
dor de cabeça. quando recupera acção vê Clifton dar uma valente coronhada com a sua
carabina no Mikay'el, que finalmente cai silencioso.
Então sim, o grupo confia no Padre Shanuda. Talvez não
totalmente, mas já é uma mudança. Dão-lhe a adaga para as mãos. D'Arcy, aflita com a
sua dor de cabeça, dirige-se para o quarto das raparigas para descansar um pouco.
No quarto de Sam, o Padre entoa um cântico sob os olhares
vagamente desconfiados de Magi e Clifton. A sala parece escurecer. Num canto começa a
faiscar e uma silhueta toma lentamente forma: as suas mãos têm garras, os braços são
compridos, quase a arrastar pelo chão e só vagamente humanóide. Tem pele rugosa e a
cabeça abana sem controle. Shanuda aponta a adaga ao corpo inerte de Mikhay'el e o
monstro dirige-se-lhe, trespassa-o com as garras e leva-o para o conto da sala. Há um
enorme clarão azul, violeta e vermelho e ele desaparece.
A sala fica em silêncio. Magi está inconsciente, Clifton
está encolhido a um canto, Sam, que acorda na altura errada, vai a tempo de sentir a
presença hedionda e perder mais alguma da sua precária sanidade.
D'Arcy, que notara barulho no quarto ao lado, aparece a
bater à porta. Shanuda abre. D'Arcy fica sem saber bem o que pensar quando vê Magi no
chão, Clifton a um canto e Sam em pânico. Shanuda, no entanto, dá-lhe a adaga para as
mãos e sai, prometendo regressar ao caír da noite.
Uma meia hora depois, estando o grupo, já todo consciente e
em posse de todas as faculdades que ainda têm, conversa para se inteirarem de todas as
novidades. Sam está particularmente desorientado e conta o seu sonho enquanto D'Arcy
procura algo para a dor de cabeça na recepção do hotel.
Decidem recuperar forças para a noite que promete ser
atribulada. As raparigas reclhem ao seu quarto. Magi hesita a acender o interruptor da luz
e entra no quarto às escuras. D'Arcy, que nem notara, acende a luz e com isso prega um
susto à enfermeira. Magi parece ter desenvolvido um medo qualquer aos interruptores ou
talvez a luzes repentinas... Seja como for, deitam-se um pouco. D'Arcy dormita com a besta
numa mão, a 9mm na outra e uma enorme dor de cabeça. No quarto ao lado, Sam e Clifton
conversam ainda um bocado e Sam consegue que o outro lhe empreste uma .38 automática.
21:00 - O Padre Shanuda aparece e o grupo já o espera, pronto. Vestem todos
em cores escuras e cada um leva o equipamento que considera necessário para uma aventura
nocturna no estrangeiro. Algumas das coisas são bem visíveis, de modo que se esforçam
para as esconder ao passar na recepção, tal como a carabina de Clifton que ele tenta
esconder entre o grupo, ou a besta de D'Arcy, meia escondida dentro da sacola à tiracolo
com que ela costuma andar. Vão todos armados e Magi até leva um estojo de primeiros
socorros.
Seguimos o Padre pela cidade às escuras, por ruas tortuosas
e quase desertas que vão dar às ruínas. Perto destas vêm guardas ou seguranças,
munidos de lanternas. Shanuda continua a caminhar confiante, portanto o grupo segue-o, e
de facto ninguém os incomoda.
Por fim, o Padre pára num sítio escondido atrás de uma
parede. Está bem escuro, mas ele pede que permaneçam em absoluto silêncio. Ele eleva as
mãos no ar, vanta qualquer coisa e emite uns latidos estranhos. À nossa volta tudo fica
silencioso...
Da escuridão surgem vultos vagamente humanóides, alguns a
quatro patas. A pele deles é peluda, quase de borracha, e as suas feições próximas de
canídeos. Os pés, no entanto, terminam em cascos, as mãos em garras e os seus músculos
são mais salientes. Magi, que fechara os olhos com medo, não consegue evitar ouvir os
roncos e grunhidos que eles emitem. O Padre Shanuda fala com eles em ruídos semelhantes.
As criaturas desaparecem então na escuridão. Num
murmúrio, o Padre informa que serão os nossos guias e que o grupo tem de os seguir. Sam
está sem reacção, tal é o terror, de modo que é D'Arcy quem tem de o puxar pela mão
durante um bocado.
Passam por colunas e pelo templo arruinado com o qual Sam
tanto sonhara, o que faz com que ele resista ao avanço. D'Arcy, que não acredita numa
palavra do que ele diz, continua a puxá-lo, com a paciência a esgotar-se a olhos vistos.
Entram pelo buraco que em tempos foi uma passagem secreta e descem ao interior da Terra
por degraus abaulados e polidos de muito uso secular.
A meio da escadaria, Sam tem um ataque de pânico e
recusa-se a continuar, dizendo continuamente disparates acerca do grupo ir todo morrer e
de ser culpa do Padre. D'arcy tenta convencê-lo por meio de palavras que se tornam mais
bruscas à medida que a sua paciência vai dimunuíndo. No entanto ele aponta-lhe a .38
automática que até à altura levava no bolso do casaco. Sem pensar duas vezes, D'Arcy
aponta-lhe a sua própria 9mm e ambos discutem encaloradamente no meio das escadas. É
Clifton quem o desarma num gesto corajoso. Entre eles os três, D'Arcy, Clifton e Magi
vão empurrado Sam pelas escadas abaixo, atrás do Padre. Sam ainda dá luta. Com um
pequeno suspiro de resignação, Shanuda finalmente acaba por hipnotizar Sam, tornando-o
subitamente dócil e acabando assim com a zaragata. Continuam então a jornada.
O grupo chega ao fim das escadas e entra num sistema de
túneis escuros e húmidos, cujo chão está coberto de areia e poeira. O grupo continua a
seguir os estranhos guias. No chão vêm-se algumas pegadas de botas ou sapatos, não lá
muito recentes. Água escorre por algumas paredes abaixo, levando a crer que o Nilo não
se encontra muito longe. Ao longo dos túneis surgem por vezes nichos - nalguns vê-se
corpos mumificados, noutros sarcófagos de madeira. Ninguém se atreve a tocar em nada,
mas Sam verifica que são bastante antigos. Já há muito tempo que o grupo perdeu o
sentido de orientação naquelas catacumbas.
Já passa bastante das
dez horas... D'Arcy vai notando todas as estranhas criaturas dos túneis: num túnel
lateral uma gigantesca ratazana que a deixa bem nervosa, as teias com as suas aranhas
gordas, os ratos. Todas as criaturas lhe parecem desproporcionadas, grandes demais. Uma
das aranhas cai em cima da Magi, fazendo-a soltar um pequeno grito nervoso. O Padre
Shanuda avisa que nos estamos a aproximar do poço dos crocodilos. D'Arcy e Clifton tiram
as seguranças das respectivas armas.
O grupo avança pelo emaranhado de túneis, virando
frequentemente em cruzamentos, quer para a esquerda, quer para a direita. Só mesmo o
Padre parece saber para onde vão. A certa altura, D'Arcy nota a presença de crocodilos
atrás do grupo, o que só serve para a pôr mais nervosa ainda. Ela avisa os restantes
viajantes.
Aqui os corredores são mais húmidos. D'Arcy, que não
consegue deixar de pensar nos crocodilos que possam estar a persegui-los, vai sempre
mantendo um olho na rectaguarda. A certa altura pensa ver um vulto a segui-los mas parte
do princípio que se trata de imaginação, já que não parecia ser um crocodilo.
Sam, frustrado com este avanço às cegas, passa à frente
do Padre, mas vê a criatura dos cascos e decide que isso talvez não seja tão boa ideia,
de modo que prontamente recua para trás do Padre uma vez mais. De súbito, um crocodilo
interpõe-se entre o grupo e o Padre. Tem um ar bastante agressivo. Num sussurrar
sibilante avisam o Padre. Este pára no caminho à espera, mas parece não ter sugestões
quanto à maneira de ultrapassar aquele obstáculo.
Bem, pensando que, se o Padre conseguia ela não ficaria
atrás, D'Arcy aproxima-se do bicho devagarinho, tentanto passar entre este e a parede.
Ele aproxima-se, mas D'Arcy não desiste e matém a calma e o seu passo lento. Sam, que
tentara puxá-la, agora tenta dissuadi-la verbalmente. A teimosia dela prevalece, no
entanto, e infelizmente o crocodilo ataca num movimento inesperadamente rápido. D'Arcy
dispara mas o crocodilo abocanha-lhe a perna esquerda e, com um grito de dor, ela sente o
osso a quebrar sob os afiados dentes do bicho. Os companheiros não tardam a reagir e é
Clifton quem desfaz o bicho com vários tiros da sua caçadeira.
Magi faz o melhor que pode em primeiros socorros, mas D'Arcy
está mesmo em mau estado. Seja como for, ela não quer desistir nem por nada e, apoiada
em Sam, continua caminho com o grupo. Uma ou duas lágrimas escorrem-lhe pela cara no
escuro enquanto avançam pelos túneis escuros, mas ela arma-se em forte. Num outro local,
um segundo crocodilo aparece. De imediato D'Arcy aponta a sua arma. O bicho desaparece num
túnel lateral sem ligar muito ao grupo de humanos.
O labirinto continua, e parece não ter fim. Primeiro
aparece uma camada de água no chão, depois esta vai subindo até aos joelhos. D'Arcy
queixa-se um pouco, com medo que a sua perna infecte naquela água indubitavelmente cheia
de micróbios. Sam tenta carregá-la ao colo, mas não aguente muito tempo de modo que
D'Arcy se vê mesmo forçada a enfiar a perna dentro de água para continuar com o grupo.
Surgem então alguns túneis com hieróglifos mais antigos
do que uns que o grupo vira em túneis enteriores. Sam, o especialista, diz que são
antigos e parecem ser citações muito sugestivas do Livro dos Mortos. Misturados com
estes hieróglifos estão outros símbolos que ninguém consegue reconhecer e que são
possivelmente ainda mais antigos.
A certa altura, Sam desmais sem aviso prévio. O que avisa o
resto do grupo é o grito de D'Arcy que, privada do amparo de Sam, se vê obrigada a usar
a perna partida para amparar a sua própria queda. Entre si, Magi e Clifton pegam no Sam e
Clifton depois carrega-o. Magi ajuda D'Arcy a andar e lá seguem caminho.
Vão parar a outro conjunto de túneis, cujo tecto é
suportado por traves de madeira muito velhas mesmo, aparentando podridão nalguns locais,
e já um pouco dobradas sob o peso da terra. De vez em quando caem pequenas nuvens de
poeira do tecto. O grupo continua corajosamente.
De súbito o som de um trovão. Uma nuvem de poeira que
chega até ao nosso túnel segundos depois explica a origem: alguma secção abateu não
muito longe deles. Continuam a inexorável marcha.
D'Arcy apercebe-se de que já nem sente a perna. Esse facto
não a deixa mais descansada, no entanto, e mais uma lágrima silenciosa lhe rola pela
face. Ela recusa-se a olhar para baixo, não vá ver o real estado da sua perna... e os
corredores continuam. O Padre encontra uma escadaria que todos descem. À saída desta, um
escorpião atravessa-se à frente do grupo, mas depois segue seu caminho sem os atrasar.
Aqui os corredores são mais longos mas igualmente
labirínticos. Nas paredes ha de novo nichos com coisas de aspecto muito pouco humano lá
dentro. O grupo passa por galeiras e poços que formam um emaranhado nas memórias de
todos. Já não se sabe de onde vieram nem em que direcção seja a potencial saída. A
viagem parece não ter fim.
D'Arcy começa a imaginar passos nos ecos. Magi vê um
clarão trémulo ao fundo de um túnel transversal. Pára e chama o Padre, mas este reage
como sempre, com um encolher de ombros, de modo que continuam a viagem.
Desta vez o grupo todo ouve grunhidos atrás deles. É
D'Arcy que primeiro olha e se apercebe que são seguidos por um vulto que é um misto de
canídeo e homem. O grupo continua num passo mais apressado, mas pouco depois as criaturas
cortam-nos o caminho, mas uma vez separando-os do Padre. Há um momento de suspense em que
o grupo não sabe bem se há-de reagir violentamente ou tentar entabular conversa, até
que o Padre nos urge a usar a adaga. Assim, D'Arcy enfia a sua besta no saco e tira de lá
a adaga. Assim que D'Arcy a empunha, as criaturas afastam-se, de modo que o grupo retoma
viagem com uma D'arcy bem agarrada à adaga. o Padre informa-nos que as criaturas são ghouls
e que nos estamos a dirigir para a cidade deles.
Há agora calhaus no chão e poças de líquido negro,
escadas em zig-zag e restos de ossos de aspecto humano por vezes deixados nos túneis.
Têm ar de ter servido de refeição a alguém. Há restos de caixões e de sarcófagos em
vários pontos da viagem.
Por fim, encontramos mais uma escadaria descendente.
Seguimos por ela abaixo e vamos dar a uma sala cujo tecto é suportado por oito colunas em
duas filas. Há uma saída na outra extremidade da divisão. A criatura-guia desaparece e
deixa o grupo entregue a si mesmo. Shanuda avisa-nos que agora todo o cuidado é pouco.
O padre agora acompanha-nos lado a lado e o grupo dirige-se
para a única saída da sala. Vão dar a uma segunda sala mais pequena, com duas colunas
apenas. Descem as escadas a que esta dá acesso e entram num corredor bastante estreito,
onde ainda encontram mais 5 a 6 degraus antes de chegar a um corredor mais largo mas muito
comprido. Aí encontram um cruzamento. Entram numa sala ampla com colunas a toda a volta.
O Padre Shanuda pára bem no centro da sala e diz que foi um
prazer conhecer-nos, no caso de a coisa dar para o torto. É claro que isto não faz
maravilhas pelo moral daquelas que ainda estão conscientes e não cai muito bem com
D'Arcy, que ainda nem se atreve a olhar para a sua própria perna.
O grupo sai da sala por outra passagem e entra num corredor
que vem da esquerda para a direita e tem várias saídas. Há uma mesmo em frente ao
grupo. O padre revela que já chegámos e só nos falta encontrar o altar dos
sacrifícios. Quando ele revela que não sabe mais caminho, eleva-se um chorrilho de
palavrões murmurados em francês no silêncio dos subterrâneos.
--- " ---
Sam sonha de novo com a paisagem recorrente até que se vê mais uma vez frente ao altar. A figura de negro que aparece descobre a sua cabeça de Ibis e eleva a adaga no ar.
Sam olha para a vítima deitada no altar. A cara do sacrifício é a sua própria. De súbito o ponto de vista muda e Sam está a ver a cena do seu ponto de observação no próprio altar: a adaga desce sobre o seu peito, mas a sua consciência dissolve-se antes que ela lá chegue e Sam cai no espaço infinito. A única coisa que ouve é o som incessante de flautas.
--- " ---
Sam acorda de súbito
com um grito, quando se apercebe do sítio em que se encontra. De seguida nota que é
incapaz de sentir o seu próprio corpo, de modo que grita que está morto. D'Arcy, cuja
paciência há muito se esgotou, ameaça-o. Clifton agarra-o pelos colarinhos e o grupo
ajuda-o a empurrar Sam para uma das salas.
Entram numa sala não muito ampla, com um altar negro
manchado com alguma substância escura e suspeita. Há uma estátua por trás do altar.
Sam entra em pânico, grita e tenta fugir desesperadamente, apontando até um murro à
cara de Clifton. Este riposta, mas eis que se ouvem passos vindos de uma passagem por
trás da estátua. Um homem negro aparece vindo de lá. D'Arcy entrega a adaga a Magi, uma
vez que não se consegue deslocar muito bem, e encosta-se a uma das paredes para apoio.
O homem de negro olha o grupo todo, um por um, e agradece
num perfeito sotaque de Oxford por lhe virem devolver a adaga. Trata-se de Nyarlathotep, o
mensageiros dos Deuses. Então estala a confusão.
Magi dispara sobre Nyarlathotep ao mesmo tempo que o Padre
Shanuda se atira a ela lutando pela adaga e falando em línguas estranhas. D'Arcy
entretanto vê Nyarlathotep começar a mudar a sua forma física. Magi e Shanuda rebolam
no chão em luta, mas por fim ele consegue vantagem e agarra a adaga. Com um pontapé de
Magi, ele afasta-se e começa a correr em direcção a Nyarlathotep como quem quer atacar.
Infelizmente Magi, cega pela luta, não nota esta pose e dispara. O abdómen de Shanuda
explode com o tiro certeiro. Nyarlathotep continua a transformar-se numa coisa
esquelética, enorme, de cabeça mal formada. Sam, no meio de tudo, tentar fugir para fora
da sala e corre desalmadamente.
De olhos arregalados e entrando em pânico finalmente,
D'Arcy dispara duas vezes contra a coisa monstruosa. Acerta à segunda, mas parece não
ter grande efeito, de modo que ela despeja a arma por completo em Nyarlathotep. Ele dá um
enorme urro que quase estoira os tímpanos aos que se encontram na sala. Um cheiro
nauseabundo segue o urro e enche os olhos de lágrimas a todos.
Magi recupera a adaga do chão, mas está em pânico e fica
sem reacção. D'Arcy grita-lhe para matar, mas nesse momento o monstruoso mensageiro dos
Deuses lança-lhe uma teia de energia e a única coisa que D'Arcy vê são tentáculos,
espinhos e lâminas a vir contra ela. A dor que acompanha tal visão não é menor: a
jovem sente uma miríade de pequenos cortes esfarraparem-na e à sua roupa por todo o
corpo.
Sam volta atrás, talvez com medo de se aventurar nos
túneis sem protecção, e agarra na arma de um Clifton petrificado e tenta disparar. Não
tendo grande sucesso, atira-se à Magi e tira-lhe a adaga enquanto D'Arcy tenta recarregar
a sua besta debilmente, as mãos manchadas de sangue. Sam corre então para Nyarlathotep
de adaga em punho. Nesse mesmo instante, Magi sai do seu torpor e corre para D'Arcy. Ambas
tentam fugir. Nyarlathotep ataca Sam com a mesma arma com que atacara D'Arcy, só que
desta vez o pobre Sam é incapaz de resistir e cai morto a meio caminho. A adaga
escapa-lhe das mãos e desliza pelo chão.
Magi e D'Arcy correm o melhor que podem pelos corredores. Na
sala, Nyarlathotep já está tão grande que tem de se dobrar para não bater no tecto.
Agarradas à sanidade que lhes resta e às parcas reservas de força, as duas raparigas
correm às cegas. O riso de Nyarlathotep ecoa na cabeça delas, bem como nos corredores.
Ambas desmaiam ainda na fuga.
(...)
Magi acorda no meio de
túneis sem saber como ali chegou nem como saír. Ao seu lado está o corpo nerte de
D'arcy, coberta de sangue e com o pulso muito fraco. Magi faz o melhor que pode no sentido
de primeiros socorros: esfarrapando roupas de ambas, tenta cobrir a maior parte dos
profundos arranhões e feridas de D'Arcy. D'Arcy não dá sinal de vida durante o
processo.
Ouvindo água a pingar ao longe, Magi decide tentar chegar a
algum lado, de modo que tenta carregar D'Arcy dali para fora. Pega na lanterna que sobra e
verifica que perderam todas as armas pelo caminho. Magi caminha pelos túneis carregando a
companheira enferma.
A viagem é um pesadelo tornado realidade: os túneis não
apresentam qualquer ponto familiar e parecem não ter fim. Por vezes, atravessam-se no
caminho animais relativamente pequenos, como cobras ou ratos. Por sorte, Magi consegue
livrar-se deles simplesmente atirando pedras.
A certa altura, Magi encontra cinco degraus ascendentes,
talvez um primeiro ponto de referência. Ela sobe sem ânimo, arrastando D'Arcy consigo e
vagueia por mais um sistema de tuneis. Apesar de estar extremamente consada, Magi tenta
continuar por causa da sua companheira inconsciente, que continua a perder sangue. No
entanto, Magi está mesmo exausta e a forças falham-na, de modo que se vê forçada a
descansar. Verifica que D'Arcy ainda tem pulso.
Não há maneira de saber quanto tempo Magi dormiu, mas
quando acordou a pilha da lanterna estava bem mais fraca: com a exaustão, Magi
esquecera-se de poupar a pilha. D'Arcy ainda está viva, mas precisa urgentemente de um
hospital, de modo que Magi encontra algures força suficiente para continuar a carregar
D'Arcy pelos túneis. Caminham lentamente... encontram escadas que sobem, escadas que
descem, túneis e mais túneis... A garganta de Magi está completamente seca, de modo que
não conseguiria falar mesmo que tentasse.
Magi erra interminavelmente pelos túneis. As suas cordas
vocais rangem, e D'Arcy está tão pálida que por vezes parece mesmo azulada. Então Magi
encontra uma escadaria ascendente que trepa penosamente. Por fim, chega a um túnel que
pensa reconhecer e caminha com mais ânimo, pensando estar perto do fim. Ao fim do túnel,
uma derrocada tapa agora o caminho. Magi cai de joelhos, esgotada física e mentalmente.
A solidão atinge Magi à medida que o tempo passa. Ela
tenta gritar, mas a sua voz mal lhe obedece e a única coisa que lhe sai é uma espécie
de sussurro rouco. Por fim, ela lá se consegue pôr de pé e levantar D'Arcy.
Mais uma vez Magi arrasta-se pelo labirinto. As paredes
parecem apertar-se à sua volta. É-lhe tudo igual, de modo que toma direcções ao acaso
nos cruzamentos. Algum tempo depois, ela ouve movimento num dos corredores e tenta seguir
a fonte do ruído. A lanterna falha e pisca, mas Magi consegue ainda perceber que deu de
caras com um crocodilo que segue vagarosamente por um dos corredores. Magi segue-o na
esperança que ele a conduza a alguma saída e durante algum tempo o bicho parece não se
preocupar muito com a curiosa seguidora, mas por fim chateia-se e abre a boca. Há um jogo
de vontades, a ver quem consegue ficar mais quieto, e finalmente o bicho desinteressa-se e
segue caminho.
Por fim, Magi ouve um chapinhar à sua frente. Dá mais
alguns passos e vê-se numa enorme galeria completamente inundada. No meio do charco há
frequentes movimentos de crocodilos, de modo que qualquer tentativa para encontrar saída
por àgua seria antes uma tentativa de suicídio. A galeria tem imensas saídas para
outros corredores, e qualquer uma delas obriga Magi a passar bem mais perto de água do
que ela gostaria. Um dos crocodilos passa perto das duas raparigas, mas não ataca.
Magi esquiva-se o melhor que pode logo para a primeira
saída que encontra e apressa-se pelo corredor, só que este é como os outros:
interminável. No entanto, a certo ponto parece familiar. Magi vai escolhendo o caminho o
melhor que pode, agarrando-se firmemente aos poucos retalhos de memória dos túneis
iniciais. Sempre que o túnel se torna pouco familiar ela retrocede e toma outro caminho
nos cruzamentos.
Ao fim de um tempo interminável - ou teriam apenas passado
poucos minutos? - Magi encontra uma escadaria ascendente que trepa com esforço cada vez
maior, já que D'Arcy parece pesar cada vez mais. A meio do caminho, a lanterna morre por
completo. Magi lá consegue ir trepando às apalpadelas e com D'Arcy a reboque.
O último degrau revela apenas uma passagem para a direita,
que Magi segue, apenas para se ver num beco sem saída. Ela não larga D'Arcy, mas procura
febrilmente qualquer passagem com as suas mãos na escuridão total. De súbito, os seus
dedos encontram uma alavanca. Sem hesitar, Magi puxa-a e eis que um fio de luz se desenha
numa parede. Ajeitando o peso de D'Arcy, Magi empurra a parede naquele ponto e dá por si
ao ar livre, no meio das ruínas, com os seus olhos a serem feridos pela luz do sol. Um
breve exame confirma que D'Arcy ainda se encontra viva, de modo que a enfermeira se
arrasta ao longo das ruínas.
Magi sai do templo propriamente dito. Um grupo de turistas
japoneses dobra a esquina e dezenas de flashes cegam Magi.
Epílogo por Ricardo Madeira:
Citações do dia:
Irina - "Claro que sou inteligente!" (antes de dois Intelligence Rolls falhados)
Véronique D'Arcy [Raquel] - "Pfff!" (quando Sam disse estar bem melhor)
Clifton Jorgensen [NPC] - "Estão decentes?" (batendo à porta do quarto
das raparigas)
Véronique D'Arcy [Raquel] - "Oui!"
Magi Clouds [Irina] - "Sim, e você?"
Raquel - "Quero uma perna de pau!"
Registo escrito por Raquel Correia e Luís Rodrigues.