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TEMA PARA CRIAÇÃO DO SÉCULO XXI
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Tontas por entre
os postes noturnos
as baratas se encontram
excitam sua imundície agitada
se entregam e se multiplicam
antes de voltarem
ao esgoto diário.
Quando morremos
e as sombras condenadas
de nossos atos
vagavam sobre a terra,
não houve ninguém
que de nós se lembrasse.
Quando o mundo explodiu
e se desintegrou nas milhares partículas
que o homem não conseguiu classificar,
nenhuma emoção
sobreviveu.
E não soubemos
que não houvera momento
mais valioso que o presente,
nem maior conhecimento
que o amor.
Carros apressados
Seguidos por homens velozes
Mulheres entre ônibus
Janelas espiam e são espiadas
Eta, vida besta sem deus!
Estávamos enganados.
O mundo foi breve
e as previsões não se cumprirão.
Motores bêbados
Fenômenos atmosféricos
Ruínas atômicas
Ausência de montanhas
Fábulas antigas e imorais
Pássaros modernos e mortais
As cartas caladas pelos telefones
Raças intoleradas criadas por células intolerantes
A inteligência do amor desativada
Juízos e juízes condenados
A peste digital e exata
e a ironia da existência
devastada
e homens regurgitados
pelos cofres.
E antes que descobrisse o céu,
o homem criou o inferno.
Das espumas fétidas
que escorrem dos canos
esculpindo os rios por entre as urbes
ergue-se grotesca
a deusa púbere, suja e bela
oculta em plásticos de refrigerante.
Por graça das desgraças humanas,
a virgem corrompida
concebe-se sobre as águas doentes
sob o olhar prático e indiferente
do nosso século.
As intenções de poesia
são carências de compreensão.
Buscam bocas que as repitam
em silêncio para as almas que gritam.
São barracos de telhados rotos
que as chuvas castigam,
esquartejam e desmoronam.
À imensurável água suja,
oculta sob falsos pés de pedra,
sob os pés de barro,
resta o sabor azedo
do espírito culpado
que em sua eterna morte se compraz
da comunhão com o lixo equivocado.
Um dia
desejei que todos morressem.
Que eu não... para observá-los
decompostos e puros.
Eu também me queria puro
daquilo que me apodrece
daquilo que me enferruja
daquilo que me desliga.
Eu era criança agora
e quis todos mortos
antes que eu crescesse.
Queria amar-te mais
que esse tempo incompleto, e
em insônia.exasperada.
(Preciso-te em rádios, alto-falantes,
anunciada e vulgarizada.)
Meu paladar consola e
consome o desejo
em tuas curvas de celulose.
Queria amar-te mais
Chorando doce e sutilmente
sinceridades de um segundo.
Amar-te mais
que vencesse o sólido e
libertasse a moldura.
(Queria então...
Mas és apenas um outdoor.)
As moscas esperam
as cicatrizes mal curadas
das almas das criaturas.
Conhecedoras da rotina homicida
do operariado humano,
seus milhares de olhos se dilatam.
São asas frenéticas, extáticas
quase despedaçadas
na velocidade do bater.
Haverá um dia
em que esperarão
enfastiadas.
Mulheres caminhavam
e eram mães.
Mas não queriam.
Homens caminhavam
e amavam as mulheres.
Mas não queriam.
Crianças passeavam
e eram homens e mulheres.
Mas não queriam.
O mundo era perfeito
com homens, mulheres e crianças.
Mas não sabia.
As coisas que voam
encontram as coisas que morrem.
E tudo (na reificação das coisas)
prolonga o setembro
que despeja coisas mutiladas
por outras coisas que caem.
Os números interrogam a morte
e a morte diz coisas
sobre as coisas que os homens criam:
conceitos, aviões, vírus, religiões,
além de outras incertezas
espalhadas na poeira
de duas torres.
A terra revolveu os mortos
levantados de sua paz fossilizada
(As bocas, putrefatas,
recendiam dores mal dormidas).
Passo lento, silente
a massa cadavérica
avançou sobre as ruas natalinas.
Nas lojas, por entre as vitrinas repletas
de duros corpos artificiais vivos
arrastou seu próprio corpo frágil e morto.
Impacientes, as crianças
empurravam seus pais
que pediam licença.
Como folhas ou cinzas que flutuam
à mercê da magia temporal
ora sábias ou talvez perdidas
sob a fé que sustenta o céu terreno
diáfano ou imerso em nuvens lúgubres
dizendo ânsias ao solo árido
de olhos abertos sempre às cegas
cavando a terra com os dedos da alma
que espera ou simplesmente chora
amando o segredo das conquistas
ou pranteando fatais desesperos
menos gente hoje à luz do sol
ou mais, abaixo da lua futura
corrompidos, honestos ou mortos
e vivos, falsos ou milagrosos
eternizamos a marcha efêmera.
Sob o cobertor de concreto,
o ninar dos carros,
o vício das luzes amarelas
que não se apagam,
dorme o corpo inerte.
Sobretudo inertes
os sonhos,
sozinhos.
Habitamos a hora
a ânsia
a pressa
o sono
e o nosso Big Ben de átomos de papel-moeda
trabalho
monotonia.
Nenhum amor
neste universo paralelo.
A vida de verdade observa
atrás do espelho.
Um quarto de hora.
Tiros, fuga, estatística.
Pés-de-moleque
amargamente voam
ruas ao longe.
Num quarto escuro
Esconde-se o dia claro.
Tiros, fuga, estatística.
Gente que olha
com olho de gente
que tem rua própria
corre diferente
de quem só corre por ela.
Num quarto de hora
de quem olha
sobra um quarto de pão
escondido de quem foge.
Tiros, estatística.
Buscar irresponsavelmente a fantasia
Como tolo apaixonado.
Vender à alegria
A própria alma.
Beber na morte do tempo
A vida embriagada.
TEMA PARA CRIAÇÃO DO SÉCULO XXI
Allegro
No início, Deus recriou a mulher,
e ela deu o poder do século.
Enquanto repousava, tomou-lhe os dedos
e deles subtraiu o homem.
Allegro moderato
Para evitar novos aborrecimentos,
homem e mulher receberam de Deus
a semente da Árvore da Sabedoria,
desempregando a serpente.
Allegro com brio
Mas o homem (virtuoso) quis o transistor
e enganando a Deus, com sabedoria,
fez gerar a Máquina, e dela
seu próprio mundo (virtual).
Agora, o homem
quer criar o século XXI.
Falta-lhe, no entanto,
o Verbo.
É possível
assistindo à televisão,
fazer chover no solo infértil,
desmentir palavras e
parar o sangue que elas alimentam,
tornar bela a tristeza
ou aniquilá-la na ficção.
Pode-se morrer
e não ligar para nada,
ligando a televisão.
Dormir em paz
com a desgraça via satélite.
A gente esquálida universal
passeia seus espectros sobre o lixo,
sob a pouca gente que voa
e sorve e suga e serve-se.
A multidão, no chão,
fica mais rápida a cada dia
mais voraz e menos forte
por força de cada dia.
A gente cega que voa, que suga
não absorve a diferença
entre as costelas brasileiras
e as costelas etíopes.
Fora do círculo fechado
dos canais a cabo,
antenas e ondas
nos observam.
Telefones espionam
nossas palavras.
Mensagens urgentes
misturam-se à fantasia virtual.
Ao contrário do que se pensa,
o globo esfria.
Despencam ao fim da madrugada
de dentro das suas tocas
as pequenas criaturas.
Colhem, comem, cospem e colhem
até anoitecer.
Depois dormem vencidas pela rotina
umas sobre as outras
as estranhas criaturas.
Somem, sonham, sentem e somem
até amanhecer.
Criam e morrem.