O RITMO DAS CRIATURAS

POEMA PÓSTUMO

OUTRA CIDADEZINHA

COMÉDIA CONTEMPORÂNEA

 VÊNUS RENASCIDA

ALDEIA GLOBAL

INFÂNCIA

FAST-LOVE

AS MOSCAS

NEGATIVO

COISAS

CEMITÉRIOS

TRÂNSITO

SOLIDÃO

HABITAT

CRÔNICA POLICIAL

CARNAVAL

TEMA PARA CRIAÇÃO DO SÉCULO XXI

HORÁRIO NOBRE

O RITMO DAS CRIATURAS

A ÚLTIMA ONDA

O RITMO DAS CRIATURAS

 

 

 

 

O RITMO DAS CRIATURAS

 

Tontas por entre

os postes noturnos

as baratas se encontram

excitam sua imundície agitada

se entregam e se multiplicam

antes de voltarem

ao esgoto diário.


 

POEMA PÓSTUMO

 

Quando morremos

e as sombras condenadas

de nossos atos

vagavam sobre a terra,

 

não houve ninguém

que de nós se lembrasse.

 

Quando o mundo explodiu

e se desintegrou nas milhares partículas

que o homem não conseguiu classificar,

 

nenhuma emoção

sobreviveu.

 

E não soubemos

que não houvera momento

mais valioso que o presente,

nem maior conhecimento

que o amor.


 

OUTRA CIDADEZINHA

 

Carros apressados

Seguidos por homens velozes

Mulheres entre ônibus

Janelas espiam e são espiadas

Eta, vida besta sem deus!


 

COMÉDIA CONTEMPORÂNEA

 

Estávamos enganados.

O mundo foi breve

e as previsões não se cumprirão.

 

Motores bêbados

Fenômenos atmosféricos

Ruínas atômicas

Ausência de montanhas

Fábulas antigas e imorais

Pássaros modernos  e mortais

 

As cartas caladas pelos telefones

Raças intoleradas criadas por células intolerantes

A inteligência do amor desativada

Juízos e juízes condenados

 

A peste digital e exata

e a ironia da existência

devastada

e homens regurgitados

pelos cofres.

 

E antes que descobrisse o céu,

o homem criou o inferno.

 


 

 VÊNUS RENASCIDA

 

Das espumas fétidas

que escorrem dos canos

esculpindo os rios por entre as urbes

 

ergue-se grotesca

a deusa púbere, suja e bela

oculta em plásticos de refrigerante.

 

Por graça das desgraças humanas,

a virgem corrompida

concebe-se sobre as águas doentes

sob o olhar prático e indiferente

do nosso século.


 

ALDEIA GLOBAL

 

As intenções de poesia

são carências de compreensão.

            Buscam bocas que as repitam

            em silêncio para as almas que gritam.

São barracos de telhados rotos

que as chuvas castigam,

esquartejam e desmoronam.

 

À imensurável água suja,

oculta sob falsos pés de pedra,

sob os pés de barro,

resta o sabor azedo

do espírito culpado

que em sua eterna morte se compraz

da comunhão com o lixo equivocado.


 

INFÂNCIA

 

Um dia

desejei que todos morressem.

Que eu não... para observá-los

decompostos e puros.

 

Eu também me queria puro

daquilo que me apodrece

daquilo que me enferruja

daquilo que me desliga.

 

Eu era criança agora

e quis todos mortos

antes que eu crescesse.


 

FAST-LOVE

 

Queria amar-te mais

que esse tempo incompleto, e

em insônia.exasperada.

 

(Preciso-te em rádios, alto-falantes,

anunciada e vulgarizada.)

 

Meu paladar consola e

consome o desejo

em tuas curvas de celulose.

 

Queria amar-te mais

Chorando doce e sutilmente

sinceridades de um segundo.

 

Amar-te mais

que vencesse o sólido e

libertasse a moldura.

 

(Queria então...

Mas és apenas um outdoor.)

 


 

AS MOSCAS

 

As moscas esperam

as cicatrizes mal curadas

das almas das criaturas.

 

Conhecedoras da rotina homicida

do operariado humano,

seus milhares de olhos se dilatam.

 

São asas frenéticas, extáticas

quase despedaçadas

na velocidade do bater.

 

Haverá um dia

em que esperarão

enfastiadas.


 

NEGATIVO

 

Mulheres caminhavam

e eram mães.

Mas não queriam.

 

Homens caminhavam

e amavam as mulheres.

Mas não queriam.

 

Crianças passeavam

e eram homens e mulheres.

Mas não queriam.

 

O mundo era perfeito

com homens, mulheres e crianças.

Mas não sabia.


 

COISAS

 

As coisas que voam

encontram as coisas que morrem.

E tudo (na reificação das coisas)

prolonga o setembro

que despeja coisas mutiladas

por outras coisas que caem.

 

Os números interrogam a morte

e a morte diz coisas

sobre as coisas que os homens criam:

conceitos, aviões, vírus, religiões,

além de outras incertezas

espalhadas na poeira

de duas torres.


 

CEMITÉRIOS

 

A terra revolveu os mortos

levantados de sua paz fossilizada

(As bocas, putrefatas,

recendiam dores mal dormidas).

 

Passo lento, silente

a massa cadavérica

avançou sobre as ruas natalinas.

 

Nas lojas, por entre as vitrinas repletas

de duros corpos artificiais vivos

arrastou seu próprio corpo frágil e morto.

 

Impacientes, as crianças

empurravam seus pais

que pediam licença.


 

TRÂNSITO

 

Como folhas ou cinzas que flutuam

à mercê da magia temporal

 

ora sábias ou talvez perdidas

 

sob a fé que sustenta o céu terreno

diáfano ou imerso em nuvens lúgubres

 

dizendo ânsias ao solo árido

 

de olhos abertos sempre às cegas

cavando a terra com os dedos da alma

 

que espera ou simplesmente chora

 

amando o segredo das conquistas

ou pranteando fatais desesperos

 

menos gente hoje à luz do sol

ou mais, abaixo da lua futura

 

corrompidos, honestos ou mortos

e vivos, falsos ou milagrosos

 

eternizamos a marcha efêmera.

 

 


 

SOLIDÃO

 

Sob o cobertor de concreto,

o ninar dos carros,

o vício das luzes amarelas

que não se apagam,

dorme o corpo inerte.

 

Sobretudo inertes

os sonhos,

sozinhos.


 

HABITAT

 

Habitamos a hora

                  a ânsia

                  a pressa

                  o sono

                  e o nosso Big Ben de átomos de papel-moeda

                                                                   trabalho

                                                                   monotonia.

 

Nenhum amor

neste universo paralelo.

A vida de verdade observa

atrás do espelho.        
 

 

CRÔNICA POLICIAL

 

Um quarto de hora.

Tiros, fuga, estatística.

 

Pés-de-moleque

amargamente voam

ruas ao longe.

 

Num quarto escuro

Esconde-se o dia claro.

Tiros, fuga, estatística.

 

Gente que olha

com olho de gente

que tem rua própria

corre diferente

de quem só corre por ela.

 

Num quarto de hora

de quem olha

sobra um quarto de pão

escondido de quem foge.

 

Tiros, estatística.

 


 

CARNAVAL

 

Buscar irresponsavelmente a fantasia

Como tolo apaixonado.

 

Vender à alegria

A própria alma.

 

Beber na morte do tempo

A vida embriagada.

 


 

TEMA PARA CRIAÇÃO DO SÉCULO XXI

 

Allegro

No início, Deus recriou a mulher,

e ela deu o poder do século.

Enquanto repousava, tomou-lhe os dedos

e deles subtraiu o homem.

 

Allegro moderato

Para evitar novos aborrecimentos,

homem e mulher receberam de Deus

a semente da Árvore da Sabedoria,

desempregando a serpente.

 

Allegro com brio

Mas o homem (virtuoso) quis o transistor

e enganando a Deus, com sabedoria,

fez gerar a Máquina, e dela

seu próprio mundo (virtual).

 

Agora, o homem

quer criar o século XXI.

Falta-lhe, no entanto,

o Verbo.


 

HORÁRIO NOBRE

 

É possível

assistindo à televisão,

fazer chover no solo infértil,

desmentir palavras e

parar o sangue que elas alimentam,

tornar bela a tristeza

ou aniquilá-la na ficção.

 

Pode-se morrer

e não ligar para nada,

ligando a televisão.

Dormir em paz

com a desgraça via satélite.


 

O RITMO DAS CRIATURAS

 

A gente esquálida universal

passeia seus espectros sobre o lixo,

sob a pouca gente que voa

e sorve e suga e serve-se.

 

A multidão, no chão,

fica mais rápida a cada dia

mais voraz e menos forte

por força de cada dia.

 

A gente cega que voa, que suga

não absorve a diferença

entre as costelas brasileiras

e as costelas etíopes.


 

 

A ÚLTIMA ONDA

 

Fora do círculo fechado

dos canais a cabo,

antenas e ondas

nos observam.

 

Telefones espionam

nossas palavras.

Mensagens urgentes

misturam-se à fantasia virtual.

 

Ao contrário do que se pensa,

o globo esfria.


 

O RITMO DAS CRIATURAS

 

Despencam ao fim da madrugada

de dentro das suas tocas

as pequenas criaturas.

 

Colhem, comem, cospem e colhem

até anoitecer.

 

Depois dormem vencidas pela rotina

umas sobre as outras

as estranhas criaturas.

 

Somem, sonham, sentem e somem

até amanhecer.

 

Criam e morrem.

 

 

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