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Todas as noites na casa paroquial, após terminar a celebração da missa para o povo de Santana, padre Tomé arrastava o banco redondo de madeira para um lugar próximo à janela, de modo que pudesse observar o céu da cidade, enquanto saboreava vagarosamente um único copo de vinho. Perdia-se em reflexões extensas sobre a vida dos fiéis, sobre as homilias, sobre explicações para coisas em que tentava fazer todos acreditarem. Procurava na noite escura, entre as estrelas, o rosto de Deus. Quando as nuvens impediam-lhe a visão, imaginava o Diabo.
Hoje, em especial, os pensamentos não fluem. É noite de festa. Música, risadas; um burburinho irritante travando-lhe a imaginação e entrecortando-lhe as idéias. Aquelas pessoas, todas juntas, divertindo-se com os prazeres terrenos, bebendo, insinuando-se a outras, desejando-se; desequilibram sua solidão. E no entanto, ele a prefere. Prefere a janela fechada, o silêncio como um vapor condensado pesando sobre o crucifixo de madeira, pendurado acima da cama; sobre a mesa, mais do que a garrafa quase cheia de vinho; sobre sua cabeça, zunindo continuamente, repetindo-se como um “tende piedade de nós”.
O quarto, tão distante do mundo dos outros, de camas maiores, repletas de perspectivas, causava-lhe agora um asco que turvava a visão. Serve mais um copo do vinho. Bebe de um gole o remédio para a náusea. Balança o copo na mão em direção à mesa, e não suportando mais o vazio vítreo, volta a enchê-lo.
Através da garrafa, meio tinta, meio transparente, enxerga os contornos dos objetos dançarem. Aproxima os olhos do caleidoscópio. Vê a cama com os cobertores desarrumados que lhe dão a sensação de uma silhueta. Uma mulher deitada, as curvas das nádegas, as pernas descendo suavemente, movimentando-se languidamente, as mulheres renegadas, controlando, violentando seu corpo de homem, erguendo-o, afrontando seus falsos princípios.
O mundo em que vive tem contornos vagos. Mas o mundo lá fora é tinto, o sangue fervendo nas pessoas comuns. Bebe mais um gole do sangue. Não é suficiente. Cristo ri, preso ao crucifixo. Incita-lhe o pavor da impotência. Odeia Aquele Homem Morto, a Quem mata todos os dias para viver.
A mão aperta o copo cada vez mais forte, transferindo-lhe todo aquela força má que lhe domina os nervos. Atira-o contra a cruz, mas não é capaz de acertá-Lo. Como sempre, ele é quem se quebra tentando atingi-Lo. Mas é isso... Para vencê-lo, precisa da sua própria dor. A dor de um devotado, a traição de um juramento. Segura o gargalo da garrafa, espreme-a até espatifá-la contra a mesa. Os cacos espalhados formam pequenos espelhos refletindo, em pedaços, o quarto. Levanta as mãos e lança-as violentamente contra o vidro. Sente uma dor que o alivia. Pelos cortes da mão, o sangue escorre, encontrando os sulcos da madeira velha, ruborizando-a. Arrasta os braços sobre a mesa, sobre as pontas, desejando a dor lancinante, que seu corpo jorre todo aquele sangue podre e ele se esvazie, como um copo sem vinho. Dobrando as mãos dilaceradas, agarra a batina, puxando-a, até romper o tecido. Enfim, debruça o peito nu sobre a mesa de tortura, contorcendo-se sobre as pequenas pontas transparentes; e sente a pele se rasgar ao sacrifício de seus movimentos. As forças abandonam o corpo, como se a própria alma o fizesse, e ele sente o prazer do sofrimento extenuando-o cada vez mais. Olha para a cruz na parede. Ele ainda está lá, com os braços presos, mas invencível. Chora agora, convulsivamente, a derrota. Vai se encolhendo sobre a mesa, as mãos atadas, os joelhos contraídos, um feto. Não renasceria, não ressuscitaria...
I
Em meados de agosto, quando o vento embaralha as vistas de poeira, Adão chegou a Santana, coberto por andrajos como quem tivera vagado muito, barba grossa e desgrenhada, um olhar entre sinistro e perdido. Na mão esquerda, agarrava um longo galho de árvore com o qual se apoiava ao chão após cada passo esforçado sobre a terra. Pela direita, arrastava a mudez da menina-moça Abela, olhos claros e tristes, cabeça pendendo resignada, cabelos de um amarelo queimado, trajando um vestido azul desbotado e sujo, que lhe conferia uma aparência menos fatigada que a do acompanhante. De longe, a criança parecia exercer a função de guia, e não de rês, como realmente acontecia. Foi assim que a gente dali, pela primeira vez, cheia de ciscos nos olhos, enxergou pai e filha.
Era possível também que pensassem em Adão como algum pedinte, morador dos arredores onde permaneciam agonizando pequenas casinholas de ex-empregados das antigas fazendas locais.
Santana, distrito de Pitangueiras, era ainda um conjunto de pequenas ruas de terra, algumas nem completamente habitadas, e que abrigava um povo simples, reunido em volta de uma capela e algumas pequenas fábricas, curtumes e olarias, que empregavam o bastante para a rala população ativa do lugar. Dos vários outros pequenos vilarejos que se espalhavam por aquela região, era de Santana que as cidades grandes se afastavam mais. Não exatamente por motivos geográficos, mas pela pequenez do raciocínio e da ambição de sua gente, resquício do passado acostumado aos desmandos de fazendeiros ricos, mantenedores de uma sociedade dividida em duas castas rigidamente diferenciadas: patrões e empregados.
Morria-se fácil de doenças que já não matam mais, por causa da escassez e da precariedade (mesmo inexistência) de recursos humanos e materiais. Médicos, apenas em Pitangueiras, vinte e poucos quilômetros dali, desde que o recém-formado Dr. Pedro Henrique abandonara o idealismo e assumira os negócios do pai na cidade. Eram freqüentemente os mais velhos, baseando-se em suas crenças e tradições familiares, que tratavam os doentes. Na maioria das vezes, os cuidados não passavam de rezas ou simpatias. Em alguns casos, a coincidência ajudava e então, benzedores, feiticeiros, pseudoconhecedores das propriedades medicinais de plantas ganhavam respeito. Não tendo em quem confiar, aquela gente apegava-se a eles em seu desespero, misturando-o à ignorância cultural e científica originária da ausência de uma escola local.
Após a falência das grandes fazendas, restaram aos trabalhadores (mão-de-obra acostumada a serviço bruto) subempregos mal remunerados nas fábricas instaladas nas proximidades. Para chegar ao trabalho havia apenas uma opção: o caminhão da Prefeitura de Pitangueiras que distribuía, em turnos, os homens pelas fábricas. O outro único veículo a roncar o motor na rotina dos santanenses era a destratada caminhonete de Zé Matos, dono de um bar e armazém, fornecedor de mantimentos da população. Foi esse Zé Matos quem, apertando os olhos, aprofundou primeiro o olhar sobre o par de estranhos que o vento trazia a Santana.
Num tronco de árvore seca, em forma de banco, sob o sol que castigava as testas das mulheres na porta dos casebres, ardendo de sede e de fome, Adão deitou-se como desmaiado. Abela, estática, impotente; o suor escorrendo pela testa, deixou-se ali a olhá-lo como se a parada a apetecesse.
Movido por um misto de curiosidade e pena cristã, Zé Matos largou o balcão e caminhou até os visitantes. Abela, tão longe, não acompanhava esse movimento, e mesmo quando o homem chegou bem perto, pareceu não notar sua presença.
Vendo a menina naquele estado, resolveu cutucar o braço do seu companheiro, que cobria o rosto, protegendo-o do sol.
O braço movimentou-se lentamente, como se aquilo custasse um esforço enorme. Adão mordeu os lábios, tentando inutilmente umedecê-los, esticou a testa para forçar o movimento dos olhos, que se fecharam novamente no momento em que rolou pelo tronco e foi ao chão.
A isso tudo Abela não reagiu. Zé Matos, estranhado daquela cena e daqueles seres, gritou por Quirino que aproveitava a sua folga do trabalho no curtume. De dentro do bar, segurando um copo de cachaça, o moço apareceu.
- Vem cá, Quirino! Ajuda a carregar esse pobre coitado pra sombra.
Quirino olhava os dois homens e a menina inerte, tentando elucidar a situação.
- Ô Quirino, larga a pinga e me ajuda. – no que Quirino acordou da contemplação e correu a acudir o amigo.
- Isso não manguaça não Zé? – perguntou meio baixo pra que a menina não escutasse.
- Não... que desse assunto eu conheço... Nem bafo o sujeito tem. É calor. Precisa é de água pra se refrescar. Vem menina! Vamos cuidar de seu pai.
Abela, embora não olhasse, levantou-se e seguiu os dois até o bar.
II
Três copos de água pela testa e pela boca acordaram Adão, ainda meio fraco de raciocínio.
- Eta nóis! – admirou-se Quirino.
Dessa vez, a voz veio saindo, arrastada:
- O caminho... muita estrada...
- Vem de onde?
- De um mundo de lugar... Nem sei o último.
Fez uma pausa. Percebendo os olhos arregalados de curiosidade dos inquiridores, procurou forças para emendar a história.
- Despejaram a gente. – virando os olhos para Abela – Estou procurando serviço e lugar pra dormir.
Zé Matos trocou um olhar de dúvida com Quirino.
- E tem dormido onde?
- Pelo caminho mesmo. A sorte tem sido pouca.
“Não é maior aqui”, pensou Quirino.
- E a mãe dela? – desviando também o olhar para Abela.
- A mãe... a mãe morreu logo depois que ela nasceu.
- Quer um doce, menina?
Abela, ao contrário de mirar a pergunta, encontrou com as vistas o objeto da mesma, fixando o olhar nos doces do balcão.
- Ela não fala. Dizem que foi problema no parto. Ficou assim.
Zé Matos pegou um punhado de doces e ia desdobrar os dedos de Abela, quando a menina escondeu rapidamente a mão para não ser tocada. Intrigado, mas piedoso, o dono do bar deixou os doces a uma distância que a própria Abela pudesse alcançar. A menina olhava-o de um modo que fê-lo recuar um passo e foi só aí, segura do afastamento, que ela recolheu as guloseimas do balcão.
Zé Matos preparou dois pratos de comida para alimentar os esfomeados e deixou-os descansar. O homem, estirado sobre um grande banco, permanecia de olhos fechados, enquanto a menina, sentada, quieta, olhava para fora. Ao dono do bar, a cena se apresentava como um grande contraste, pois tinha a impressão de que Abela, mesmo com olhos abertos, é quem dormia. E havia algo que indicava uma grande atenção nos olhos cerrados do viajante, assim como um cão que dorme com as orelhas de pé. Depois de algum tempo, ele se levantou, mostrando um pouco mais de agilidade. Estava recuperado, pelo menos em parte, do cansaço. Do fundo do armazém, Zé Matos escutou:
- É muita caridade sua, moço.
- Nada...
- Vamos voltar para a estrada. Vamos, menina!
- E pra onde é que vão?
- Tem umas fábricas por aqui, hein? Vou bater nas portas e pedir emprego.
Quirino, encostado à porta da do bar, franziu o sobrolho.
- Olha, moço – e só aqui Zé Matos lembrara-se de não saber o nome do sujeito – é muito longe pro seu estado... Convém esperar o caminhão que traz os empregado à tardinha. Ele vem e volta pra Pitangueiras.
- Isso demora?
- Bom, demora menos do que chegar lá a pé, não é mesmo? Fique aí, que o caminhão pára aqui na porta. Assim não obriga a menina a andar mais e dormir na estrada.
- Vamos fazer isso, então. – concordou com certo desânimo o viajante.
Abela, agora deitada sobre o banco de madeira, dormia com uma feição séria, que não é de criança dormindo. Adão perguntava sobre as fábricas e sobre empregos possíveis, ao que Zé Matos e Quirino respondiam sem oferecer muitas esperanças. O cheiro de suor que vinha do corpo de Adão já não era disfarçado pelo vento que ia se acalmando. Polidamente, Zé Matos lhe ofereceu uma bacia e uma torneira no fundo do bar para que se refrescasse. Adão aceitou constrangido, mas logo perguntou se também podia levar a menina.
De longe, pelas frestas das prateleiras, Zé e Quirino, observavam desconfiados os dois num pequeno quintal atrás do armazém. Espantaram-se com o fato do próprio pai tomar conta do banho de uma mocinha daquela idade, em que já se viam despontar, por baixo da roupa, bicos de seio e uma certa grossura de pernas. Mas lembraram-se da história do parto e do estado vegetativo da menina, que, evidentemente, não deveria resumir-se apenas a sua mudez.
Uma hora depois do banho, chegava o caminhão. Entre os homens, um com o pé enfaixado. Os outros falavam sobre o acidente no trabalho. O pé ficara preso quase cinco minutos na máquina. Estava inválido para o serviço. Logo Quirino pensou em Adão e sugeriu aos companheiros. Resolveram então levá-lo no outro dia para apresentá-lo ao encarregado.
- Hoje lhe arrumo um quartinho no fundo do armazém. Ajeito a menina com minha mãe e – como é seu nome mesmo?
- Adão.
- Então Adão, você se aperta no meu quarto pelo menos até amanhã. Depois a gente vê o que faz...
Abela, nesse momento, pareceu pela primeira vez mudar a expressão para algo próximo à satisfação. Adão percebera, mas mostrava-se apenas conformado; nem feliz, nem triste.
III
Após alguns dias, Adão já executava seu trabalho como empregado, em experiência, da fábrica. Ganhou algumas roupas doadas por gente do povoado, comprou fiado de Zé Matos alguns mantimentos e instalou-se, e Abela, num quarto dos fundos da casa de uma viúva; D. Lilia, vizinha de Quirino. A senhora, feliz de aumentar as economias, combinou o pagamento de um pequeno aluguel que Adão subtrairia de seu salário. Sorte de Abela, que ganhara a companhia da filha de D. Lilia: Graça, menina de olhos verdes, de mesma idade e tamanho. Embora a nova amiga não falasse, Graça, de vocabulário parco, conduzia o relacionamento como uma professora, mostrando e explicando tudo a Abela, enxergando nela mais uma irmã caçula do que uma menina deficiente na comunicação. Passavam os dias juntas enquanto Adão trabalhava, e juntas ajudavam D. Lilia na arrumação da casa, enquanto a viúva fazia marmitas, doces e salgados que mandava para vender nas fábricas. No tempo que sobrava, as meninas punham-se a brincar na terra, ou a pentear os cabelos de uma boneca velha com um também precário pente de madeira que só tinha metade dos dentes. D. Lilia costurou algumas peças para vestir Abela. Certo dia, propôs que a menina dormisse no quarto de Graça. Nesse dia, Abela pareceu sorrir mais entusiasmada, mas Adão discordou. Argumentou que era incômodo demais e que a menina se apegaria, e que aquilo não era para sempre, pois teriam que arrumar um lugar mais adequado para ficarem.
As negativas de Adão produziram em Abela uma tristeza profunda, revelada pela habitual expressão melancólica que sempre lhe apagava a infância do rosto.
Nessa mesma noite, pela janela da cozinha, D. Lilia pensou ouvir o homem falando em tom exaltado com a menina, e ficou a escutar curiosa aquele monólogo. Não se ouvia a voz de Abela, o que lhe causou uma pena profunda daquela infeliz. As palavras de Adão, não conseguiu traduzir. Estavam embaralhadas pela distância e se perdiam no quintal antes de chegar compreensíveis aos ouvidos da mulher.
No dia seguinte D. Lilia não ousou tecer comentários sobre o acontecido, para não passar por intrometida. Ao contrário, prestou-se ao trabalho de fazer entender a Abela as razões do pai para tomar aquela decisão, razões que a menina não precisava se esforçar para entender.
Na noite seguinte, ajeitou seus ouvidos nas frestas da janela da cozinha para conferir o resultado de sua intervenção. Ouviu a voz de Adão, agora mais baixa, cuidadosa, em tom de aconselhamento. Teve pena do homem e daquele martírio.
A escuta noturna virou então um hábito, mesmo não sendo possível descobrir sobre o que se falava. Imaginava D. Lilia, a julgar pelo tom, baixo, mas firme; que o homem rezava, talvez pela melhora da filha. Afetuou-se aos dois e sempre fazia sobrar algum doce para oferecer ao homem quando chegasse. Ele, sempre sério, agradecia e recolhia Abela das brincadeiras com Graça, com apenas um olhar. Os olhos verdes de Graça não tinham coragem para enfrentar os negros de Adão e ela tinha-lhe um medo, que também era pena, não dele, mas de ser o pai de Abela.
IV
Quase um ano depois da chegada de Adão, julho trazia a festa da padroeira. Faziam parte do programa das festas uma missa em frente à capela e algumas barraquinhas. Era a única época do ano em que os habitantes de Pitangueiras davam-se ao trabalho de prestigiar Santana. O prefeito daquela cidade contratava, inclusive, duplas sertanejas locais para animar o festejo. Era também um meio dos esquecidos de Santana aumentarem um pouco sua renda. As mulheres se uniam na produção de sopas, cachorros-quentes, biscoitos, bolos e todo o tipo de comida que pede uma comemoração desse gênero. As barracas eram cedidas pela prefeitura de Pitangueiras, e os homens do vilarejo faziam a armação no fim-de-semana anterior à festa. Dessa vez contaram com a ajuda de Adão, forte e recuperado das mazelas da caminhada que o levara até ali.
Graça, todos os anos, como outras meninas, vestia-se de anjo para coroar a imagem da santa. D. Lilia, desta feita, pediu ao padre de Pitangueiras, por intermédio de Quirino, que arrumasse mais uma roupinha branca e duas asinhas para que Abela pudesse também participar. Fez isso sem pedir permissão a Adão, que só descobriu ao chegar em casa e encontrar as meninas provando os vestidos. D. Lilia, que esperava uma oposição, ouviu Adão concordar secamente, apenas questionando o pagamento da roupa, que D. Lilia explicou ser emprestada pela igreja. Pediu a Adão que esperasse a prova e ofereceu-lhe um café. Bebeu-o lentamente enquanto observava D. Lilia cuidando da disposição da roupa no corpo das mocinhas. O vestido de Graça insistia em não fechar e as costas nuas, demarcadas por um “v”, davam-lhe um ar diferente daquele de um anjo. Parecia uma mulherzinha, sem se ver-lhe o rosto.
Embora ficasse resolvido que Abela participaria da coroação naquela noite, D. Lilia escutou outra briga. Mas, enfim, o importante é que Abela iria, e assim ia-se acostumando o homem.
V
No dia de Santana, todos abandonavam suas preocupações. Trocavam as reclamações por preces e ficavam muito excitados com a movimentação prometida para a noite. Alguns bebiam muito, desde o início do feriado, para homenagear a padroeira, motivo pelo qual, Zé Matos era ainda mais feliz que todos.
A noite anterior fora marcada por uma longa conversa, que D. Lilia esperara chegar até o final, mesmo compreendendo no máximo meia dúzia de palavras que não lhe permitiam organizar um pensamento completo. Dormiu pensando na preocupação do pai com aquela novidade que Abela deveria encarar. Teve pena dele.
No dia da festa, prontas para a coroação, D. Lilia, Graça e Abela saíram juntas, bem na frente da procissão. Adão esperaria Quirino para ajudar com um probleminha em uma das barracas. Junto às outras meninas, as duas ajudavam a formar uma fila de anjos, levando flores que seriam ofertadas à imagem carregada pelos fiéis. Ao fim da procissão, foi isso que fizeram. Uma a uma, depositaram ao pés da padroeira a flor que carregavam, ajoelharam-se, fizeram nome-do-pai e retornaram à fila. Abela não se ajoelhou. Após lançar com desdém a flor sobre a imagem, virou as costas e voltou ao seu lugar. Ninguém que a conhecia estranhou a atitude. Tiveram pena e rezaram para que fosse concedido um milagre para seu mal.
Após a missa, um estouro de fogos chamou as palmas dos presentes e encerrou a parte verdadeiramente religiosa da festa. As barraquinhas começaram a vender comida e principalmente bebida, animadas pela música dos cantores de Pitangueiras.
Graça, sempre encantada com aquela agitação, observava as roupas diferentes dos visitantes e até já reparava nos meninos mais bonitos, que mostrava a Abela. A outra parecia angustiada, tensa. Mordia os lábios com impaciência, esperando talvez o momento certo para fazer o que devia. Não tardou a decidir-se. Puxou Graça pelo braço como a dizer-lhe que queria mostrar algo. Saíram voando pela ruela, e Graça, sabendo não adiantar fazer perguntas, seguia Abela rindo, como se lhe destinasse alguma maravilhosa novidade.
Abela continuava segurando firme o braço de Graça, que começou a sentir-lhe a força e pediu que a soltasse. Seguiria sem a necessidade de ser puxada.
Pararam apenas à porta da casa de D. Lilia, àquela hora, iluminada apenas por duas velas oferecidas à santa. Ainda estavam de asas e, ao entrarem, precisaram ser cuidadosas para andar pelos pequenos espaços da casa. Abela conduzia nervosamente a amiga até seu quarto nos fundos, como se fosse lhe revelar algum segredo fantástico Ao parar em frente à porta,. Graça teve um estremecimento, por causa do negrume que as cercava. Abela fez-lhe entrar e girou a chave. Graça procurava enxergar com dificuldade alguma pista que esclarecesse aquilo. Subitamente, um braço forte e peludo prendeu-lhe o pescoço. Assustada, balançava os braços, procurando o corpo de Abela. A voz estava presa. Lutava com o escuro e contra a mudez, que tantas vezes causara-lhe a pena da amiga.
Os mesmos braços giraram seu corpo, prenderam-lhe as mãos e atiraram-na para a cama quebrando as asas sob suas costas Com a garganta livre, ensaiou um grito que dois tapas no rosto calaram. Chorava e tremia de horror.
Abela sentara-se na frente da porta fechada, abaixando a cabeça contra os joelhos. Estava presa num transe, no mesmo transe em que se enclausurara desde que tivera o corpo devassado pela primeira vez sem mesmo compreender o significado do que lhe causara tanta dor.
Ouviu o som do vestido de Graça sendo rasgado. Ou era o seu vestido que se rasgava como da outra vez e tantas outras vezes em que, escutando as ameaças daquele homem, submetia-se a sua força. Pensou na imagem da santa e desejou que suas asas de anjo pudessem realmente fazê-la voar.
Assim também desejou Graça. Lutava contra armas que não conhecia. Um corpo pesado lhe cobria e forçava-lhe as entranhas imaturas fazendo-a sentir dores violentas, silenciadas pela mão que lhe tapava a boca. O vestido branco, sob a escuridão, manchava-se eternamente de vermelho. Após alguns minutos, exausta do combate desigual, Graça entrou em estado de choque e desmaiou. O homem tomou seu corpo nos braços e foi em direção à porta. Abela levantou-se ao sentir os pés lhe encostarem. Cruzaram a casa e saíram os três caminhando no sentido contrário à agitação da festa. Adão tomou o mesmo caminho pelo qual chegara, e saiu de Santana carregando Graça no ombro e arrastando pela mão direita a mudez da menina-moça Abela,