Guerra Junqueiro

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A Um Amigo

Vivo triste, sempre dado
Ao martírio, à dor, ao pranto:
A vida, por meu mau fado,
Não tem para mim encanto!

Nasci p'ra ser desditoso
P'ra ser feliz não nasci;
Uma espr'ança, um sonho, um gozo
Nunca n'alma conheci!

Mas dá-me a tua amizade,
Que, sendo tu meu amigo,
Pode ser que a f'licidade
Venha ainda ter comigo.

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Regresso ao Lar

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Cante-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...


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Marcha do Ódio
À Colónia Portuguesa do Brasil

Ódio ao pirata, ódio ao bandido,
Ódio ao ladrão!
Ódio de estóico, que é vencido:
Para morrer, - sem um gemido!
Para matar, - sem um perdão!

Ódio danado, ervado, infrene,
Ódio mortal!
Ódio que turve e que envenene
A fonte angélica e perene
Do branco leite maternal.

Ódio que vá, contínua herança
De luto e dor,
D'alma do velho à da criança,
Como uma seiva ébria d'esp'rança
Duma raiz para uma flor!

Ódio que o Beijo, verdadeiro
Íman de Deus,
Transmita eléctrico e ligeiro,
Quer, a sorrir, no amor primeiro,
Quer, a expirar, no extremo adeus!

Ódio, facada escancarada
De canibais,
Boca blasfema d'alvorada,
Sempre a sangrar, nunca fechada,
Nunca, Jamais, jamais, jamais!

Ódio que, assim, como um cautério
De fogo atroz,
Requeime o egoísmo deletério,
Fermentação de cemitério
A apodrecer dentro de nós!

Ódio, explosão duma cratera,
Rubro e febril!
Ódio invencível como a hera,
Ódio com dentes de pantera,
Ódio com babas de réptil!

Ódio inflamando-nos, gangrena
Canicular!
Ódio d'Alsácia e de Lorena,
Ódio de mãe, - mulher ou hiena,
Se um filho, ó Deus, lhe vão matar!

Ódio sublime, hóstia com travos
De raiva e fel!
Hóstia da missa dos escravos,
Hóstia mais doce para os bravos
Do que a ambrosia e do que o mel!

Ódio feroz, cilício ardente
Cosido aos rins!
Ódio demente, ódio estridente,
Ódio que morda e ensanguente
A boca em brasa dos clarins!

Ódio sem termo, ódio sem jugo,
Ódio sem lei!
Ódio d'herói, que, digno d'Hugo,
Sob o montante dum verdugo
Cospe inda insultos contra um rei!

Ódio de monstro ensanguentado
Numa prisão,
Ódio bradando, - inútil brado!
Como uma cruz num descampado,
Como um punhal num coração!

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A um Amigo

Regresso ao Lar

Marcha do Ódio

O MELRO

 

 

 

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