Balada da Neve
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, não é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.
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Sextilhas a um
Menino Jesus de Évora
Num convento solitário
De Évora, cidade clara,
Claro celeiro de pão,
Existe uma imagem rara,
Obra dum imaginário
Dos tempos que já lá vão
É um Menino Jesus,
De bochechinha brunida
Cor de maçã camoesa,
Mas no seu rosto transluz
Uma expressão dolorida
Que enche a gente de tristeza
De tantíssimas imagens,
Nenhuma vi que mais prenda,
Que maior ternura expanda,
Com suas calças de renda,
Seu vestido de ramagens,
- E coroa posta à banda
Gordo, nédio, bem trajado,
Deveria ser feliz,
Deveria estar sorrindo;
Mas o seu olhar magoado,
Tão magoado, tão lindo,
Que não o é, bem no diz
Se não fosse por ser Deus
E o seu poder infinito
Ter sempre que demonstrar
Cá na terra e lá nos céus,
Estenderia o beicito
- E desatava a chorar!
Corre o tempo descuidado,
Passa uma hora, outra hora,
Atrás desta outras se vão,
E, quem o vê, encantado,
Sem se poder ir embora
Numa perpétua atracção
Eu entrei com o sol a pino.
Pouco depois da chegada
(Pouco a mim me pareceu)
Deixei de ver o Menino
Não era a vista cansada,
- Foi a noite que desceu
Mesmo assim lá ficaria,
Absorto em muda prece
De quem mal sabe rezar,
Se o sacristão não viesse,
Com rodas de Senhoria,
Dizer-me que ia fechar
Pudesse tê-lo trazido
E não fosse eu rico, apenas,
De fantasias, de esp'ranças,
Punha-o num nicho florido
Por sobre as camas pequenas
Dum hospital de crianças
Dum hospital modelar
Sustentado por meus bens,
Entre olaias e roseiras,
Cheio de sol, cheio de ar,
E em que as boas enfermeiras
- Seriam as próprias mães
A mais ampla enfermaria
Desse escolhido local
De bondade e sofrimento
- Era o fundo natural
da funda melancolia
do Menino do convento
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O Passeio de Santo António
Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.
Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando
E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.
Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.
Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia
o coração no peito.
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada
Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.
- Tu não estás com a cabeça boa
Um passarinho a cantar assim!
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,
Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!
Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas
E abalaram pró convento.
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Toada Para as
Mães Acalentarem os Filhos
Ó Desgraça! Vai-te embora,
Que esta linda criancinha
Andou no meu ventre e agora
Trago-a nos braços. É minha!
Do berço, segue-me os passos;
Onde eu vou, seus olhos vão
E quando a aperto nos braços
- Abraço o meu coração.
Quando o seu choro receio,
Embalo-a, faço que aceite
A alegria do meu seio
Na brancura do meu leite
E quando assim não descansa,
Que tristezas me consomem!
- Mas antes chore em criança
Que depois, quando for homem
Se ao dá-lo ao mundo sofri
Tormentos, ânsias mortais,
Desgraça, vai-te de aqui,
O que pretendes tu mais!?
Bate as asas, mas ao voares
Não me apagues esta estrelha.
Se alguém de aqui precisares,
- Aqui me tens, em vez dela.
Tocam à ave-marias.
Foi-se o sol. Não vem a lua.
Luzinha que me alumias,
Que sorte será a tua?
Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade também,
Que ao redor donde tu andes
Não fique pobre ninguém.
Que a todos chegue a ventura:
Toda a boca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor, consolação
Mas se o oiro é mau caminho,
- Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.
Iremos por esses montes
Altos e azuis como os céus
Que onde há frutos e onde há fontes,
- Está a mesa de Deus!
E, quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir
(Aceitar o que nos derem!)
Andaremos à mercê
Dos génios bons e dos falso,
Léguas e léguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços
E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos
- Passarás por cima dele!
Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o sol. Nasceu a lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?
Se um crime tens de fazer,
Antes fique vago um trono,
Antes um palácio a arder,
Do que uma enxada sem dono
Se, porém, no teu destino,
Há tão cruentos sinais,
Dorme, dorme, meu menino,
- Não tornes a acordar mais!
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Joaninha
Descanse de quando em quando
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?
Descanse de quando em quando
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
- Não lhe faz bem, certamente;
Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos de olhos em si
Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo de ir pensando
Em casar. Não é assim?
Se não lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.
Desde os começos do Outono
Que eu a trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que não
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I
Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena.
Uma das santas do céu
- É Maria Madalena
II
Minha mão foi o que eu sou.
Eu sou o que tantas são.
Que triste herança te dou,
Filha do meu coração!
III
Meu pai foi para o degredo,
Era eu inda pequena.
Se não morresse tão cedo,
Morria agora - de pena
IV
E há no mundo que afronte
Uma mulher quando cai!
Nasce água limpa na fonte,
Quem a suja é quem lá vai
V
Aquele que me roubou
A virtude de donzela
Se outra honra lhe não dou,
- É
porque só tive aquela!
VI
Nós temos o mesmo fado,
Ó fonte de água cantante:
Que te quer, pára um bocado,
Quem não quer, passa adiante
VII
O meu amor, por amá-lo,
Pôs-me o peito numa chaga:
Deu-me facadas. Deixá-lo.
Mas ao menos não me paga!
VIII
Nem toda a água do mar
Por estes olhos chorada,
Daria bem a mostrar
O que eu sou de desgraçada!
IX
Como querem ver contente
Este país desgraçado,
Se dão só livros à gente
Nas escolas do pecado
X
Dormia o meu coração
Cansado de fingimento.
Bateste-me, e vai então
Acordou nesse momento
XI
Se aquilo que a gente sente,
Cá dentro, tivesse voz,
Muita gente
toda a gente
Teria pena de nós!
