ROTEIRO DE CURTA-METRAGEM de Ana Bowlova
&
TITULO: SOB OS ESPELHOS DE UMA ILUSÃO
DON JUAN NO SECULO XX
OU EM BUSCA DE UM AMOR PERDIDO
Personagens:
Ferdinand: Jornalista, francês, divorciado, cinqüentão.
Aventureiro. Um Don Juan decadente. Passional.
Fanny: mãe solteira, mulher forte, de fibra, mas muito romântica.
Fiel, vive para o trabalho. Introspectiva.
Júlia: jovem aspirante à atriz, charmosa, bonita e simpática.
Extrovertida, autêntica, genuína. Agressiva.
A câmera passeia pelas ruas de Nova York. Vai avançando por
sobre uma via, cruza a avenida e chega ao outro lado em frente às
portas de um teatro pequeno, mas aconchegante. Abrem-se as portas do teatro
e a câmera se transporta ao redor da platéia, até chegar
ao palco. De lá, visualiza-se a cena que se segue:
Uma pequena plataforma no meio do palco diferencia a cena teatral, inserida
na peça a ser encenada. Esse pequeno espaço cênico é
móvel. No palco, a atriz interpreta o seu papel. Júlia em cena
se transforma em Julie, uma camponesa do século XVII, que se encontra
seduzida por um Don Juan. Quando a atriz retorna do palco ela volta a ser
Júlia. Do outro lado, atrás do palco, no camarim, um
grande espelho, rodeado de lâmpadas brancas, ilumina o local. Uma mesa
de madeira com restos de maquiagem compõe o ambiente, como também
um sofá, próximo ao espelho, recoberto de roupas de Teatro.
Uma cortina semi-cerrada deixa transparecer um retrato de uma mulher de traços
fortes.
Numa remontagem da peça de teatro de Molière, sob uma adaptação
especialmente realizada para os nossos tempos, surge uma nova alusão
ao célebre Don Juan, tantas vezes encenado, dezenas de vezes adaptado,
e agora, de certa forma, ironizado.
Dois atores representam os papéis de Julie e Don Juan. Júlia,
como Julie, de frente à platéia, com as luzes diretamente sobre
sua face. O ator, caracterizado de Don Juan, està de costas para o
público, sob a penumbra, como uma sombra ou um vulto enorme, como
se engolisse a cena, devorando-a no papel do lobo:
DON JUAN: Ah, cá está uma bela camponesa.
Apesar de traços rudes, ela é bela, com certeza!
(Ele se aproxima de Julie. Como a moça parece não notá-lo,
ele se dispõe à sua frente,
num salto ridículo, quase cômico.)
DON JUAN: Com licença, mas podes ajudar-me? É um caso de vida
ou morte!
(Julie se sobressalta e tenta fugir. Pára por um momento, e põe
a mào sobre o seu peito semi- despido.)
DON JUAN: Espera! Preciso saber teu nome…(Ela volta.) Voltastes, mas que
sorte!
Diga-me teu nome ou terei um possível derrame… Como queres que eu
te chame?
(Julie começa a rir, agora está com as mãos à
boca, em ar de espanto. Ela cora e sorri. Com as mãos ainda em seus
lábios ela deixa sair um som quase imperceptível):
JULIE: Julie.
DON JUAN: Ah, mas “C’est jolie!”
Teu nome é uma verdadeira inspiração para mim, sabes,
Julie?
JULIE: Verdade?
DON JUAN: (à parte) Como pode ser assim tão ingênua e
sem nenhuma maldade…
JULIE: O que dizes, senhor?
DON JUAN: Digo-te, meu amor:
Fico comovido diante de tanta beldade!
Aproveitando o ensejo…
Alguma vez, vistes teus olhos; eles me enchem de desejo!
JULIE: (surpresa) Claro que já; sob o espelho.
DON JUAN:(gracejando) E eu tenho que ter tanto empenho…Que fedelho!
JULIE: Como?
DON JUAN: Digo: No espelho! Mas então nunca os vistes como agora os
vejo.
JULIE: Como assim?
DON JUAN: Oh, que bobinha, princesinha! O espelho é só um reflexo.
Ele não transmite a energia do olhar…Pior, ele reflete tudo ao inverso.
JULIE: Que terrível! Mas e se eu olhar assim de perto. (Ela se aproxima
de Don Juan.)
DON JUAN: (cobrindo os seus olhos) Cuidado, ou poderás cegar-me, estou
certo! Com estes teus olhos feres o brilho da mais bela e reluzente estrela
numa noite escura e sem lua!
Queria mesmo é ver-te toda nua…
JULIE: (fazendo como se não tivesse escutado) Acho os meus olhos tão
normais…
DON JUAN: Não para nós, pobres mortais!
Estes teus olhos são mesmo fatais!
JULIE: (aproximando-se mais) Teus olhos azuis é que são de
uma beleza sem par.
DON JUAN: Não fales assim. Deixas-me com falta de ar!…(ele se abana
e declara à platéia): Assim aproveito e abano as narinas que
elas me pedem; como as camponesas fedem!…
JULIE: Pois o que estavas a falar-me?
DON JUAN: Não, não digas mais nada. Estou enfeitiçado
com teu charme.
JULIE: Dizes isso só para me conquistar.
DON JUAN: (dirigindo-se à platéia, inclina-se com uma das mãos
protegendo a boca ao falar) Até que a danadinha pescou alguma coisa
no ar.
(Volta-se para Julie, novamente): Absolutamente!
Achas que alguém, tão emocionado diante de tanta beleza, mente?
Poderias fazer grande sucesso. Digas-me: Já pensastes em ser modelo?
JULIE: Eu, modelo? Como poderia fazê-lo?
DON JUAN: (indignado, dirige-se à platéia de novo) Eu mereço.
(ele a pega pelos braços e sussurra em seus ouvidos): Sereis famosa
como as modelos nos quadros de grandes pintores.
JULIE: (exultante) E aparecerei nua num dos quadros de Ticiano, como Vênus?
DON JUAN: (em voz baixa) Se ele ainda fosse vivo…(para ela): Veremos.
JULIE: (sonhadora) Estarei num quadro de um dos grandes pintores…
DON JUAN: (estupefacto) Oh, não me causes tantas dores. (Ele
aproveita o clima e passa suas mãos sobre os ombros da menina.) Não
só de um, mas de todos dos arredores!
(Julie se excita diante de tal proposta, mas demora-se em obter uma resposta.
Ela põe as mãos sobre o rosto e começa a chorar, copiosamente.)
DON JUAN: (aflito) O que te afliges, meu bem?
JULIE: Vou casar-me a semana que vem.
DON JUAN: Não me digas! Então o destino na hora certa dirigiu-me.
( Abraça-a com força, como se a estivesse protegendo de um
perigo eminente.) Para impedir-te de cometer este crime! (Ele continua, agora
cada vez mais ousado, com as mãos sobre a sua cintura):Não
podes desperdiçar-te toda esta tua beleza, para os cuidados domésticos,
e também para os respectivos serviços maritais de banho, cama
e mesa!
(Ele dirige um olhar maroto à platéia. Acaricia o corpo da
garota, beija-lhe os cabelos e diz num ar matreiro): Minha Julie, tratar-te-ei
como uma princesa…
JULIE: Esqueças!
DON JUAN: (à parte) Que tratamento mais esnobe… Se ainda fosse como
um nobre. Isso é tão esdrúxulo!
(E continua na empreitada para conquistá-la): Dar-te-ei amor e luxo!
Não me trates assim, como um bruxo!
Além disso, farei de ti uma estrela famosa…Terás o mimo
de todos, como uma jóia preciosa.
Ah, como és bela! (Pega-lhe pelos braços e a faz girar em torno
de si mesma): És formosa e um tanto quanto singela…Serei orgulhoso
de poder desfilar (disfarça, tossindo), digo, compartilhar a tua beleza
e a minha felicidade, com toda a sociedade.
JULIE: Mas eu me constranjo diante de tua idade.
DON JUAN: (engasgando) Ai, mas que fera! Pelo menos é sincera.
JULIE: O que dizias?
DON JUAN: Vamos, não espera. Vem comigo. Mostrar-te-ei o mundo e suas
riquezas.
Eu lhe pago as despesas.
JULIE: Mamãe sempre me disse para eu desconfiar da nobreza.
Que os nobres fazem qualquer coisa para nos seduzir.
DON JUAN: E eu prometo proteger-te de todos eles.(Julie se ri) Podes rir.
(Ele perspassa seus braços por sobre os dela0: É melhor nos
irmos.
JULIE: (relutando para desfazer o abraço) Antes de mais nada, devo
contar tudo à mamãe, que serei rica e famosa.
DON JUAN: Não há tempo. Depois tu contas, minha formosa!…
JULIE: Mas tenho que buscar as minhas coisas…
DON JUAN: (Segura a garota pela cintura e não a deixa escapar) Devemos
apressar-nos.
Temos um encontro com Leonardo.
JULIE: Da Vinci!
DON JUAN: Não, de trinta!
Vais gostar dele. Ele é uma boa pinta.
(Ele a empurra por trás, ela dá um pulo para frente e os dois
dão uma risada espalhafatosa):
Vamos, sua faceira. Vamos para a ceia! (Don Juan a belisca e mexe em sua
saia rodada, ela ri como se fossem cócegas. Ele grita): Eia!
(Ela brinca com ele e sai correndo. Ele olha para a platéia, pisca
um olho e corre atrás dela. Saem de cena.)
Por detrás das coxias aparece um homem vestido de terno e gravata,
como que escondido, e assistindo à peça, sem que ninguém
o veja. Ele segura uma mala de viagem. Após alguns segundos observando
a encenação que continua no palco, ele passa pelo camarim e
durante um longo período, observa a cena. Aproxima-se do espelho,
e repara em seus fios de cabelos brancos. Arranca-lhe um. E mais um. Vê
que não adianta muito, e desiste. Olha-se bem de frente ao espelho,
e parece ver a imagem do jovem que havia sido.
Depois de ter voltado novamente em cena, a atriz entra no camarim em seu
vestido armado, de tecido velho e acetinado, esbaforida e transpirando muito.
A priori, ela não percebe a companhia. Inicialmente, um choque de
épocas.:Ela se olha no espelho e vê uma mulher nos meados do
séc.XVII, em plena Idade Média. A posteriori, ela se
surpreende com o reflexo no espelho do homem que está atrás
dela, e então revela seu aturdimento:
JÚLIA: Ferdinand! Quelle surprise!
Ela desfaz a máscara de sua personagem, sem despojar-se de seu traje,
e simula um abraço, pois que suas vestes a impedem de realizar
movimentos bruscos.
Ferdinand avança em sua direção e a abraça com
carinho.
FERDINAND: (Depois de desfazer o abraço)Você deve estar morrendo
de calor.
JÚLIA: E você então. Tira esse blazer, que vendo você
assim me dá ainda mais calor. Aqui não é o Brasil, mas
o verão daqui é de impressionar. En toute façon, aqui
tampouco é Paris prá você se trajar desse jeito.
FERDINAND: É que venho de viagem da Europa. E lá ainda está
um pouco frrrrrrrio.(Treme o corpo, simulando estar gelado). E eu sou muito
friorento. Detesto passar frio.
JÚLIA: Ah, eu também. Prefiro passar calor. Sempre digo que
nasci no lugar certo. Eu vim aqui mesmo só pra fazer um tour com a
minha trupe.E você, por que deixar o Brasil desse jeito, por
tanto tempo?
Ela sorri e empurra as roupas no sofá, para arranjar mais espaço
para os dois sentarem.
JÚLIA: (que não pára de olhar para ele) Ah, esqueci
de tirar esta roupa que incomoda tanto. Como as mulheres dessa época
agüentavam tanto sofrimento? E esse espartilho então, está
me matando…
FERDINAND: Você quer que eu te ajude?
Ela retira o vestido e veste rapidamente uma blusa de número maior
que o seu, que cobre o seu corpo até os joelhos.
JÚLIA: Como sempre tão gentil. Você é um gentleman.
Ou mais apropriado dizer, un vrai “gentilhomme”, como existiam à época
que foi escrita essa peça que estou encenando. E como são raros,
tanto mais nos aproximamos do século XXI.
FERDINAND: Ah, quase ía me esquecendo; trouxe flores para você.
Não é um hábito receber flores no camarim? (Ele olha
ao redor e percebe que não há nenhum ramo.)
JÚLIA: Eu recebo de tudo: Balas, bombons, flores, até tortas
de framboesa, claro, que é a que eu mais gosto. (Ela mostra as tortas
que estão sobrepostas na mesa de maquiagem.) Mas só há
uma regra no teatro: para se começar um espetáculo, sempre
dizemos “Merda”, para dar sorte. E nem se pode responder obrigado, senão
dá azar. Superstição boba, mas que funciona…
FERDINAND: É, vocês brasileiros são cheios de superstições,
não é mesmo?
JÚLIA: É, mas isso é mais uma coisa do meio teatral.
Engraçado, né? Se a gente deseja boa sorte, é sinal
de azar. É tudo maluco na vida artística, e eu adoro isso!
Essa vida louca da gente, que parece mais real que a vida que uma pessoa
normal leva. Como você. Ainda no “bulot, metro, dodo”?
FERDINAND: Não, na verdade eu nunca tive uma rotina, de ir trabalhar
todos os dias, pegar metrô lotado e depois só ter energia para
ir para casa dormir. Nunca achei que isso fosse viver. E sempre lutei para
jamais viver dessa maneira.
Ela acaricia as flores que ele lhe deu, pensativa: “ Merci beaucoup. Cést
très gentille!” Ela acrescenta: Você ainda se lembra que eu
gosto de flores vermelhas, não?
FERDINAND: Os botões vermelhos são para as mulheres apaixonadas…
JÚLIA: E você sempre soube que estive apaixonada. Senão
por alguém, por algum ideal, uma idéia, pela vida!…
Ferdinand parece estar aéreo, sonhando. Ela interrompe seus devaneios
dizendo:
JÚLIA: Eu não tenho nada para lhe oferecer. Quem sabe eu tenha
um champagne por aqui…
FERDINAD: Non, merci. Eu já bebi muito vinho no avion.
JÚLIA: Por que você não vem outro dia, para que veja
o espetáculo por inteiro, e não pela lateral, como você
fez, espreitando pelas coxias. Eu já o havia reparado, só não
sabia que era você, o homem misterioso.
FERDINAND: É que eu não posso ficar, só vim mesmo para
te ver exclusivamente. Tenho que fazer uma reportagem sobre os testes nucleares
na India. Só vim mesmo porque você me escreveu me convidando
para sua estréia em New York. E essa eu não poderia perder
de jeito nenhum. Pena não poder ficar mais que algumas horas, tenho
que pegar o avião ainda hoje. Vida de jornalista é très
estressante.
JÚLIA: Nossa, mas é pra ontem, então?
FERDINAND: Comment?
JÚLIA: Deixa pra lá. Como se diz em francês, “laissez
passer, laissez tomber”. (Ela não deixa de demonstrar toda a sua frustração.)
Bom, já que você não vai poder me ver no palco, deixa
eu te contar como é a peça: Eu sou Julie, como a mulher em
todas as mulheres, que sofre os mesmos preconceitos, os mesmos constrangimentos,
os mesmos dilemas, e as mesmas provocações. No final, a gente
percebe que tudo se repete, e a vida não passa de uma peça
de teatro, onde os personagens estão sempre mudando de papel, apesar
de serem os mesmos a atuar; mas a história é sempre a mesma,
só muda o lugar. Apesar de estarmos sempre evoluindo, continuamos
caindo nos mesmos erros, e gerando sempre os mesmos dissabores.
Ferdinand olha para Júlia e começa a fantasiá-la, num
enorme palco feito de cristal, e ela em cima, em cena, com vestes brancas
esvoaçantes, como se fosse uma deusa grega, atuando no Olimpo:
JÚLIA: A vida é energia. E energia é viver, amar, comer
e morrer, para depois renascer de novo, num ciclo constante, em contínua
mutação, até que entendamos o significado da vida; que
às vezes está na nossa frente, e a gente não vê.(Júlia
começa a dançar ao som de uma música tipicamente grega.)
JÚLIA: (de volta, em seu camarim) A peça se baseia num Don
Juan moderno. Entre as centenas de vertentes, surge esta que tenta recolocar
o Don Juan à atualidade. Julie é uma camponesa tímida,
que deseja encontrar um homem de verdade, e acaba por cair nas armadilhas
ardilosas de um hábil conquistador. Por fim, ela perde sua honra com
ele, que a deflora sem piedade, e a despedaça num covil de raposas,
mas como um anjo descaído ela se revolta contra seu mestre, e quem
sai perdendo é o próprio feiticeiro que toma de seu feiti;ço,
para acabar nas garras daquele que subjugou. Ele que a seduziu, tornou-a
ainda mais sedutora. E ela o destrói; destruindo o seu criador, ela
se vê livre, mas também acaba perdendo. No final, todos perdem
quando lutam uns contra os outros; não seria melhor ajudarmo-nos,
ao invés de destruirmo-nos?
FERDINAND: Parece que a peça se volta sobre o tema da paixão,
levada à obsessão e à morte.
JÚLIA: É como um espelho que reflete todos os nossos atos,
pois, no final, Don Juan amou tanto as mulheres que morreu por elas.
Por ter seduzido Julie, ele a transformou no outro lado obscuro de si mesmo,
e portanto, tão poderoso, senão mais, pois que é desconhecido,
e assim, ameaçador.
FERDINAND: (mostrando-se perturbado) E você se sente na pele dessa
Julie, seduzida pelos homens, e os ama e os odeia ao mesmo tempo?
JULIA: (em tom áspero) E por que você está insinuando
isso? A única mulher, acredito seja um anjo, que jamais caiu em tais
armadilhas, foi a mamãe. E você e mamãe eram almas tão
diferentes, como o sol da lua, e o fogo do gelo.
(Ela se mostra visivelmente abalada. Suas mãos tremem, enquanto ela
tenta exasperadamente recolocar o vestido de volta no corpo.) :
JÚLIA: Com licença, mas devo retornar ao palco, para agradecer
aos aplausos.
Ferdinand se recorda de momentos do passado. Imagens de um passado distante,
e de outros passados mais remotos ainda. Ele se deita no sofá e tenta
relaxar. Pega o retrato da mulher que está ao lado do espelho. Ele
olha tão profundamente para dentro da fotografia, que a imagem
começa a tomar vida, e se revela tridimensinal. Surge uma mulher diante
dele, muito parecida com Júlia, porém bem mais envelhecida:
FERDINAND: Fanny!
A mulher o ignora e se afasta, dando-lhe as costas, e atravessando o espelho.
FERDINAND: Fanny, Fanny, por favor, perdoa-me. Agora que te perdi, que já
não posso mais estar contigo, que percebo o quanto eu te amei…
A imagem de Fanny sob o espelho é refletida e se funde à imagem
de Júlia que se vê chegando através do seu reflexo. Ela
retorna ao camarim e escuta o delírio de Ferdinand:
JÚLIA: O que você disse?
FERDINAND: (acorda do sonho. Fanny ainda está presente, só
que agora, encostada ao lado do sofá) Júlia, perdoa, não
quiz ser rude. Saiba que amei muito sua mãe. Muito antes de você
haver nascido, e depois que ela ficou grávida, eu tive de suportar
a idéia de que havia outro homem em sua vida, e eu fugi. Nunca
tive jeito pro teatro. Nunca fui capaz nem ao menos de interpretar meu próprio
papel. (Ele abaixa a cabeça).
Para evocar Fanny nunca pude criar ou recriar, mesmo com outras mulheres,
aquilo que ela representou para mim. Meu único e básico refúgio
foi o sonho. Eu simplesmente a idealizo. Ela se tornou um personagem para
mim. Você costumava me dizer que queria fazer teatro, para realizar
em cena todos os momentos perfeitos.
JÚLIA: E o que você acha de relembrarmos agora os nossos momentos
perfeitos. (Ela o pega repentinamente pelos braços, e tenta ensaiar
uma valsa com ele.)
FERDINAND: (extasiado e feliz) Ah, mas eu já os vivo, no passado.
Eu me lembro de tudo…
Ele pisa nos pés de Jülia, e dança de uma maneira desengonçada,
completamente constrangido, e apaixonado pela imagem da mulher em vestimentas
antigas. Eles continuam a dançar, enquanto conversam:
FERDINAND: Sabe, ma petite, eu pego tudo o que aconteceu no passado, e eu
o reorganizo na minha cabeça, como se fosse um filme, onde a tela
é a minha memória. Eu recrio tudo de novo, às vezes
sobre o papel, e assim eu escrevo um livro. É a minha maneira de ter
todos esses momentos perfeitos sempre comigo. Como eu temo em perdê-los…(Ele
está completamente envolvido pela dança. Ele se deixa conduzir
por Júlia. Fecha os olhos, e a câmera sofre um black out, para
logo aparecer imagens seqüenciais.)
Eu fecho os olhos e tento me pôr dentro do meu passado, como se ainda
vivesse nele. (Aparecem cenas de sua vida passada.) Tenho outros personagens
também.(Aparecem outros personagens que compõem vários
quadros em diversas situações.) É só se concentrar.
Júlia deixa Ferdinand de olhos fechados, para tirar seu vestido. Em
seu lugar, toma suas mãos, Fanny, que continua a valsa com ele. Ele
agora dança solto e seguro, e ao abrir os olhos vê-se diante
dessa outra mulher que ele amou.
Júlia se veste atrás das coxias. Ela está agora com
uma camiseta branca e jeans. Volta-se aos dois, mas parece que só
enxerga à Ferdinand, que parecer dançar sozinho. Ela se dirige
à Ferdinand, enquanto este dança a valsa com Fanny:
JÚLIA: Acho que todos uma vez na vida viveram essas mesmas sensações
sobre o passado.
FERDINAND: É, a vida se repete a todos, como uma peça de teatro.
JÚLIA: É por isso que eu prefiro atuar no palco…
Fanny pára bruscamente a valsa, e sai.
FERDINAND: (olhando para Júlia) No entanto, o teatro é a representação
da vida. Tomamos papéis diferentes, mas somos os mesmos a atuar.
JÚLIA: (de frente ao espelho, retirando a maquiagem) Sabia que eu
adoro o teatro, mas que eu não tive escolha? (Sua fisionomia muda,
como se ela não fosse feita de carne, só de rancores.) Que
eu fiquei muito mal, e quase morri? (Ela pára de falar e olha diretamente
para o reflexo de Ferdinand através do espelho) Que eu fiquei em coma
por pelo m,enos dois meses, e só me recuperei depois de um tratamento
psicológico, contra a anorexia que eu tive? (Ela abaixa a cabeça
e balbucia) Desde que você fugiu para o fim do mundo…(A tristeza transforma
o seu rosto, e colore de azul a sua face esbranquiçada. Ela chora
docemente, sob uma transparência etérica e frágil0 Todos
esses anos de exercícios sob o espelho, para me tornar uma bailarina.
Todos estes anos vivendo sob o espelho, espelhos de uma ilusão, quando
eu imaginava que um dia seria feliz, e você, enfim, iria tomar a mamãe
pelos braços, e dizer-lhe o quanto a amava, e a carregar pelos campos
floridos da Suíca francesa, caminhando sobre os girassóis de
Van Gogh.
Mas no final desses filmes, você sempre fugia, para algum outro país,
à procura de não sei o quê, pois que o amor verdadeiro
estava sempre à sua frente. E você fingia não ver… Ou
não queria mesmo ver.
If you like my writing, just let it known.
And if you really enjoy it, please, pass it on!
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