AMOR POETA

As Bruxas de Avignon parodia sobre “As Brumas de Avalon” apesar de basear-se em fatos ocorridos durante o percurso da historia da civilização.

“Um dia, saindo de Avignon e voltando pela estrada que leva a Grenoble, uma cidade próxima à Aix-en-Provence, encontrei um capataz que passava pelo caminho de volta a sua aldeia. Passei quase rasteira e segurei um pouco a velocidade do meu cavalo, para não levantar poeira e engolir de pó o pobre rapaz. Mas eis que este indaga, conservando sua cabeça erguida para frente, sem ao menos olhar para mim:

"Conheceu, afinal, as bruxas de Avignon?" declarou, insolente, e com certo tom de ironia.

Como pensei se tratar de mais um descrente e atrevido rapaz, respondi-lhe com uma pergunta, fazendo-me de desentendida e ingênua:

“Pois elas existem de fato?"

"Ah", respondeu o mancebo, "pois que se elas não existissem eu não estaria aqui agora, neste exato momento tendo esta conversa contigo. Pois que elas existem, sim. Todas as mulheres são bruxas. Pois que elas nos enfeitiçam, a nós, pobres homens indefesos, e nos dominam completamente, controlando nossas vidas e nossas ações. E eu sou casado com uma delas... Eu as conheço muito bem!"

"Pobre homem!" retruquei.

"Mas, considere-se feliz, pois, talvez não saibas, tens um tesouro dentro de tua própria casa." Depois de lhe dizer isso, simplesmente, segui em frente, sem ao menos olhar para trás, pois ria-me pelos cotovelos de tal declaração insólita.”

(Trecho do livro “As Bruxas de Avignon” por Ana Antunes)

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SOB o ESPELHO de uma PAIXAO “Mirrors of a Passion”

(Esse é um trecho do meu livro em inglês: “Dancing On Ice” disponível no meu website.

This is an excerpt from the book “Dancing On Ice” available at:

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Aparecem imagens como as de um longo sonho; imagens que surgem em sua memória como um filme surrealista de Salvador Dali, desordenado, sem começo nem fim.

Martin está sentado em sua escrivaninha escrevendo um artigo para o jornal. Está bastante preocupado, e tem o cenho carregado; suas rugas parecem bem marcadas, mas não tão delineadas e profundas como anteriormente. Ele parece ter pelo menos uns dez anos a menos.

Escuta-se a voz de uma mulher, doce e amorosa, e bastante despreocupada, como se estivesse em longas e repousantes ferias, bem disposta, e apenas se relaxando um pouco:

"Você que escreve sobre a educação, você crê que eu não me atenho a educação de minha filha? Meu trabalho no jornal, e agora, você; isso me faz ter pouco tempo com ela. De fato, onde está ela?

Como uma fã sempre fiel ela lê o ultimo livro de Martin: "L'arret du Coeur" escrito em francês, e que ela segue traduzindo para ele, anotando célere com um lápis as palavras quase que simultaneamente e de olhos fechados, como se houvera ela mesma escrito a obra.

"A sua filha?", pergunta ele, "ela está no seu quarto, recitando poesias enquanto ouve musica no seu walkman. Esta tarde ela me disse que ela quer fazer teatro."

"Ela é muito reservada para isso. O teatro é coisa para paranóicos e loucos"

"Você está exagerando, não é bem assim... Há de tudo, em qualquer meio."

"Não! Outro dia, depois daquela peça ridícula..."

"Como se chamava aquela peça mesmo?? Nus sobre o campo de trigo..."

"...eu digo a você o mesmo que disse ao Eduardo, nosso grande diretor: Dá de tudo mesmo! Ele riu bastante, mas depois, concordou comigo."

"Sem mais: sua filha quer fazer teatro, e ela vai ser uma atriz, e ponto final. 'Tá na cara que ela fará tudo para te contrariar. O que você insistir que ela não faca, é exatamente o que ela fará."

"Não, é você que adora me contrariar. (Um silencio). Eu sei que a gente cria os filhos, para que eles nos deixem um dia. E como os homens que não tem raiz, a gente os ama, sabendo que eles vão nos deixar"

"Você realmente acredita que eu quero te deixar?"

"Eu não disse isso."

M: "E mesmo que isso fosse verdade, seu pessimismo é absurdo; não é o tempo que conta, mas é a qualidade que vale mais que a quantidade."

F: "Não, isso eu não concordo: a felicidade está em saber que o tempo dura. Sei que você não entende isso. Para mim, a qualidade do tempo está em saber que eu vou envelhecer junto a você. Eu adoraria te ver a cada dia tornando-se um homem mais velho, como um avo, ver nascer e se aprofundar as suas rugas, observar seus cabelos que embranquecerão, e acompanhar todo o processo, dia após dia, após dia...Isso e uma coisa que eu amo muito na Europa: observar as estações do ano bem demarcadas. Aqui, no Brasil, a gente não se dá conta do tempo que passa, não há uma estação definida..."

M: "E é precisamente isso o que eu mais amo do Brasil, além das mulheres, todas sempre lindas, perfumadas e bem cuidadas...(Ele ri da cara entortada de Fanny, que comprime seus lábios para o lado, contrariada.) O que eu gosto no Brasil, é isso: essa impressão de que o tempo não passa, que seremos eternamente jovens."

F: "Viu, é bem o que eu digo: Em dez anos, ou menos, quando você acordar do seu sonho sobre o tempo imóvel, você vai parar de me amar!"



"As coisas não são assim tão simples como eu expus anteriormente ao leitor: não parti em total liberdade. Ha Fanny. Mas disto, falarei mais tarde: permanecerá ela tanto tempo em minha memória? Ou o meu sonho alucinado a apartará de mim? O romance, os personagens me possuirão, ao ponto que a empreitada de purificação se revelará total e eu esquecerei de verdade de Fanny?

Tomei um risco grande ao partir para escrever este romance ao outro canto do mundo, e eu sabia muito bem. Longe de Fanny, longe de mim, de minhas atividades habituais, a idéia de escrever um romance, assim, "tout de go", era um alibi para eu partir. Se não se trata de um risco tão grave, e um golpe na cabeça. Fanny também talvez. Estou emparedado: empurrado na parede, sem saída, sou obrigado a escrever este romance. Custe o que custar!"

Era a primeira vez que o nome Fanny aparecia em um de seus livros. E ela bem sabia que ela era a causa de seu "Arret de Coeur", seu "Ataque do Coração"...Ela era a razão e a fonte de inspiração para seu sopro de criação.

(Sua filha entra, respirando sofregamente, como se estivesse com falta de ar. Um choque...Fanny desaparece como se fora um fantasma que desvanece de repente. Martin esta mais velho, de novo):

"Minha pequena, quem é esta aqui, na foto, vestida com roupa de fantasia?" Ele tem um retrato de uma mulher vestida com uma roupa de época.

"Você não reconhece, não? Não é um traje de fantasia, é uma roupa de teatro. Essa é a mamãe!

(Ela diz, e logo pega o retrato das mãos do homem, que a observa com carinho. Ele consegue, porém, ao menos passar, ou resvalar suas mãos sobre o vidro que o cobre.)

"Tua mãe fazia teatro?"

"Ela nunca te disse isso?"

"Nao."

"Foi antes de terminar o colegial. Ela participava de espetáculos dentro da escola. E ela me dizia que o teatro é mais verdadeiro que a vida, pois que lá devíamos assumir totalmente seu papel. Foi então que eu resolvi ser uma atriz."

"Minha pequena, conte mais sobre a sua vida...Você não me deu mais noticias de você já faz quase dez anos: eu deixei uma criança e reencontro uma mulher. Conte-me sobre esta metamorfose. "

"Ah, eu já era uma menina-moça, quando você partiu, não era? A minha vida depois disso? A escola. o curso de dança, a casa da vovó em Santos, as férias na praia...Você se lembra quando a gente passeava na praia, observando os navios que chegavam ao longe, no horizonte, e deslizavam até aportarem no cais do Porto. E eu lia os nomes de cada um: "Kaliops...Kaliopi (este era velho!) O Kalipso, fora os outros navios de Cruzeiro.

Uma vez, você se lembra? Veio ao Brasil, pela primeira vez, o Rembrandt, que parou majestoso em Santos. E as historias que você me contava, sobre os navios piratas e tudo o mais. Tinha medo só de pensar que poderia me deparar com um deles. Sabia que uma vez eu estava no orelhão, ligando para alguém, e um tipo bem diferente, baixinho e gordo, veio me oferecer um trequinho engraçado que parecia um brinquedo, um pássaro de mentira, que descia uma vareta de metal e imitava um pica-pau.

E ele me perguntou em francês se eu queria comprar um. Eu lhe respondi:

"Non, merci!", muito naturalmente.

Depois que eu desliguei o telefone que eu notei que havia falado em francês, e perdi uns segundos para conversar com ele:

"Você não fala nada de português?" E ele respondeu:

"Nao!". Então perguntei, espantada:

"E como é que você se vira aqui, nesta cidade tão grande como São Paulo? Já são poucos os brasileiros que falam o inglês, imagina a coincidência de encontrar alguém que fale seu idioma?"

Então, ele me disse que havia deixado a França, para sempre para viajar sem destino. E eu perguntei:

"E a sua família?" E ele disse:

"Ela morreu durante a guerra..."

Ai, então, lembrei-me de você e indaguei-o:

"Você é um pirata?" O que ele rebateu na hora:

"Non, je n’ai pas de bateau.”

“Eu não tenho navio!" Juro que foi o que ele me respondeu. E você viu, como as suas historias me marcaram? Você se lembra que um dia, agente passeava pelas praias do Guarujá, naquela praia onde tem os barcos na beira d’água, a praia dos pescadores, onde tem os restaurantes em frente? E eu te disse que amava tanto a vida em alto mar, os barcos, as gaivotas, as ilhas, que talvez eu tivesse sido um pirata na minha outra encarnação...

M: "E, agora, você atua no teatro, e pode viver quem você quiser ser."

Julia: Teatro de novo? A gente não ficou de falar sobre a mamãe? Hoje eu penso nela como se eu não a tivesse conhecido. Fale sobre a mulher que ela foi prá você. Você acha que eu pareço com ela?"

M: "No momento você parece bastante com ela: sempre jogando a bola prá mim."

J: "Então, fale do que você quiser! Eu sou toda ouvidos."

M: Eu sei que a minha questão é um pouco absurda, que não da para contar a historia da nossa vida em somente alguns minutos, principalmente para alguém que a gente não vê há tanto tempo.

Ele se aproxima de Julia, e pega o retrato de suas mãos:

M: "Realmente, você lembra muito a sua mãe. O mais surpreendente é que você é parecida até nos gestos, seus gestos de mulher, esse gesto amplo que ela fazia para jogar seus cabelos para trás, que tua memória de infância soube conservar em segredo, através dos anos. Eu não tenho esse talento de teatro. Meu único refúgio foi sempre o sonho. A Fanny se tornou um personagem, mais um personagem de uma história em quadros, do que do teatro. E, então, num belo dia, a Gata Borralheira desapareceu com as fadas. E, como eu não era nenhum príncipe encantado, o que se seguiu após isto, foi então mais difícil.

J: Você a amava muito, a mamãe?"

M: Eu não sei se a paixão é como o amor, simplesmente um pouco mais forte, um pouco mais duro, e mais violento, ou se é um sentimento diferente, tão diferente quanto o sonho e a realidade. A impossibilidade é de testemunhar tudo isso, quando é a gente mesmo que está no centro da drama.

J: Um drama, drama passional?

M: Os momentos, os sentimentos, enfim, tudo faz parte do sonho que alimentou minha paixão.

J: Eu acreditava que os franceses nunca eram passionais. Eu encontrei uma vez uma carta da mamãe onde ela te reprovava por ser frio e duro.

M: Um absurdo! Uma questão apenas de vocabulário, de interpretação de papel, como diria você. O personagem que para mim é o mais passional de todos e o mais romântico da literatura francesa, é Julien Sorel em "O Vermelho e o Negro" de Stendhal. Ele também era frio e duro. Mas sua frieza e sua dureza os conduzem conscientemente a paixão mais absoluta, e mesmo, a morte. A paixão brasileira, de qualquer maneira, aquela da sua mãe, parecia ser mais intuitiva, mais carnal. Mas eu também mudei com o tempo. Minha paixão era menos cerebral. Eu aprendi a admitir que o ciúmes não é uma doença primária e compreendi o significado da palavra "saudade".

J: Como se diz em francês?

M: Não há uma palavra. Simplesmente porque para um francês, isso não existe. Nós dizemos: "Sinto falta de você." Mesmo assim, isso não representa a mesma coisa.

J: Verdade, eu me lembro daquele primeiro verão, quando você estava só na França. Ela te telefonou a Paris, e perguntou: "Você tem saudade de mim?" E você respondeu que não. Você a fez chorar e eu te odiei por isso.

M: Eu me lembro bem, eu não quiz dizer que ela não me fazia falta, ou que longe dela, eu a amava menos, mas, ao contrario que estava tudo bem, e que nosso amor continuava igual.

J: Mas isso a deixou muito mal...

M: Exatamente essa a dimensão que nos separou por tanto tempo, o choque de duas paixões culturalmente diferentes. Uma amiga da sua mãe uma vez na qual tivemos uma discussão ao ponto de se bater portas e outras declarações radicais, convenceu Fanny de que tudo era cultural. Que um francês era distante, independente, não se beija nunca na rua, não segura a mão da sua companheira, ao contrario, saia numa noitada a passar o tempo com outras mulheres. Um tio meu, que viveu muito tempo na América Latina, preveniu-me da primeira vez que vim prá cá:

“Martin, cuidado com o sangue índio: as mulheres, lá, são selvagens, possessivas, violentas, ciumentas, prontas a tudo para conquistar ou conservar um homem."

Todas estas caricaturas me deixaram nervosos, mas Fanny as achava justas. ..e discutíamos também por causa delas. E, depois, pensando bem, acho que e verdade que a ilusão, nesta cidade, vem da presença física das comunidades européias muito fortes, como a portuguesa, a espanhola, a italiana e a alemã, que fazem acreditar a uma certa transposição de cultura para cá. Mas não, a cultura brasileira é outra. Eu a ignorei há muito tempo, por exemplo: essas superstições que todo mundo respeita...Mesmo Fanny, que se dizia tão livre, não punha nunca sua bolsa no chão. E um dia, ela me confessou que as velas que ela punha sobre a mesa todas as noites não era exatamente para tornar o ambiente mais romântico -o que eu acreditava desde o começo em minha santa ingenuidade- mas para "afastar as energias negativas".

J: E é por isso que vocês tinham essas discussões...

M: Não sei, mas, sem duvida em grande parte foi. Nós tínhamos ainda muito o que aprender um com o outro.

Mas isso não é próprio de todos os casais, incluindo os que tem a mesma cultura? Não seria diferente para nenhum casal. Todos temos nossas diferenças, de uma maneira ou de outra. E eu estava muito ocupado na época com tantos problemas a serem resolvidos, e Fanny também se ocupava de seus problemas financeiros, como contas e dividas, para que pudesse me ater a coisas tão existenciais, como problemas no relacionamento. Fanny era tão dadivosa, ao mesmo tempo, tão econômica. Lembro-me que uma vez fomos comprar manteiga na padaria, e o moco lhe perguntou:

"Com ou sem sal?" E ela logo indagou:

"E o mesmo preço?" E com um sorriso, graciosamente ela se voltou para mim e disse:

"Pois eu prefiro com sal, já que é o mesmo valor!" E outra vez, foi na feira: passamos por um vendedor que gritava, " é cinco real, é cinco real"; o outro, também gritava " é cinco real, cinco real"; logo em seguida, passamos por outro que dizia, "são cinco reais, cinco reais". E não é que sua mãe acabou comprando deste ultimo, sem ao menos notar se seu produto era melhor que o dos outros, afirmando-me, simplesmente:

"Só de escutar o português correto, vejo que vale mais que o dos outros; deveria ter custado mais caro, e só por isso eu já garanti alguns centavos a mais!..." Ela tinha uma lógica de economia bastante excêntrica, bastante singular, e muito difícil de se decifrar, você não acha?

J: E, eu sei. Todas essas questões materiais da vida cotidiana a atormentavam tanto, como se ter os suados centavos que ela economizava, torcendo, torcendo, para sair apenas umas gotinhas microscópicas, fosse o mais importante, e tudo o mais não tivesse sentido. Mas eu, hoje, entendo mais a mamãe: Era preciso sobreviver e não viver de brisa, esquecendo-se de que o que a gente vive mesmo e o dia-a-dia!

M: Você tem razão! A vida cotidiana e o mais importante, mas vá explicar isso a dois seres apaixonados que pensam que seu amor e digno das mais belas historias da literatura romântica! Vai dizer a Romeu que seu principal problema e que ele se esquece de lavar os dentes, ou cortar-se as unhas, o que incomoda Julieta e exaspera sua família!

J: Vê como você sempre se refere ao teatro...

M: Por isso mesmo; justamente o teatro e incapaz de mostrar a vida do cotidiano. Ele apresenta personagens sem cotidiano, heróis ou anti-heróis, que nos cantam hinos sublimes: nós aplaudimos, e ao sair do teatro, nos revelávamos nos engarrafamentos. Uma coisa que a tua mãe não gostava, sair do teatro. O que eu nunca me dei conta e que esta raiva que ela tinha do teatro, era justamente que ela não suportava sair de seu sonho, para encontrar uma realidade cotidiana, fonte de conflitos mesquinhos, compartilhados comigo.

J: Ainda mais que o cotidiano impede de ficar na duvida. Preciso se faz tomar decisões sem parar, ficar na fila do supermercado, pagar as contas do mês, as demandas cotidianas, preencher a declaração do imposto de renda, essa vida que me da medo, eu não quero me engajar nela...

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Ele estava só, instalado em seu piano. Ele tocava partes de uma obra de Vila-Lobos, entrecortadas por partes de Debussy. Ele começava a tocar "le Clair de Lune", quando ela entra e senta-se na pontinha do banco retangular no qual ele já se encontrava. Ela o escuta, imóvel. Quando ele parou, ela se debruça em cima de seus ombros, e toca com sua mão direita o fim da peca. Ele olha suas mãos céleres, e depois para ela e diz: "Você ainda se lembra deste trecho..."

"Ah, você se lembra que eu adoro Claude Debussy, ainda mais esta composição..."

"Eu me lembro de tudo, meu amor...De todos os detalhes de nossa vida."

"A vida é feita de momentos perfeitos..."

"Você me disse uma vez que você amava o teatro por que lá é possível realizar em cena momentos perfeitos."

"E que tal vivermos nossos momentos perfeitos agora..." Ela o pega pelas mãos e o leva para o quarto.

"Ah, eu já os vivo, nos meus sonhos..." Enquanto se deixa ser puxado, como um menino levado. "Eu me lembro de tudo..."

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Os dois estão deitados na cama, ela descansa a sua cabeça em seu peito, enquanto ele esta deitado, com os olhos abertos, acariciando os cabelos dela. Ela suspira e diz:

"Eu me lembro de nossas férias em Bretagne, quando conhecemos aquele lindo castelo, com suas historias e seu passado tão romântico, tão majestoso no meio da ilha. E quando você se banhava nas águas, sozinho, porque a água era muito fria para mim. Eu me lembro que você sempre usava roupas azuis, para combinar com seus olhos. Eu me lembro que um dia você me disse:

"O mais difícil na vida é amar, todo o resto é fácil..."

Depois de uma lição de piano que você me dava. E as tortas de framboesa...Hummm...eu me lembro um domingo em que eu te disse que eu adorava comer as framboesas da Franca, e você, foi longe procurar sementes de framboesa, numa loja na Franca, qual mesmo o nome? Ah, já me lembro, Truffaut, para vir plantar aqui."

"E você disse que eu era louco...E, louco por você!', ele lhe da um beijo apaixonado.

Ele se levanta e começa a colocar suas roupas. Ela o segue com os olhos, enquanto fala:

"Você se lembra da nossa viagem a Franca, quando você me convidou para ver a exposição de fotos em Arles? E você me apresentou ao seu amigo fotografo Lucien Clergue, que você convidou dois anos depois para vir ao Brasil fazer uma exposição aqui?"

"Foi tudo um pretexto para te levar a Franca comigo..."

"Eu me lembro, quando viajamos pelas lindas montanhas da Suíça, e logo depois de avistar o Mont Blanc você me dizia:

"Somos uns privilegiados..."

"E já havíamos chegado em Arles, e como estava lindo, aquele dia!...Ficamos sentados em um jardim, de um café, o café Van Gogh, você se lembra? E você estava linda, sentada a minha frente, debaixo do guarda-sol laranja. Nós bebíamos Orangina, o único suco de laranja que tinha...e que você detestava!"

"...e agora eu só tomo isso!"

"E, então, fomos a Aix-les-Baux, onde roubaram sua bolsa...E eu disse que pior que levarem teu dinheiro e passaporte, foi o de terem pego todas as suas lembranças e teus objetos de estimação que você conservava consigo..."

"E você ficou surpreso com a minha atitude tranqüila e serena com a qual eu lidei com isso; cinco minutos depois e eu já estava sorrindo e brincando novamente..."

"...também, estávamos vivendo um de nossos momentos mais perfeitos...e a "gendarmerie", jamais encontraram sua bolsa roubada?"

"Eu tentei ligar varias vezes, inclusive daqui do Brasil, mas que nada, só diziam a mesma coisa, de maneira muito grossa e estúpida, eram muito secos:

"Se não ligamos para você e porque não a encontramos!"

"E nem seu passaporte? Eu lembro que os policiais nos disseram que seria muito improvável que pudesse recupera-la, de qualquer forma.

"Mas os momentos raros e privilegiados que vivemos juntos, essas são as coisas mais preciosas que tive; e só isso que irei levar comigo, quando partir deste mundo ..."

Ela tem o rosto pleno de sorrisos. Ele põe seu sobretudo e lhe da um beijo. Ela ainda esta deitada na cama . Então, ele pega seu paletó, e segura uma mala. De repente, ela muda sua fisionomia, e a expressão de seus olhos, e o observa com profundidade, com uma aparência pesada:

"Você sempre amou viajar...", ela diz, de uma maneira seria, e o olhar grave.

"Verdade: justamente pela superficialidade e a rapidez das coisas; porque, assim, o tempo toma outra dimensão, mais abstrata, como no teatro, ou no cinema..."

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"Você gosta de viajar, porque isso te faz sentir que o tempo não passa..."

"Mas eu vejo que você também gosta muito de viajar...Você puxou a mim!"

"Como dizem: Tal pai, tal 'filha'!", ela debocha.

"Conte-me agora as tuas aventuras, dez anos, são dez anos!..."

"A gente faz assim: Você me conta as suas historias, e eu te conto as minhas, esta bem, assim?"

"Está bem! Então, quem começa?"

Julia o olha, graciosamente, e depois acaricia os seus longos cabelos negros, como que para dar o tempo para refletir:

"Primeiro, conte você as historias que teve com a mamãe."

"A historia e que ela fazia uma historia, todas as vezes em que eu ia viajar."

"Ela não gostava quando você viajava, porque ela temia te perder..."

"Sim, eu me lembro um dia quando a gente estava andando pela rua, e ela me acompanhava o passo, sem dizer uma palavra, só observando a minha maneira de caminhar, meus gestos, minha postura, e realmente me analisando a fundo. Seus pés estavam doendo, ela estavam completamente exausta. Quando ela parecia que ia parar, eu lhe disse, com toda a vivacidade, para animar:

"Observe o caminho...Quando nós vemos que o caminho é longo, e cada vez maior, e ai que notamos que o destino e justamente o caminho..." Então, ela me perguntou, com uma certa raiva:

"Por que você está sempre indo embora?" Como eu não respondia, ela insistiu:

"Por que não se fixa num só destino?" Eu não respondia. Ela não era fácil de se vencer. Ela me provocava uma resposta. Ela não estava feliz com a minha atitude: "Por que partir ao desconhecido, se nos perdemos sempre tudo o que nos vivemos? Se partir e morrer um pouco."

"Partir é morrer um pouco? Que mentira! Ao contrario, partir é viver. E é viver plenamente viver com paixão. Partir é renascer!..." Eu disse a ela, sem saber da revolução que causava em seu ser...

"E como é que você faz para partir assim, tão livre de responsabilidades, livre como um pássaro, e deixar para trás tudo o que já viveu, a tudo e a todos, sem dar uma simples olhadela que seja para o seu passado? Sem preocupações, sem remorsos, sem nem um pingo de consideração pelo que já ocorreu?..." Ela estava cada vez mais impaciente. E cada vez mais cansada e entediada:

"Diga-me, diz!", ela me atormentava, ate eu responde-la, provocando em mim uma resposta mais agressiva, aquilo que ela não podia compreender, ela que não havia viajado senão uma vez comigo. Eu lhe respondia, sempre com a calma de sempre, e que lhe irritava tanto:

"Necessário se faz amar a liberdade, amar a livre descoberta..." Ela tinha o ar bem grave. E eu aproveitei a sua atenção tão seriamente voltada para mim, para continuar:

"E preciso amar as cidades, os campos desconhecidos que nos esperam pra que sejam decifrados...E preciso principalmente não ter nenhum laço, nenhuma pátria, mas desposar o mundo, como um cidadão do mundo..."

"Ah, e por isso que você também tem medo de perder a sua individualidade, sua preciosa independência...", ela brincou, jocosa, com a sua sabedoria psicológica...

"Sim", respondi, "assim eu posso ir aonde eu quiser, aonde for mais conveniente, conforme as circunstancias", permitiu-me afirmar a minha cara de pau, "dançar conforme a musica.

“Se o tempo está bom na Califórnia, eu corro da chuva de Paris, ou do fog de Londres, e se a terra começa a tremer lá", continuei, "e vou para Nova Iorque. Agora, se nevar em Nova Iorque, eu volto para o Brasil, diretamente para os seus braços, aonde o tempo esta sempre bom!..."Ele ri da cara inconformada dela.

"...Ah, bem, você ri, não é? Mas um dia eu não estarei mais lá para você, eu não estarei aqui para sempre te esperando, e veremos, então, aonde você vai estar..." O que eu respondi:

"Eu duvido que você vá me deixar um dia...Você é fiel demais para fazer isso...Além disso, isso vai contra os seus princípios..." Ela me disse com um ar ameaçador:

"Você acha mesmo?"

E eu a ignorei novamente. Depois disso, em outra ocasião, eu disse a ela que era preciso amar o acaso, ao momento que talvez não se apresente mais, e estar aberto pois que o acaso sempre acaba encontrando aqueles que sabem se servir dele.

"E o que é que ela respondeu?" Perguntou a mocinha curiosa por saber a reação de sua mãe diante de tanta provocação.

"Ela disse que ela não tinha necessidade de sair de sua casa para viver suas aventuras, pois que ela via o acaso muito bem da sua janela, sem precisar usar óculos de lentes coloridas."

"Mamãe era fantástica, não?' Vibrava a filha, aplaudindo a sua resposta, e sentindo-se vitoriosa.

"Ela não poderia me entender; que era preciso descobrir um pais, uma cidade, para melhor escutar como bate o coração dessa cidade, desse pais, para então compreender como bate o coração de cada indivíduo desse pais, dessa cidade, para melhor compreender o mundo inteiro..." Ele pára para um breve suspiro, e continua:

“...Uma viagem, dizia a ela, e como um jogo de cartas; e preciso vence-lo."

Era como se fosse ontem, e ela estava ali, de novo, ao seu lado. Ele tinha o olhar perdido. A garota continua a falar:

" Você me fez lembrar quando eu viajei pela primeira vez a Inglaterra...Eu simplesmente caminhava de uma cidade a outra a pé, descobrindo os lugares mais inusitados, e conhecendo seus hábitos, vivendo situações as mais diferentes possíveis, cada esquina, trazendo uma nova emoção, principalmente quando eu pegava as estradas onde de repente já não existia o acostamento; tinha que me encostar nas arvores a beira da estrada, para não ser levada pelos carros que passavam em alta velocidade. E, eu era louca naquela época; também, tudo era tanta novidade para mim, e haviam tantas coisas para conhecer, que eu fazia tudo a pé para melhor provar este estado de puro êxtase, da novidade..."

Ele não a escutava mais...

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Em sua memória não poderia conter mais que essas lembranças diante da mulher que ele amara sempre, a mulher-sabedoria, a mulher-compreensão, a mulher-amor:

"Martin, você esta triste? Mas por que?"

"Estão querendo que eu faca um artigo para ridicularizar uma empresa que compete com a nossa...E isso, eu não amo de jeito nenhum: Inventar uma historia para criar uma ma imagem dessa empresa...

Ela o beija com generosidade e diz:

"Meu amor, o mais importante na vida é fazer o que se ama. A felicidade existe justamente quando o trabalho, os gestos, beneficiam o ambiente, o seu meio, a sua vida e a dos outros também. Quando se domina a si mesmo, domina-se o meio. No entanto, quando nos esquecemos de nos mesmos, e nossa aspiração, somos dominados pelo meio, por suas convenções...E melhor ser solido para melhor atuar na vida. E quando se atua bem a vida se modifica. A gente pode vencer o mundo quando a gente vê que é possível vencer-se a si mesmo...preciso talvez seja abrir-se ao grande amor, escondido pelos interesses que estão fora de si mesmo, para se realizar como ser humano, para vencer o egoísmo, o fruto do abandono da Alma do Mundo, a custa do interesse da minoria, quando se sacrifica a felicidade de milhões a favor de uma pequena massa egocêntrica. Não há felicidade quando não se está centrado em direção ao coração, e não se faz o que a voz interior diz...", declama a sabia mulher, a mulher da sua vida, que o jamais abandonou, que nunca deixou o barco, ou o largou para se afogar em suas incertezas.

A imagem da mulher desaparece, como ela surgiu, como uma alucinação. Ele se interessa entusiasticamente pela vida, que se torna objeto de estudo para ele e também sua paixão. Ele tenta assimilar o que seu sonho lhe diz.

"Você me ouve ou não?", pergunta a jovem mulher, balançando o braço dele, com forca. "...E, então, na cena o ator que atua friamente em seu papel, sem realmente escutar a sua voz, ou a da personagem que atua diante dele, sem sentir o seu espaço e o seu ambiente, sem estar realmente em constante relação com tudo o que o rodeia, não é um artista de verdade, não é mesmo?", ela o interroga, para provocar-lhe uma reação , uma vez que ele parece estar tão longe, voando pelo espaço quadridimensional. "Tudo o que ele fizer friamente ira destrui-lo, pois ele vai se habituar a ação automática, destituída de imaginação..."

Só nesse momento e que ele retorna a realidade. Ela falava tão docemente, tão constantemente, sem parar, que ele tinha esquecido que ele estava ainda vivendo no passado, para sonhar com seus olhos abertos...Ela continua:

"O verdadeiro artista é maravilhado, fascinado, cativado por tudo o que o rodeia, ele deixa que tudo possa transformar-lhe a vida, ele se interessa entusiasticamente pela vida, que se torna seu objeto de estudo, e de suas paixões. Ele tenta assimilar as impressões que ele recebe do exterior e procura as fixar em seu interior..."

O começo da conversa foi completamente perdido. Como ela chegou ate lá? Qual era o raciocínio que começou isso, para se desenvolver ate a esse ponto? Ele não estava realmente presente para captar tudo o que ela falava, muito menos para digerir metade do que narrara...E toda a sua fala se transformara em uma bola de neve imensa, ate isso tomar a forma de um monstro, sem controle, que não se sabia de onde ele apareceu! Ele não pescou nada do que a jovem dizia. Era melhor confessar-lhe seu estado de alucinação, ou tentar adivinhar o que ela disse, inventando uma palavra que poderia livra-lo deste cruzamento de idéias?

"Preciso é ter entusiasmo!", arriscou ele , num momento oportuno.

Isso, sua salvação!...Ele pescou a ultima palavra que ela proferiu e simplesmente a jogou no tempero.

"O entusiasmo pela vida!" Ele repetia sua frase e a menina também, entusiasmada pela palavra que saíra de sua boca com tanta facilidade, tão espontaneamente da voz de seu interlocutor, ao menos suposto.

"Não podemos ser frios diante da vida, para que possamos retirar verdadeiramente as sensações, aproveitar o ambiente, captar a energia, enfim, para realmente viver...Ser vivo, não é viver, pois que é preciso estar presente a cada instante para saber que somos nos que dirigimos a vida, e não o contrario. Que nos vivemos realmente não pela sensação que temos vivido, sem poder dominar o destino, mas pelo que queremos fazer dela, pelo o que ela realmente representa para nos."

Ela não fazia por mal, mas isso foi como uma flecha que o tocou diretamente o coração...Martin disfarça esse sentimento que o tocou tão profundamente seu destino, e deixa uma frase flutuando sobre a sala...

"O artista deve sentir reverencia a tudo..."

"E, eu sempre aprendi a ter reverencia pelas coisas e pessoas. Quando eu terminava a minha aula de Ballet, antes de se despedir, a professora sempre nos fazia fazer uma "reverence": primeiro, a pianista; segundo, em direção a porta, nossa suposta platéia, e só então nos fazia voltarmo-nos ao centro e nos reverenciamos todos. E muito bonito isso, da uma sensação de missão bem cumprida e também de alto respeito e reconhecimento que e preciso se ter sempre com cada um de nos e, principalmente, para quem nos ensina."

Ele a imagina, linda e cheirosa, toda cheia de formosura, em seu "tutu", a saia fofa com a qual as bailarinas clássicas dançam, toda se curvando, para o reverenciar com seu amor...Ela se empolga e declara: "Quando eu voltei das minhas viagens a Europa, sentia-me tão poderosa, e capaz de tudo, como se o mundo a mim pertencesse somente. Eu já havia constatado antes que era preciso se engajar a tudo o que a gente realmente quer na vida. E isso traz uma adrenalina no seu corpo, que é difícil de realmente enxergar mais do que o seu próprio ser. Pois você sente que você pode tudo, que você conquistou o topo do mundo, e ninguém pode te derrubar de lá. E uma sensação de euforia, misturada com o prazer de se concretizar tudo aquilo que se quer..."

A jovem ficou cada vez mais entusiasmada, e sua voz, cada vez mais forte, formava um eco na sala:

"E eu poderia fazer o que eu quisesse, pois que eu sabia que eu poderia realizar qualquer coisa a que me empenhasse...Tudo é possível quando nos queremos com intensidade...E fazemos melhor daquilo que nos faz felizes, utilizando todos os nossos esforços para a sua concretização. E bem melhor ser um pouco egoísta, e se satisfazer com plenitude, para encontrar a sua felicidade, e mostrar-se sempre bem, inspirando aos outros com sua alegria de viver. E isso fará os outros felizes, também, ao menos aqueles que nos interessam, certo?..."

Todas essas questões existencialistas começam a perturbar-lhe a visão. Ele ressente a náusea, talvez a mesma que o celebre Antoine Roquentin sentiu através de seu pai filosófico, Monsieur Satre. E ela continua sem piedade a martela-lo com suas explorações, mais como uma masturbação mental que qualquer outro nível de ordem intelectual: "O poder de realização esta dentro de cada um de nos, pois cada um possui uma energia absolutamente poderosa, capaz de realizar tudo o que puser como meta, uma forca interior como uma luz brilhante e calorosa que não se apaga jamais, pois que esta chama e eterna e fomentada por nossos desejos e aspirações, não pode jamais ser tirada de nossa essência. E como tudo na natureza ela não poderá jamais ser perdida, apenas transformada. " Neste ínterim, ele começa a ter novamente o mesmo estado de alucinação que o afligiu momentos atras, só que agora ainda mais forte, mesclado com a ebulição da febre causada pela náusea, pois que a figura desta linda jovem vibrante e rica de vocábulos, assim, majestosa, diante dele, assemelha-se muito com a mulher que ele amou outrora:

"O que mais se quer, o que se deseja com mais garra e energia, tudo o que mais se quer já esta aqui e agora. Porque a despeito de não a enxergar, invisível que e, de fato, esta incrível energia que a tudo transforma, esta aqui, diante de nos, ou melhor, dentro de nos, só nos esperando para que a gente se sintonize com ela, para realizarmos, então, nossos mais profundos desejos..." Ele é prisioneiro da febre que o consome por dentro:

"Obrigado!", ele diz a sua mulher: "Por me tratar como um príncipe!", o que a jovem lhe responde: "Mas você não é um príncipe...", ela deixa escapar, com um certo tom de indignação, em sua voz ainda de criança: "Você e mais do que isso! Um príncipe só tem seu reino...", ela lhe diz, beijando suas mãos, e continua: "...e você tem a mim!"

Ele insiste, acuando-se um pouco: "Obrigado, você me trouxe a felicidade..."

A mulher agora e a que responde:

"Não!" Porque ela não podia aceitar o fato de ter dado a felicidade a alguém, quando considerava não haver feito nada para isso. Porque ela queria fazer bem mais a ele, para que ele fosse feliz com ela para sempre. No entanto o que ela não sabia e que ela o fazia feliz por um simples gesto de amor ou uma frase que ela soltava sem se dar conta:

"Agora eu sei que você era feliz pelo simples fato de me agradecer! Quando a gente agradece a alegria, ela nos vem em retorno, como que para nos agradecer o que nos agradecemos... "

Como poderia ela aceitar que ele a amava simplesmente, e a agradecia somente porque ela existia, e porque estava lá vivendo a seu lado?...

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"Por mais que obtivermos sucesso, dinheiro ou fama, jamais seremos invadidos de felicidade se não encontrarmos em nosso interior a nossa verdadeira alegria de viver...”

Quem fala agora, a mãe, ou a filha? "Eu já não tenho mais medo de te perder. Eu não tenho medo de perder minha alegria, pois se eu penso na possibilidade da perda, isso já se torna uma ameaça, uma outra maneira de dizer que eu já o perdi... Eu prefiro pensar no momento, e viver intensamente o presente para estar feliz para sempre!...."

Ele participa de sua descoberta. Mas de fato quem e esta mulher que o amava tanto, com tanto amor e dedicação, que ele sabia que não poderia jamais corresponder, não com a mesma intensidade e forca, que ele não poderia oferecer nem a metade de seu amor?

"Venha me ver em cena. Não hoje, mas um dia em que você estiver mais tranqüilo, e que possa doar um pouco mais do seu tempo para mim, somente..."

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"Parece-me que a cada obstáculo eu me sinto mais forte, que a cada problema que volta para mim estou mais pronta a avançar e a vencer.

Eu passei por varias experiências, e dificuldades diversas, e tudo isso me deu mais motivos para continuar meu caminho, e ter ainda mais confiança e fervor para transpor os obstáculos e sair vitoriosa!"

Ela mostra a força de sua alma com seus olhos que a ofuscam o rosto. Somente seu nariz e a beleza de seus belos e voluptuosos lábios cor de mel se destacavam, dando-lhe uma aparência selvagem que se refrescava através de sua sensualidade:

"Quando não há obstáculos para nos ater, vem a apatia e o comodismo, a imobilidade, o conforto do recuo, o aconchego preguiçoso e fútil. Quando não há para que lutar o corpo se desfalece, amolece e cai por terra. Ele simplesmente se entrega a lei da gravidade. Eu agradeço a Deus por ter a necessidade de estar sempre vencendo a mim mesma, superando-me sempre, e nunca desistindo, mesmo que as vezes assim pareça, e lutar para uma melhor condição de existência, e assim estar em constante evolução. E isso o que me faz renascer a cada manhã, com um sorriso nos lábios, e a vontade incessante de continuar a batalha pelos meus ideais, e me realizar..."

Quem era essa mulher que se expunha tanto, que tem tanta forca no fundo de sua alma? "isso me deixa com o corpo mais forte e minha alma mais leve e ensandecida de gloria!..."

Quem e esta mulher que ele vem a descobrir?

"Sou apaixonada pela vida. Meu poder vem desta paixão que sinto pela vida. E preciso se interessar pela vida, apaixonadamente. Tudo o que eu vivo, vivo com paixão, intensamente. A dor, o amor, os sentimentos mais profundos, tudo isso faz com que eu me sinta humana, faz com que eu viva plenamente. Esta a diferença entre viver e ser vivido, viver pelo entusiasmo, ou por automatismo, como uma maquina, comandada pelo imediatismo, pelos interesses externos, ou se mover pelos desejos interiores que nos fazem vencer nossas próprias limitações, e esperar um futuro mais digno, a grandeza da humanidade, a gloria do mundo inteiro. Eu vejo poesia na vida! Eu a vivo intensamente, sem cessar, e sem medo. Vejo muito mais do que a carcaça do ser, muito alem que sua semente...Eu vejo possibilidades...E eu faço poesia disso:

'Vejo a essência...
da própria existência,
que produz o fruto
da nova quintessência...' Isso!"

Quem é essa mulher que ama a poesia, que é ela própria a mais bela, pura e doce poesia de todos os tempos, a poesia viva encarnada em um ser singelo, que detém nela própria a mais rica fantasia?




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