Vencendo o campeonato

 

Era manhã e o sol já ia alto. Era dia de feira. Quinta-feira.

As freguesas acotovelavam-se a disputar espaço entre as barracas, como se os produtos fossem sumir dali a qualquer instante. Eram mulheres, em sua maioria. Moças e idosas, grandes e pequenas, brancas, negras ou morenas, enchiam a rua com seus corpos e carrinhos, trombando de vez em quando a me fazer rir de suas expressões de pouca paciência. Muitas, as mais velhas, celebravam o dia da xepa, felizes, encontrando companheiras e trocando sorrisos, se divertindo com as gracinhas proferidas pelos feirantes que faziam de tudo para atrair a freguesia.

Os feirantes eram capítulo à parte, já não são de uma mesma raça, nem têm o mesmo status. Neste país é assim, todos se misturam e surge esta miscelânea de tipos, gestos, fácies e tudo o mais. Eles, os feirantes, proferiam coisas engraçadas para chamar a atenção de todos que passassem à sua frente. O preço da mercadoria era instável e aumentava e diminuía conforme a quantidade, de acordo com a hora ou apesar do vizinho de barraca.

Havia cores de todos os matizes, sons inimagináveis e odores também.

Havia pastel quentinho com garapa, e neste espaço sempre há mais gente à espera de sua vez, a escolher o recheio que mais lhes apetece.

Havia um mendigo engraçado, barba embranquecida, roupa surrada como não poderia deixar de ser. Vestia azul em maior quantidade. Usava uma dessas blusas de moletom com capuz que mantinha sobre a cabeça apesar do sol, e como se não bastasse, sobre ele equilibrava um chapéu amarelo de plástico, como os que se usam em obras para proteger o crânio. É uma figura conhecida, falava alto, se dirigia às pessoas que conhecia e que o conheciam também.  Estava feliz e expunha sua alegria a se divertir com a reação de alguns que não torciam pelo seu time. O “Coríntians emplacou desta vez”, dizia ele, fazendo com que as vozes contrárias se manifestassem, alguns bastante irritados, mas ele ria a bandeiras desfraldadas, abrindo os braços lateralmente ao corpo num gesto de descontração como muito poucos ousariam. Por onde passava, instigava os adversários a se conformarem com a derrota e com o vencedor também...e ia descendo a rua, cheio de vida e de alegria pura e simples.

“O Coríntians emplacou desta vez, minha gente, podem se conformar!... O Coríntians resolveu mostrar a cara...” !

Desço a rua feliz também, a compartilhar a genuína alegria que brota dessa alma, infantilmente, a me dar lições e lições de vida.

E eu que nem entendo de futebol me sinto tola, a tola mais feliz da feira!

 

                                                                                                                                                                              (inverno de 2002)

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