Varanda

              Pela grade da varanda à frente vejo seu vulto, distante ainda um quarteirão. Que bom ter cinco anos e enxergar assim, claramente. Sua figura embaçava as outras, ou eu é que via o mundo assim? Jamais saberei, mas, é fato que reluzia. O terno cinza escuro vestido sobre o pullover mais claro e axadrezado, dava-lhe o ar aristocrático próprio dos homens de Áries, agora sei. Os cabelos, ainda em seus lugares no começo da década de 60, brilhavam, emoldurando o rosto que, aos meus olhos de criança, apenas me diziam serem de meu pai. Nas mãos trazia um canudo embrulhado com papel pardo, de revistas, certamente, pois a banca sempre o fascinou sobremaneira. Acenava para os passantes, festejando as amizades de infância (coisas que só nós, gente do interior, podemos avaliar), meneava a cabeça para os clientes que, por isso mesmo, deveriam ser tratados com recato. Sorria olhando para a nossa casa, feliz por chegar! Mas, assim que termina de subir o primeiro quarteirão da ladeira, meus olhos curiosos se dirigem ao chão, percebendo ali, bem ali em seus pés, um belo par de sapatos novos! Sem pensar em nada, pendurei-me na grade pintada de branco e gritei um sonoro “Hei pai, de sapato novo, hein?!”

É claro que fiquei para a história. Os passantes e nossos vizinhos da rua estreita ouviram e se divertiram com meu jeito desprendido de garota. Meu pai corou, continuando a caminhar em minha direção sem deixar de sorrir. Pulei ao chão e me atirei em seus braços sem me importar com o que ele me dizia a respeito.

Entre nós sempre foi assim: amizade profunda, carinho bastante, discurso divergente e compreensão.

Hoje, quando me lembro desses tempos de criança, sinto vivos em mim meus sentimentos infantis de admiração, de amor e de respeito e, mesmo que a vida tenha nos embrutecido a todos, sei que essas lembranças ninguém me pode tirar. Continuo a ser a garota de cinco anos, em algum lugar de mim, e permaneço aquela criança com muitos cabelos e de olhos negros, sapatos de abotoar e meias soquete a combinarem com o vestido de algodão de corpo comprido, que adorava a varanda, os passantes, os vizinhos e a casa em que vivi.

Obrigada natureza é sempre bom relembrar o quanto se é feliz!

 

                                                                                                                                                                           (verão de 2004)

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