O sonho toma conta da alma
que pede pra secar o pranto.
Os passos na calçada molemente se encaixam no
desenho e o caminhar é lento, sem deixar de ser decidido. Firmeza, determinação
e suavidade.
Somente o tempo e seus percalços são capazes de transformar
alguém assim.
Os pensamentos se misturam mas não mais abalam a
ponto da desestruturar, apenas seguem seu curso como um pássaro que sabe a
dimensão do espaço que ocupa e tem para onde voltar depois do vôo.
O vento frio de fim de tarde em Sampa faz com que se
aproximem as golas de todos os
pescoços e os aqueçam, que
todos os olhos se protejam sem deixarem de se olhar. Frio é assim!
Botas leves recobrem os pés e o caminhar lento se
sente aquecido e forte.
Escolher o local a ir é fácil aqui, onde nada falta
e jamais se fica só se esse não for o intento.
A porta dupla se abre e já não é mais frio. Rostos
conhecidos ou não se amontoam fugindo da solidão.
Mesmo que queiramos que a porta que se abra não seja
essa e que o corpo que adentre não seja o nosso, é tudo o que temos, mas no
devaneio, desejamos que alguém verdadeiramente modificador adentre a mesma
porta depois de nós, mudando nossas vidas, ao menos por um instante.
Aqui se encontram tantos com tantas dores iguais ou
não, mas é visível a alegria da maioria, apesar do estado solitário de muitos.
Mesas pequenas têm a intenção de aproximar pessoas,
e aproximam. A trajetória dos olhares é circular, como um telescópio bem
calibrado e eficaz, e há olhos de todas as cores e formas e em todas as direções.
Mãos se encontram e se tocam, sorrisos são trocados, amenizando as feições de
todos depois da lida.
Garçonetes animadas carregam bandejas redondas
cheias de copos e garrafas, atendendo a todos com alegria. A fumaça de muitos
cigarros se mistura no ar e ninguém se incomoda, como se lá fosse o lugar dela.
Há pessoas frias, com certeza, interessadas apenas
num relacionamento curto e sem pretensão nenhuma, e há muitas, a maior parte
delas, cheias de carências e ânsias de encontrar companhia boa para mais tempo
do que o agora.
Todos são iguais, mas disfarçam suas inseguranças
fingindo serem diferentes.
Há os observadores natos que concluem e escrevem
sobre os fatos, como esta que registra agora suas impressões, mas faz mesmo
parte da lista dos solitários por imposição da vida, ao menos no momento
presente.
Mal não há em abrir a porta dupla e entrar, trocar
calor humano, rir de si e dos outros, dos casos e dramas de todos, das
histórias contadas, das vidas amalucadas, dos engraçados de nascença, dos
emburrados e fora de lugar que, mesmo por isso, se tornam motivo de piada. Rir
de nosso próprio medo, das lembranças boas que tivemos, das coisas inusitadas
que sempre acontecem e aconteceram, de nossos erros e acertos e assim
encará-los de outra forma, sem espanto nem culpa demais.
Mal não há nos olhares que se cruzam, nos bilhetes
que chegam, nas mãos que se tocam, no doce da vida que há.
Por isso, adentre a porta dupla sem receio e viva um
pouco, exorcize a mesmice, detone a timidez, expulse a apatia, pegue este atalho
da vida e aproveite pra ser feliz um pouco, ao menos um pouco!
A porta se abre no sentido contrário e já se
modificou a paisagem, o estado de espírito, a temperatura do ar e o ritmo dos
passos.
Tudo o que se vive é importante, tudo o que se
rejeita tem seu preço, tudo o que se deseja tem sua razão, tudo o que se ama se
acumula em nós, e seguimos mais completos do que antes.
Porta dupla de um bar em Sampa, porta dupla de amar
em mim.
(inverno de 2001)