Julgando o Pequinês

|artigo publicado na revista Cães de Fato|

 

O pequinês é um cão de características muito específicas, que o diferencia das outras raças quando do julgamento. Tendo em vista a raridade de exemplares em pista no Brasil na atualidade, muitos juízes nunca tiveram chance de julgar um exemplar. Neste artigo exploramos as características fundamentais da raça que devem ser apreciadas quando do julgamento.
Breve História
O pequinês é uma raça muito antiga, que foi desenvolvida e criada dentro do Palácio Imperial em Pequim ( e desconhecida fora dos muros da Cidade Proibida). É a primeira raça desenvolvida pelo Homem levando em conta objetivos estéticos e não funcionais. Por ser proibida a saída de qualquer exemplar da Cidade Proibida, único local onde existiam, o Mundo Ocidental só tomou conhecimento sobre a raça quando da invasão do Palácio Imperial em Pequim, por soldados ingleses, em 1860. 5 cães foram esquecidos nos precintos imperiais pelos chineses (que levaram quase todos consigo ao fugirem) e levados para a Inglaterra, um dos quais foi presenteado a Rainha Vitória.
No decorrer do presente artigo, citamos entre parênteses extratos do poema escrito pela Imperatriz Dragão Tzu Hsi, que nos ajudam a penetrar na essência da raça tal qual a via seus criadores chineses. É o primeiro "Padrão" da raça e nos dá insights dos porquês de cada característica.
No Brasil o pequinês obteve grande popularidade no passado próximo. Algumas exposições contaram com cerca de 70 exemplares em pista. Infelizmente a popularidade trouxe consequências desastrosas, e a mestiçagem e criação inconsequente deterioram a raça ao ponto da quase extinção no país. Sua imagem ficou a de um cão sem atrativos, feio, histérico, agressivo, nada confiável, decorrente da convivência com exemplares deteriorados. O Pequinês é completamente distinto dessa imagem e tentaremos expor, a seguir, as características fundamentais da raça:

APARÊNCIA GERAL
O pequinês é um cão acondroplásico e braquicéfalo. Ao olhar um pequinês adulto lateralmente deve-se ter a impressão geral de um "caixote"; pescoço curto, cauda com pêlo longo e cheio, muitas vezes chegando até a cabeça, pernas bem curtas, num corpo curto e largo, e nenhum sinal da face, que deve ser completamente chata. Ao se olhar de frente deve-se notar uma "juba" profusa, com orelhas que emolduram a face, mais larga que alta. De trás nota-se um posterior estreito em relação a frente. A aparência geral é leonina, de um cão de grande dignidade e qualidade.

CORPO
("...Deixe seu corpo ter o formato de um leão caçador espreitando sua presa...").
O corpo deve apresentar as seguintes características fundamentais:

FORMA
O formato do corpo deve lembrar, visto de cima, o de uma pêra; assim sendo, temos uma frente larga que afunila em direção ao posterior, mais estreito;

DORSO
Curto, reto. É importante não deixar-se enganar pela pelagem, que, quando abundante no peito e culotes, tende a transmitir uma impressão do cão ser mais longo do que é.

FRENTE
("...deixe suas patas da frente serem tortas, assim ele não desejará vagar para longe ou deixar os precintos Imperiais...")
As pernas são curtas, levemente arqueadas, envolvendo o peito, entretanto os cotovelos são rentes ao corpo e não abertos (falta comum e grave). Os pés anteriores são virados ligeiramente para fora. É esperado que se deixe "luvas" de pêlos se estendendo dos pés, que são chatos e grandes ("...deixe seus pés com tufos longos de pêlos para que seus passos sejam silenciosos..."). É importante notar que não é desejada qualquer projeção do esterno em relação aos membros anteriores;

POSTERIOR
Pernas retas e pés voltados para a frente, menores que os anteriores. A angulação é moderada mas presente;

CAUDA
("...deixe-o portar um estandarte de pompa sobre seu dorso...)
Inserção alta, portada reta próxima ao dorso (mas não tão próxima a este como a de um pomerânia), pode se curvar para um dos lados no final.

CABEÇA

("...deixe sua face ser negra; deixe sua cabeça ser reta e baixa, como a testa de um guerreiro imperial...")
A cabeça é grande, com o crânio largo e chato na parte de cima. O formato da face deve lembrar o de um "envelope", ou seja, aparentar ser mais larga que alta. Parte essencial do julgamento, vamos destacar cada segmento;

Olhos:
("...deixe seus olhos serem grandes e luminosos...")
Redondos, grandes, o mais escuros possíveis e brilhantes. Não se desejam olhos esbugalhados, muito proeminentes ("de sapo"), ou que mostrem o branco quando o cão olhar para frente. Devem estar bem afastados um do outro.

Orelhas:
("...deixe suas orelhas serem inseridas como os remos de um junco de guerra...")
Em formato de coração, inserção em nível com o topo do crânio, o que contribui para a aparência de envelope da face. As pontas não devem ultrapassar a linha do maxilar inferior (não confundir com os pêlos, longos, muitas vezes chegando ao chão no cão adulto);

Boca:
Fruto de tantos mal entendidos, a boca tradicionalmente não é aberta no julgamento do pequinês. No Padrão, propositadamente, não há sequer uma descrição de dentes e da mordedura. Os dentes são extremamente frágeis e, pelo formato dos maxilares e conseqüente pequeno tamanho das raízes dos dentes, caem muito cedo na vida do cão. É comum o desalinhamento e ausência de alguns incisivos.. Assume-se que a mordedura deve apresentar prognatismo inferior, desde uma mordedura em tesoura invertida até uma com considerável prognatismo. A língua e nenhum dente devem permanecer aparentes quando o cão estiver com a boca fechada. Caso se desconfie de torção de mandíbula (que pode ser detectada pelo aspecto externo da boca fechada), pode-se abrir a boca do cão; entretanto, não cheque no posicionamento dos incisivos, mas sim na distância dos caninos inferior e superior de ambos os lados ( devem estar a mesma distância em ambos os lados.

Ruga:
A ruga divide a face em duas partes iguais e pode ser inteira ou "partida", ou seja, pode ser ou não interrompida sobre o focinho. Não há preferência, mas a ruga nunca deve ser tão grande a ponto de se estender sobre a trufa, prejudicando a respiração;

Perfil:
Completamente chato é o ideal. Às vezes o maxilar inferior é tão pronunciado que o perfil é ligeiramente côncavo (mas nunca convexo). Um perfil que não atenda a essas características e mostre qualquer projeção de focinho é ATÍPICO e deve ser penalizado de acordo (encontrado em alguns exemplares aqui no Brasil).

PESCOÇO
Bem curto e grosso, o que contribui para a aparência de "caixote" que o cão deve evidenciar quando visto de lado.

PELAGEM
A pelagem é dupla, com pêlo grosso e subpêlo. Deve ser mais longa em volta do pescoço, formando uma juba característica e mais curta no corpo, contribuindo para o formato de pêra. Os pêlos são mais longos nas orelhas, atrás das pernas traseiras, formando "culote" característico e na cauda. É importante levar em conta que são RARÍSSIMAS as fêmeas com pelagem exuberante e, desde que a pelagem esteja suficientemente longa nas orelhas, juba, culote e cauda, que os diferencie da pelagem do restante do corpo, a não exuberância de pelagem não deve ser penalizada.

MOVIMENTAÇÃO
Outro ponto freqüentemente mal entendido, acredito, pela ausência de detalhamento no padrão americano. O padrão inglês e da FCI são, entretanto, claros: o roll que se espera é um leve roll dianteiro. Não poderia ser diferente se pensarmos num exemplar bem construído, com a frente larga com pernas curtas e abauladas e posterior mais estreito com pernas retas e igualmente curtas. Por vezes, o roll dianteiro é acompanhado de um leve rebolado do posterior, mas isso de maneira nenhuma constitui uma regra. O movimento é livre e deve dar a impressão de fluidez.

CORES
("...E, quanto a sua cor, deixe-a ser como a de um leão - um sable dourado, para ser carregado na manga de um robe amarelo, ou da cor de um urso vermelho, ou um urso preto e branco, ou listrado como um dragão... de forma a que haja cães apropriados para cada vestimenta Imperial...")
Todas as cores e combinações de cores são permitidas e devem ser julgadas igualmente. Como o padrão exige a trufa preta, as exceções são os exemplares fígado e albino.

TAMANHO
O ideal é que o peso NÃO EXCEDA os 5 kg para machos e 5.5 kg para fêmeas (ou seja, não se espera cães de 5 kgs, mas ATÉ 5 kgs). A exuberância da pelagem normalmente faz o cão parecer bem maior do que é. Há classes especiais para os exemplares com menos de 3,200 kg nos EUA e especializadas só para exemplares abaixo deste peso na Inglaterra. Na Europa, também este procedimento é freqüente. Qualquer tamanho dentro do padrão é possível e deve ser julgado em igualdade. Para a FCI não há desqualificação para tamanho, e nos EUA os cães são desqualificados apenas se acima de 7 kg.
Após o julgamento do cão, ainda na mesa, deve-se levantar o animal ligeiramente, de forma a sentir-lhe o peso. O Pequinês deve ser surpreendentemente pesado para o seu tamanho.

TEMPERAMENTO
("...deixe-o ser vivaz de forma a proporcionar divertimento com suas brincadeiras, deixe-o ser tímido de forma a não se envolver em perigo, deixe-o ser doméstico em seus hábitos para que viva em amizade com as outras feras, peixes ou aves que encontram proteção no Palácio Imperial...")
É importante notar o temperamento muito característico da raça. Erroneamente as pessoas tem a impressão de ser o pequinês um cão agressivo, provavelmente por experiência com cães já deteriorados das características reais da raça. Em nossa experiência, nenhum de nossos pequineses apresenta nenhuma agressividade, nem entre si, nem com pessoas. A experiência de outros criadores no mundo todo corrobora a nossa. Um exemplar agressivo é atípico.
O pequinês é um cão extremamente alegre e brincalhão. Ao mesmo tempo é extremamente teimoso e senhor de si, características que aparecem muitas vezes inclusive em pista. Séculos de convivência íntima com o Homem lhe proporcionaram uma personalidade única e fascinante, cheia de idiossincrasias e humanidade. É um cão imperial, independente, absoluto senhor de si com apenas leves resquícios de características lupinas, ainda tão presentes em outras raças.

PEQUINESES NOS EUA X PEQUINESES NA EUROPA
De fato, não há nenhuma diferença entre os exemplares vistos na Europa ou nos EUA. A explicação é que o maior pólo de criação ainda é a Inglaterra e exemplares importados desta são atualmente a base de criação em todo o mundo, inclusive nos EUA. A forma de apresentação dos exemplares, estado da pelagem, etc., também é muito semelhante nos dois lados do Atlântico, o que nos permite uma apreciação bastante homogênea da raça em todo o mundo. Atualmente há uma tendência mundial a um maior tamanho da raça, o que desvirtua sua origem e função, e, no nosso entender, deve ser revertida.

Alexandre Baptista
AleFer Kennels



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