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Agosto de 2001

 
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 OLHA A EVOLUÇÃO PASSANDO ALI

O Bico do Tentilhão (resenha de  Weiner, J. O bico do tentilhão – uma história da 
evolução no nosso tempo, Rio de Janeiro: Rocco, 1995)

“O bico do Tentilhão”, do jornalista científico norte-americano Jonathan Weiner, demonstra, em linguagem clara para os leigos, a atualidade das teorias elaboradas por Charles Darwin

R.Z. Flores(*)

Teoria da Evolução: O nome não ajuda muito. Trata-se, certamente, de alguma coisa genericamente abstrata, ainda a ser provada, e que, por isso, não vai interferir no meu cotidiano. Talvez seja tão destituída de utilidade prática como a teoria da relatividade e tão dependente de fé como o marxismo, a psicanálise lacaniana ou as paraciências místicas (florais de Bach, astrologia, etc.).

Ainda que nada disso seja verdade e que, de fato, podemos ver a evolução aos pulos, alguns bem altos, na nossa frente, demonstrá-la de modo inteligente e agradável para um público não técnico é uma tarefa complexa.

Em O Bico do Tentilhão – Uma História da Evolução no Nosso Tempo, Jonathan Weiner, jornalista americano, usa a saga de uma família de cientistas que há três décadas estudam os famosos pássaros de Galápagos, para mostrar, além da heróica abnegação dos cientistas contemporâneos, como podemos perceber a seleção natural agindo.

Galápagos, um conjunto de ilhas vulcânicas do Oceano Pacífico pertencentes ao Equador, ficou famoso desde meados do século passado quando vários naturalistas, entre eles Charles Darwin, descreveram flora e fauna nativas como formadas de espécies típicas de cada ilha e diferentes daquelas encontradas no continente. Darwin, porém, deu-se conta das razões das diferenças entre os seres vivos das ilhas e das Américas. Desenvolveu um modelo que explicava como os seres vivos se transformavam com o passar do tempo e como as novas espécies eram criadas: a evolução.

Tentilhões são parentes próximos dos pardais e são famosos, nos meios científicos, por sua capacidade de diversificação. Ao colonizarem um novo local, estes pássaros passam por rápidos processos de transformação. Em algumas gerações já é possível verificar-se mudanças de forma, tamanho e comportamento, todas no sentido de aumentar as chances de sobrevivência, como afirmou Darwin com a teoria da evolução.

Peter e Rosemary Grant, professores e pesquisadores da Universidade de Princeton, estudam as variações morfológicas das 13 espécies de tentilhões das ilhas, cada uma especializada no tipo de alimento e local onde vive. Desde 1973 puderam demonstrar que as variações dos ecossistemas se refletiam em mudanças no tamanho dos animais, formas dos bicos e na quantidade de indivíduos de cada uma das espécies. Exatamente como os modelos teóricos propunham: o meio ambiente vai, aos pouquinhos, transformando os seres vivos.

Quando uma seca muito grande mata quase todos os pés de grama, quando o inseticida que usamos mata quase todas as baratas de nossa casa ou o antibiótico que ingerimos mata quase todas as bactérias de nossos intestinos, o que estamos assistindo é um processo seletivo. Tão logo chova, apenas as gramas resistentes deixarão descendentes. As novas baratas da casa serão as filhas das que sobreviveram ao veneno e a nossa flora bacteriana, em dois dias, será composta exclusivamente de microorganismos capazes de inativar o medicamento e sobreviverem à sua presença.

Isto é evolução como Darwin percebeu há mais de um século, um inquieto processo que faz com que nenhuma espécie permaneça como está por muito tempo. Todos os seres vivos se transformam, quer na forma, quer em seu comportamento, em conseqüência deste modelo simples: os indivíduos diferem um dos outros, em qualquer característica que observemos. Esta diferença pode se refletir no número de filhotes que cada um deixa para as gerações seguintes. A quantidade de descendentes que sobrevivem não é igual para todos os indivíduos de uma comunidade. Assim, aqueles que possuem os genes responsáveis por características que aumentem a sobrevivência e o tamanho da prole, terão maiores chances de sucesso na reprodução. Os tais genes apresentarão mais cópias de si mesmos a medida que o tempo passa. E assim caminha a evolução.

Jonathan Weiner adquiriu experiência sobre como discutir aspectos complexos da ciência na qualidade de editor da revista The Sciences, editada pela Academia de Ciências de Nova York e considerada uma das mais inteligentes revistas para o público leigo sobre o assunto. O livro recebeu o prêmio Pulitzer de não ficção em 1994.

O texto é rico em parábolas darwinianas, que nos encantam ou amedrontam e, ao mesmo tempo, nos enchem de respeito frente ao poder aparentemente mágico da ecologia.

Tal é a história do pássaro kea, um papagaio das montanhas da Nova Zelândia, que se alimentava originalmente de néctar, frutas e insetos, antes da chegada dos criadores de ovelhas no século passado. Logo que estes se estabeleceram, os kea começaram a bicar as peles e a carne das ovelhas dependuradas para secar e curar. Os pastores depois começaram a detectar ovelhas com feridas abertas e sangrando no dorso. Alfred Russel Wallace, o colaborador de Charles Darwin, relata que desde 1868 foram vistos lesões nos animais vivos, a procura dos rins dos ovinos, sua iguaria preferida. Ainda que macabro, este é um fenômeno de relativa freqüência: quando encontram um novo recurso no ambiente, os indivíduos tratam de maximizar seus potenciais, às vezes com resultados surpreendentes.

Note que, ainda hoje esta é uma história controversa. A quem acredite que Wallace foi enganado com relatos falsos. Por outro lado, os keas apresentam hábitos alimentares bastante exóticos como um inusitado interesse por borrachas de vedação de portas e janelas de automóveis.

Aceitar a existência de processos evolutivos para animais e plantas não chega a ser um problema. O que é difícil para muitas pessoas, salienta Weiner, é que esta aceitação leva à inevitável disputa sobre as origens de Homo sapiens.

Ou fomos criados por Deus, à sua imagem e semelhança, com um destino glorioso de dominadores não só deste planeta mas também do universo, ou teríamos uma origem prosaica, como a dos demais seres vivos, resultado de milhões de anos de pressões evolutivas, e com uma história biológica que ainda está sendo escrita.

É uma linda história, mas não especialmente melhor do que as demais: “O nosso dom da consciência é um mistério, um dos maiores mistérios remanescentes da biologia – mas não é um milagre maior que um bico, uma pena ou uma asa, e é feito da moldagem da mesma argila viva, pelo mesmo processo, o de Darwin. Por que deveríamos supor que a consciência é exclusiva da nossa espécie em tudo menos em grau? É a nossa arrogância, Darwin escreveu em seu caderno, é a nossa admiração por nós mesmos.


*Renato Z. Flores é médico, mestre e doutor em Ciências (Genética e Biologia Molecular) pela UFRGS. Desenvolve pesquisas em sociobiologia das relações familiares e violência interpessoal. Uma versão deste texto foi publicada no Caderno de Cultura de Zero Hora, 06/01/1996, pag. 6. 


Publicado em: 29/07/01 na Darwin Magazine com autorização do autor.

 

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