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Ernst Mayr (1904-2005) (*)

Felipe A. P. L. Costa (**)



Chegar aos 100 anos de idade é algo raro entre os seres humanos. Ainda mais raro é chegar a essa idade lúcido e saudável. Muito mais raro é completar um século de vida lúcido, saudável e com força e disposição suficientes para continuar brigando pelas próprias idéias. Trata-se de algo verdadeiramente excepcional e que deveria ser saudado por todos nós, mesmo quando não concordamos inteiramente com as idéias do aniversariante.

Em 5 de julho de 2004, foi assim: o biólogo evolucionista Ernst Mayr (1904-2005) completou 100 anos de idade – lúcido, saudável e discutindo e escrevendo sobre ciência, mais precisamente sobre biologia. Ainda no segundo semestre de 2004, ele publicou What makes biology unique? Considerations on the autonomy of a scientific discipline (Cambridge University Press), mais um de uma série aparentemente interminável de livros.

Infelizmente, porém, seus próximos livros agora serão póstumos: Ernst Mayr faleceu em 3 de fevereiro nos Estados Unidos, conforme divulgou no dia seguinte o boletim Harvard University Gazette. Soube da notícia no dia 04/02, primeiro por meio da Agência Estado, para logo em seguida perceber que notas e artigos mais detalhados já estavam na rede – ver, por exemplo, o artigo ‘Ernst Mayr dies’, publicado em The Scientist.

Nova Síntese

Mayr era o derradeiro representante vivo de um grupo de grandes cientistas que trabalhou na sedimentação dos pilares de um edifício chamado Nova Síntese: a fusão da teoria ecológica da seleção natural com a teoria genética da herança particulada.

Embora as duas tenham sido originalmente elaboradas em meados do século 19 – a primeira por Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913), a segunda por Gregor Mendel (1822-1884) – ambas permaneceram afastadas (e às vezes em conflito!) até as primeiras décadas do século 20. Foi a aproximação e a gradativa combinação dessas duas grandes teorias que resultou no surgimento da Nova Síntese – ou, como também costuma ser chamada, Teoria Sintética da Evolução ou Neodarwinismo.

Esse empreendimento foi fruto do trabalho de uma série de cientistas, incluindo os pioneiros (cujos trabalhos começaram a aparecer nas décadas de 1910-1930) Sewall Wright (1889-1988), Ronald A. Fisher (1890-1962) e J. B. S. Haldane (1892-1964), culminando nas décadas de 1930 e 1940 com os esforços de Julian S. Huxley (1887-1975), Theodosius Dobzhansky (1900-1975), Bernhard Rensch (1900-1990), George G. Simpson (1902-1984), G. Ledyard Stebbins (1906-2000) e, claro, do próprio Ernst Mayr.

Quatro desses nove cientistas eram essencialmente geneticistas (Wright, Fisher, Haldane, Dobzhansky), um era paleontólogo (Simpson), dois eram biossistematas [1] (Huxley, Mayr), outro era biólogo do desenvolvimento (Rensch) e apenas um era propriamente ecólogo (Stebbins). Isso não deixa de ser intrigante, principalmente se levamos em conta que a teoria da evolução por seleção natural é uma teoria essencialmente ecológica. Nesse sentido, vale lembrar aqui que a teoria hereditária defendida por Darwin e muitos de seus contemporâneos, a chamada teoria da herança por mistura, mais tarde se revelaria equivocada – um erro de conseqüências até certo ponto irrelevantes e que serve para exemplificar o papel secundário da genética no âmbito da teoria da evolução por seleção natural.

Da biologia naturalista à filosofia da ciência

Em terreno estritamente biológico, quatro noções clássicas formuladas e/ou sedimentadas por Mayr são as seguintes [2]:

(i) a noção de espécie como uma entidade real, em oposição, por exemplo, aos conceitos arbitrários de gênero e família;
(ii) o isolamento reprodutivo como uma barreira entre espécies (mecanismo que serviu de base para a formulação do seu famoso conceito biológico de espécie);
(iii) a especiação alopátrica [3] como o principal processo pelo qual novas espécies são geradas; e
(iv) o efeito do fundador (um caso extremo de deriva genética) e seu papel na especiação “instantânea”.

Embora esses conceitos sejam rotineiramente ensinados a todos os jovens que almejam uma carreira profissional como biólogo, há limitações sérias ou mesmo inconsistências em todos eles, a saber: (i) muitos autores questionam a realidade das espécies, mesmo entre organismos que se só reproduzem de modo sexuado; (ii) o isolamento reprodutivo não é necessário nem suficiente para definir uma espécie; (iii) a especiação não depende de alopatria; e (iv) a seleção natural seria a causa primária da especiação.

Deixando essas questões de lado, penso que, além do papel de destaque ocupado por Mayr na história da biologia evolutiva, a herança deixada agora por ele envolve preocupações mais filosóficas. Nas últimas quatro décadas, por exemplo, ele voltou-se e escreveu cada vez mais sobre os fundamentos epistemológicos da biologia. E também aí assumiu um papel pioneiro e de destaque (basta lembrar que a epistemologia era até bem pouco tempo uma disciplina dominada por autores inclinados quase que exclusivamente para os problemas da física).

Um sinal marcante do seu envolvimento explícito com essa empreitada mais filosófica pode ser encontrada em seu clássico artigo “Cause and effect in biology”, publicado na revista Science, em 1961. É nesse artigo que Mayr chama a atenção para a existência de “duas” biologias: a biologia funcional ou das causas imediatas, que procura explicar como os fenômenos vitais ocorrem, e a biologia evolutiva ou das causas remotas, que procura explicar porque os fenômenos vitais ocorrem do jeito que ocorrem [4].

No momento, o leitor interessado em conhecer alguma coisa de Mayr publicada no país terá de se contentar com apenas duas obras: O desenvolvimento do pensamento biológico: diversidade, evolução e herança (1998, Editora da UnB) e Populações, espécies e evolução (1978, Companhia Editora Nacional & Edusp), livro esgotado e fora do mercado há bastante tempo. No final da década de 1970, a leitura deste último foi para mim um alento e algo profundamente inspirador. Além de se tratar de uma leitura informativa, acessível e bastante agradável, vivíamos naquela época em um verdadeiro deserto bibliográfico – ao menos era assim para quem só pudesse estudar ecologia em português e cursasse a graduação em uma universidade tão fraca como a minha...

Por fim, vale ainda notar que os dois livros de Mayr lançados no Brasil representam bem o legado deixado por ele: o primeiro, que é meio uma versão atualizada e condensada de uma outra obra sua famosa (Animal species and evolution, cuja primeira edição é de 1963), ilustra o seu lado como biólogo de campo, enquanto o segundo é uma portentosa condensação histórica dos fundamentos da biologia (levou quase 10 anos para ser concluído e originalmente havia planos de um segundo volume), servindo para ilustrar suas ambições mais filosóficas.

Ernst Mayr era viúvo e deixa filhos, netos e bisnetos.

Notas

(*) Versão algo diferente deste artigo foi originalmente publicada no diário eletrônico La Insignia.

(**) Biólogo, autor do livro Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003).


1. Sistematas ou biossistematas são os especialistas que lidam com os sistemas de classificação dos seres vivos. O trabalho deles é próximo e às vezes se confunde com o dos taxonomistas, especialistas que, entre outras coisas, nomeiam e descrevem espécies novas. (O mesmo sujeito às vezes faz as duas coisas.)

2. Para detalhes e referências adicionais, ver Mallet, J. 2001. The speciation revolution. Journal of Evolutionary Biology 14: 887-888.

3. Alopatria significa viver em lugares distintos. Por definição, os integrantes de populações alopátricas não se encontram e, portanto, não podem mais acasalar entre si. O modelo de especiação alopátrica afirma que novas espécies surgem em conseqüência de diferenças que vão se acumulando ao longo do tempo em populações alopátricas.

4. Para uma discussão filosófica detalhada sobre a importância e o alcance desse artigo de Mayr, ver Ariew, A. 2003. Ernst Mayr’s ‘ultimate/proximate’ distinction reconsidered and reconstructed. Biology and Philosophy 18: 553-565.

 Texto publicado em 03/03/05


 

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Primeira versão criada em março de 1997
 por Gilson Cirino dos Santos.

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