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Dezembro de 2001

 
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LEITURAS DE VEJA
Análise grafobesteirológica

José Colucci Jr., de Boston (*)

O quadro humorístico é da Comedy Central, na TV americana. Um grafólogo de óculos de fundo de garrafa comenta a carta enviada ao senador Dashle, a tal que continha o pó de anthrax. "A escrita a mão é a escrita da mente", diz o grafólogo, com o ar autoconfiante dos charlatães. A frase soa melhor em inglês, "handwriting is brainwriting". Seguem comentários tão plausíveis quanto hilariantes. "Podemos afirmar com segurança que a carta não foi escrita por uma menina de nove anos, senão ela seria assim: [entra slide com a mensagem ameaçadora, só que desta vez em papel cor-de-rosa e caligrafia redonda, decorada com florzinhas nos "is" e borboletas na margem do papel]. Usando de conceitos de grafologia, o comediante-grafólogo diz que, pela letra, o indivíduo que enviou a carta com antraz "não esconde do especialista a dificuldade que tem em lidar com a própria agressividade".

O remetente – seja ele um terrorista americano, afegão ou de qualquer origem geográfica – não precisará mais passar por esse vexame. Bastará ler a Veja de 7 de novembro de 2001 (edição 1725) e aprenderá, entre outras coisas, que é preferível "inclinar as linhas ligeiramente para cima, para transmitir otimismo", e que não se deve "riscar palavras, para não ser tido como alguém que tenta esconder os pontos fracos". Aprenderá também que a assinatura deve ser legível e o nome claramente identificável, "para passar a idéia de simplicidade e transparência".

O artigo da Veja informa que a análise grafológica é cada vez mais usada na contratação de profissionais, embora esconda a opinião da revista sobre a "ciência" da grafologia. Veja cita mais de uma dezena de empresas conhecidas, nas quais a grafologia é usada como ferramenta complementar no processo de recrutamento. Os profissionais de RH entrevistados por Veja mostram-se satisfeitos com os resultados obtidos. Satisfação, no entanto, não é uma boa medida de validade. O índice de satisfação entre os usuários da astrologia, do jogo de búzios ou da bola de cristal da Madame Zora é alto, mas diz pouco sobre a eficácia desses métodos.

Lei brasileira

A grafologia está para a psicologia assim como a homeopatia está para a medicina, ou seja, é uma pseudociência que conseguiu conquistar respeitabilidade em alguns círculos profissionais. E, como a homeopatia, desenvolveu uma comunidade de adeptos que perpetuam as suas verdades organizando congressos, abrindo escolas e publicando revistas especializadas em grafologia. Suas pesquisas raramente são submetidas ao exame de especialistas fora do círculo de adeptos, e, quando são, o veredicto não lhes é favorável.

Confunde-se às vezes grafologia com grafotécnica. A grafotécnica é uma ciência forense, e baseia-se no fato de que a caligrafia de cada indivíduo é única e pode servir de identificação em questões legais. A graça do quadro humorístico da Comedy Central foi ter usado a grafologia onde só cabia a grafotécnica. A grafologia parte do pressuposto de que a personalidade e o comportamento do indivíduo se revelam através da escrita a mão, ou, mais poeticamente, a letra expressa a alma. Esta conclusão não é amparada por pesquisas sérias, em que pese a longa história da especialidade e o fato de uns poucos pesquisadores terem se interessado por ela, como, por exemplo, Binet, um dos precursores da psicologia experimental.

Em estudo publicado no Journal of Applied Psychology visando determinar a utilidade da grafologia na predição do sucesso de vendedores, por comparação com a avaliação de seus supervisores, Rafaeli e Klimoski concluíram que o método não é válido. Estudos feitos na Holanda com uma amostra total de 2.250 análises grafológicas e 6.000 controles concluíram que a grafologia é um método diagnóstico altamente questionável. Outros estudos mostraram que os grafólogos, quando acertam, não o fazem por causa da letra. As poucas análises grafológicas corretas são contextuais, como a que permitiu o grafólogo da Comedy Central dizer que o remetente da carta com antraz tem problemas de agressividade. É por essa razão, e não qualquer outra, que os grafólogos solicitam a anacrônica carta manuscrita e dados biográficos do candidato. Assim, o que escrever "fui contador por 23 anos da Souza & Silva, até o fechamento da empresa" será considerado, provavelmente pela maneira como cruza os "tês", um indivíduo confiável, pontual, mas sem grande imaginação. A caligrafia de outro que diga "nas horas vagas sou presidente da Escola de Samba Unidos do Morungaba" indicará que seu autor tem grande inteligência social e capacidade de organização, porém uma certa tendência a considerar o trabalho um fator secundário em sua vida.

Por que é, então, que alguns indivíduos ficam impressionados com a exatidão da análise grafológica? A discussão desse fenômeno – que envolve o chamado raciocínio post hoc e o pensamento seletivo – foge dos objetivos deste texto, mas beneficiaria bastante os jornalistas da Veja, que escreveram matéria tão acrítica. O mesmo fenômeno ocorre com os que lêem mapas astrais; quase sempre os consideram uma descrição fiel de sua personalidade, mesmo que esses mapas sido preparados para outra pessoa.

Se, no entanto, mapas astrais são geralmente feitos a pedido do interessado, o mesmo não ocorre com a grafologia. É preciso evitar o uso desse método no mínimo controverso e discriminatório para tomar decisões que afetem a vida e o destino alheio. Não é difícil imaginar que carreiras tenham sido decididas pela grafologia, mesmo em situações em que esta tenha sido usada como ferramenta complementar. "Desculpe, Seu Fulano, o seu currículo é muito bom, mas os pingos do ‘is’ do outro candidato são melhores."

Talvez os profissionais de RH citados por Veja não saibam que nos EUA a grafologia é cada vez menos usada por motivos legais; ou, se sabem, aproveitam-se da pouca proteção que a lei brasileira dá a candidatos a emprego. A EEOC (Equal Employment Opportunity Commission), além de zelar para que candidatos a emprego não sejam discriminados com base em cor da pele, idade, religião, sexo ou origem étnica, proíbe o uso de testes que não guardem correlação com o desempenho no trabalho. O critério, baseado nas diretrizes da APA (American Psychological Association), exige que os testes tenham validade estatística, o que não ocorre com a grafologia. Ao usar a grafologia, a empresa expõe-se ao risco de processo por discriminação.

Próprio punho

Felizmente, testar a utilidade da grafologia em uma situação concreta é fácil. Faço aqui a sugestão aos profissionais de RH que pretendam usar essa ferramenta. Peçam a ajuda de um psicólogo e de um estatístico que não estejam comprometidos com o sucesso do método. Peçam a um número de funcionários da empresa – o estatístico saberá determinar quantos – para copiar umas páginas do Memórias Póstumas de Brás Cubas e não se identificar no manuscrito. Melhor ainda se o teste for duplo-cego. Não se esqueçam também de pedir uma amostra de caligrafia ao presidente e aos diretores da empresa. Um grafólogo deve organizar as amostras – somente com base nos textos manuscritos, e sem qualquer meio de caracterização do autor – em uma escala com as características desejáveis em cada posto, segundo critérios estabelecidos pelo psicólogo e pela direção da empresa. A correlação entre os resultados obtidos pela análise grafológica e os obtidos por métodos comprovados de avaliação de desempenho indicará se a empresa deve usar a grafologia. Pode indicar também se o presidente deve continuar no posto.

Com esse experimento, tenho certeza, muito dinheiro será economizado em grafologia, a empresa deixará de discriminar candidatos pelo uso de um método sem validade, os funcionários lerão ao menos umas páginas de Machado de Assis e eu... bem, eu ficarei satisfeito com uma carta de agradecimento. Escrita de próprio punho.

(*) Engenheiro, tem boa caligrafia, e-mail <j.colucci@rcn.com>

Publicado em:  01/12/01
Texto original em  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/iq141120014.htm
Publicação autorizada pelo:  Observatório da Imprensa
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