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Dezembro de 2001

 
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SUPERINTERESSANTE
Com quantos "efes" se escreve "evolução"?

Felipe A. P. L. Costa (*)

Naturalistas e outros observadores do "mundo selvagem" freqüentemente relatam casos de plantas e animais que parecem estar muito bem ajustados aos lugares onde vivem: árvores que atraem polinizadores específicos para suas flores; lagartas que constroem abrigos nas folhas da planta-hospedeira; peixes que nadam em águas profundas sem morrer esmagados; morcegos que navegam no escuro sem trombar nos obstáculos etc. Biólogos evolucionistas procuram mostrar que esses e muitos outros exemplos não são apenas ilusões ou simples coincidências, mas resultados de um processo ativo de ajustamento: a evolução por seleção natural [1]. "Evoluir" significa mudar e "evolução biológica" pode ser entendida como toda e qualquer mudança hereditária que ocorre em populações naturais, geração após geração.

Poucos assuntos científicos rivalizam com a biologia evolutiva em termos do grau de interesse que despertam entre os leitores e o público em geral [2]. Editores e repórteres de jornais e revistas sabem disso e costumam aquecer pautas mornas colocando nelas pitadas de temas evolutivos "quentes": quem somos, de onde viemos, como chegamos até aqui? Até mesmo cientistas que trabalham em áreas distantes gostam de especular e dar os seus palpites, em especial quando o assunto é a "evolução humana". Infelizmente, reportagens e artigos publicados na imprensa costumam carregar no tom sensacionalista, tratando a evolução como assunto meramente especulativo, repleto de incertezas e sobre o qual nem os próprios biólogos conseguiriam entrar em acordo... Em suma: uma "torre de Babel", na qual muitos falam, mas poucos se entendem...

Um exemplo recente desse tom espalhafatoso pode ser encontrado no número de agosto de 2001 da revista Superinteressante, da Editora Abril – a revista de "divulgação científica" mais vendida no Brasil, com tiragem superior a 400 mil exemplares. Com uma chamada na capa, a revista alardeava: "Darwin estava errado? – por que tantos cientistas estão colocando a teoria da evolução em xeque". "Tantos" sugerindo "muitos" é um claro exagero; mas "colocar em xeque" é nada mais nada menos do que uma daquelas iscas que editores ardilosamente empurram para a primeira página tentando atrair a atenção do público e aumentar as vendas.

Nem o próprio Stephen J. Gould, co-autor da chamada hipótese do "equilíbrio pontuado" e uma das fontes citadas na referida matéria, parece mais levar a sério a importância generalizada de algum tipo de evolução "não-darwiniana", isto é, que alguma outra força, que não a seleção natural, seja o principal mecanismo responsável pelas mudanças evolutivas [3]. No fim das contas, matérias jornalísticas como essa estão apenas reproduzindo – por desinformação ou simples má-fé – erros e mal-entendidos grosseiros, inclusive alguns que poderiam ser facilmente evitados se os seus autores simplesmente não confundissem o significado dos três "efes" que existem por trás da palavra "evolução": fato, filogenias e forças [4].

Fato

Tratar a evolução ou qualquer outro fenômeno do mundo natural como um fato significa tão-somente admitir sua existência, a despeito do que sabemos ou compreendemos a seu respeito. Ao contrário do que possa parecer, nenhum debate científico recente tem posto em dúvida o fato ou a realidade objetiva da evolução (presente ou passada), embora haja divergências a propósito de sua reconstituição histórica ("como ocorreu?") ou sobre os mecanismos causais que a promovem ("por que ocorre?"). No entanto, por mais acirradas ou acaloradas que sejam, polêmicas científicas sobre "como" ou "por que" a evolução ocorreu no passado e continua a ocorrer no presente não a suprimem como um fato da vida, do mesmo modo como divergências a respeito da composição química do Sol não interrompem a sucessão dos dias e das noites...

Filogenias

Cada indivíduo recém-nascido é o elo mais novo em uma cadeia de gerações que retrocede ininterruptamente até a aurora dos tempos. Ao longo dessa impressionante jornada, inúmeras espécies surgiram, dividiram-se em novas linhagens e então desapareceram, naturalmente. A filogenia de uma linhagem é um resumo de sua história evolutiva, isto é, uma reconstrução geral das relações de parentesco entre as várias espécies que ela gerou ao longo do tempo – a maioria das quais, na maioria dos casos, é bom que se diga, já foi extinta. Na prática, montar filogenias é um quebra-cabeça difícil e meticuloso [5], tanto pelas dimensões do empreendimento como também pela falta de elos ligando todas as espécies envolvidas – para ter uma idéia, tente, por exemplo, montar sua própria árvore genealógica e descubra quão poucas gerações de ancestrais você conseguirá reconstituir! Não é de estranhar, portanto, que a história evolutiva de tantas linhagens de plantas e animais esteja repleta de "elos perdidos", dando margem a interpretações e especulações divergentes.

Forças

Não há uma completa unanimidade entre os biólogos sobre a identidade e a importância relativa das forças que promovem a evolução, embora a seleção natural ocupe o primeiro lugar na lista de preferências. A evolução por seleção natural é uma teoria essencialmente ecológica, que pode ser resumida em poucas palavras: (1) o potencial reprodutivo dos seres vivos é enorme, mas quase nunca é realizado, pois a maioria dos indivíduos morre antes de gerar seus próprios descendentes; (2) filhos diferem entre si e também dos seus pais, e muitas dessas diferenças são hereditárias; (3) indivíduos que conseguem sobreviver e se reproduzir em geral são aqueles que exploram os recursos e/ou evitam os problemas de modo mais eficiente; e (4) os pais da próxima geração tendem a ser portadores de características hereditárias que dão as maiores chances de sobrevivência e reprodução sob as circunstâncias ecológicas vigentes.

Contexto ecológico da mudança evolutiva

Nenhuma outra ciência se compara com a biologia em termos de variedade temática: por si só, o exame das características (morfológicas, fisiológicas e comportamentais) de cada uma das 1,5 milhão de espécies nomeadas e descritas formalmente – para não falar em todas as espécies existentes na Terra (as estimativas variam de 5 milhões a 50 milhões de espécies) – já se apresenta como um empreendimento aparentemente interminável e absurdamente trabalhoso. Frente a tamanha riqueza de detalhes e espécies, o geneticista Theodosius Dobzhansky (1900-1975) disse certa vez: "Nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução" [6]. Em outras palavras, frente a tantos detalhes e a tantas espécies, o que em última instância dá coesão e veicula (direta ou indiretamente) cada um a todos os outros estudos biológicos é a realidade da evolução.

Mas a evolução não ocorre em um "vácuo ecológico"; ao contrário: se nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução, "muito pouca coisa em evolução faz sentido exceto à luz da ecologia". É a ecologia que torna a evolução um processo inevitável, de tal forma e a tal ponto que mesmo se os componentes abióticos do ambiente (variáveis climáticas, por exemplo) fossem "congelados" do jeito que são atualmente, os componentes bióticos (plantas, animais, fungos e microorganismos) continuariam a mudar. E mudanças evolutivas em uma determinada população acabam provocando alterações nas pressões seletivas sobre as demais espécies com as quais ela interage. Se um novo tipo de defesa surge em uma população de presas, por exemplo, seus predadores logo passam a ser pressionados no sentido de evoluir algum tipo de contra-ataque -- sob pena de passar fome e correndo o risco de desaparecer. Não existem, contudo, soluções propriamente definitivas para tais "corridas armamentistas", pois evoluir novos tipos de defesa ou de ataque produz repercussões que vão e voltam... [7]

Populações naturais com pouco ou nenhum potencial para evoluir (isto é, com pouca ou nenhuma variabilidade genética) têm chances reduzidas de persistir a longo prazo em um mundo heterogêneo, no qual as condições de vida e a disponibilidade dos recursos estão sempre mudando – tanto no espaço ("o que tem aqui, falta ali") como no tempo ("o que ontem era comum, hoje é raro"). A capacidade de evoluir é, portanto, indispensável para a persistência a longo prazo de populações que vivem em ambientes heterogêneos. Afinal, essa talvez seja uma maneira apropriada de reescrever o primeiro parágrafo desse artigo: evolução é um processo permanente de busca por soluções para o "drama ecológico da vida" – isto é, como sobreviver e se reproduzir em um mundo finito, heterogêneo e habitado por tantas outras criaturas que estão tentando fazer exatamente a mesma coisa?

(*) Biólogo; e-mail <meiterer@hotmail.com>; Caixa Postal 794, Juiz de Fora, MG, 36001-970.

Notas

1. Para mais alguns exemplos, ver Williams, G. C. 1998. O brilho do peixe-pônei. RJ, Rocco. [voltar]

2. Nos últimos anos, inúmeros livros de divulgação lidando com um ou outro aspecto da biologia evolutiva foram publicados no Brasil; a literatura técnica, contudo, ainda é muito escassa; para uma boa introdução ao assunto, ver Futuyma, D. J. 1993. Biologia evolutiva. Ribeirão Preto, Sociedade Brasileira de Genética. [voltar]

3. Ver comentários e entrevista com S. J. Gould em Hogan, J. 1998. O fim da ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento científico. SP, Companhia das Letras; sobre a hipótese do equilíbrio pontuado, ver Eldredge, N. & I. Tattersall. 1984. Os mitos da evolução humana. RJ, Zahar; para uma ampla visão histórica da biologia evolutiva, ver Mayr, E. 1998. O desenvolvimento do pensamento biológico: diversidade, evolução e herança. Brasília, Editora da UnB. [voltar]

4. Sobre a distinção crucial entre fato, filogenias e forças evolutivas, ver Ruse, M. 1995. Levando Darwin a sério. BH, Itatiaia. [voltar]

5. Sobre árvores filogenéticas ver Amorim, D. S. 1997. Elementos básicos de sistemática filogenética. Ribeirão Preto, Holos/Sociedade Brasileira de Entomologia; sobre fósseis e "elos perdidos", ver Carvalho, I. S. (org.). 2000. Paleontologia. RJ, Interciência. [voltar]

6. Esta frase serviu como título para um artigo de Dobzhansky, que pode ser lido em <http://www.elite.net/~hclark/light.htm>; o único livro técnico desse autor publicado no Brasil infelizmente está esgotado há muitos anos – Dobzhansky, T. 1973. Genética do processo evolutivo. SP, Edusp/Polígono. [voltar]

7. Sobre "corridas armamentistas", ver Krebs, J. R. & N. B. Davies. 1996. Introdução à ecologia comportamental. SP, Atheneu. [voltar]

Leituras recomendadas

  • Para uma leitura introdutória ao estudo da ecologia, ver Ehrlich, P. R. 1993. O mecanismo da natureza: O mundo vivo à nossa volta e como funciona. RJ, Campus

  • Sobre o estudo da evolução em "carne e osso", ver Weiner, J. 1995. O bico do tentilhão. RJ, Rocco; para uma visão técnica detalhada, ver Vermeij, G. J. 1987. Evolution and escalation: an ecological history of life. Princeton, PUP

Publicado em:  01/12/01
Texto original em:  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ofjor/ofc211120012.htm
Publicação autorizada pelo  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/
 

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