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Que Efeito Teria Sobre a Educação o Ensino do Criacionismo nas Aulas de Ciências?

Lenny Flank


Apesar da decisão do Supremo Tribunal de que a "ciência" do criacionismo é religiosa por natureza e não pode ser legislada para introdução na sala de aula, o movimento criacionista tem continuado os seus esforços para ter a sua versão bíblica da "ciência" ensinada aos estudantes. Temos por isso de ver que efeito tem tido o criacionismo no ensino da ciência na América, e que efeito adicional teria se os criacionistas alguma vez fossem bem sucedidos na sua campanha para substituir a ciência com a Revelação Divina.

Os criacionistas do ICR e da CRS gostariam de na prática atrasar o tempo de volta para 1920, quando a evolução era ilegal e a história bíblica das origens era obrigatória por lei. Como Henry Morris diz: "Um propósito chave do ICR é trazer o campo da educação -- e depois todo o nosso mundo na medida do possível -- de volta para a verdade fundacional da criação especial e história primeva conforme revelada primeiro no Gênesis e enfatizada adicionalmente em toda a Bíblia." (Morris, Back to Genesis [De Volta ao Gênesis], julho de 1995) Walter Lammerts, co-fundador da CRS, ecoa: "O nosso objetivo é muito ambicioso, nomeadamente, a completa reavaliação da ciência a partir do ponto de vista teísta." (Lammerts, 1975, p. 2)

Os criacionistas citam várias razões por que acham que o criacionismo devia ser ensinado nas escolas públicas, e uma destas, admitem eles abertamente, é que isto encoraja a crença numa Deidade pessoal e deste modo encoraja um "estilo de vida cristão": "Não existe maior estímulo para um comportamento responsável e um esforço honesto, bem como honestidade e consideração pelos outros, do que a percepção de que pode muito bem haver um Criador pessoal a quem tenhamos de prestar contas." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. 14) E esta, é claro, é a verdadeira razão por que os fundamentalistas querem introduzir à força o relato bíblico das origens na sala de aula.

Porém, como os criacionistas sabem que a Constituição dos Estados Unidos proíbe o ensino de doutrinas religiosas nas escolas públicas, eles não puderam apresentar esses argumentos em tribunal, e em vez disso tiveram de recorrer a uma estratégia dupla -- argumentar, numa inversão que teria feito Orwell sentir-se orgulhoso, que: (1) o criacionismo é ciência, não é religião, e (2) a evolução é religião, não é ciência. Conforme Morris resume: "Como o criacionismo pode ser discutido efetivamente como um modelo científico, e como a evolução é fundamentalmente uma filosofia religiosa em vez de uma ciência, é claramente uma prática educacional pouco sadia e até inconstitucional a evolução ser ensinada e promovida nas escolas públicas, em exclusão ou detrimento da criação especial. [...] Crianças e pais criacionistas têm dessa forma negada a 'igual proteção das suas leis' e o Estado, para todos os efeitos e propósitos, fez uma lei estabelecendo a religião do humanismo evolucionário nas suas escolas." (Morris, 1975, p. 14)

Cada um destes argumentos foi tratado pelo Juiz Overton durante o caso Arkansas. Baseado no testemunho e nas declarações dos próprios criacionistas, Overton concluiu taxativamente que "a ciência da criação não é ciência." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981) Ele concluiu que é "uma cruzada religiosa, acompanhada do desejo de esconder este fato [...] A única inferência que se pode tirar é que a Lei foi aprovada com o propósito específico da Assembléia Geral de avançar a religião [...] Foi pura e simplesmente um esforço para introduzir a versão bíblica da criação no currículo da escola pública." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981). A lei do Arkansas, decidiu Overton, "carece de valor educacional legítimo porque 'ciência da criação', conforme definida nessa seção, simplesmente não é ciência". (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981)

Overton também considerou o argumento criacionista de que a evolução é ela própria uma religião e tem de ser "balanceada" pelo criacionismo, e rejeitou-o. "Está claramente estabelecido na jurisprudência", disse Overton, "e talvez também no senso comum, que a evolução não é uma religião, e que ensinar evolução não viola a Cláusula Fundamental." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981) Overton concluiu: "Se a ciência da criação é, de fato, ciência e não religião, como os defensores alegam, é difícil ver como o ensino de tal ciência poderia 'neutralizar' a natureza religiosa da evolução. Assumindo, porém, para efeito de argumentação, que a evolução é uma religião ou uma crença religiosa, o remédio é parar o ensino da evolução; não é estabelecer outra religião em oposição a ela." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981)

Quanto ao argumento de que o ensino da evolução, que é ofensivo para as crenças religiosas de estudantes fundamentalistas, significa que o livre exercício da religião destes estudantes está a ser infringido, Overton concluiu de forma simples e clara: "O argumento não tem mérito legal." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981) No caso Epperson, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu que: "Não existe e não pode haver qualquer dúvida de que a Primeira Emenda não permite que o Estado requeira que o ensino e a aprendizagem sejam feitos à medida dos princípios e proibições de qualquer seita religiosa ou dogma [...] Ela proíbe igualmente a preferência de uma doutrina religiosa ou a proibição de uma teoria que seja considerada antagônica a um dogma particular." (Supremo Tribunal dos Estados Unidos, Epperson v. Arkansas, 1968) A religião "Ciência Cristã", por exemplo, defende a crença de que apenas a oração e a fé podem ser usadas para curar doenças, mas isto não significa que as aulas de saúde das escolas secundárias e das escolas médicas devam ser encerradas em deferência para com estas opiniões religiosas.

O argumento "evolução é religião" foi resolvido em 1994, no caso de tribunal Peloza v. Capistrano School District. O Tribunal Federal de Circuito decidiu que "evolucionismo" não é uma religião, e o ensino da teoria evolucionária nas aulas de ciências nem estabelece uma religião nem interfere com a prática religiosa.

O argumento mais comum dos criacionistas tem sido o da abordagem "imparcial" -- como existem dois "modelos" de origens, evolução e criacionismo, e como nenhum deles pode ser "provado", por que não apresentar simplesmente ambos os argumentos e deixar os estudantes decidirem por si mesmos qual é o melhor fundamentado? Como diz Morris: "Ambos os modelos deviam ser ensinados, tão objetivamente quanto possível, nas salas de aula públicas, dando argumentos a favor e contra ambos. Alguns estudantes e pais acreditam na criação, outros na evolução, e alguns estão indecisos [...] Esta é claramente a abordagem mais eqüitativa e constitucional." (Morris, ICR Impact, janeiro/fevereiro 1973)

O argumento criacionista da "equidade" parece, à primeira vista, uma exigência razoável. O argumento diz que há duas versões para cada história, portanto por que não simplesmente apresentar ambos os lados? Conforme diz Frederick Edwords: "A idéia de dar a uma posição minoritária a oportunidade de se fazer ouvir, ao lado da posição do establishment, parece tão americana como torta de maçã." (Godfrey, 1983, p. 301) O que poderia ser mais simples do que isto?

Em apoio do seu argumento da "equidade", os criacionistas gostam de citar uma longa lista de pesquisas de opinião e sondagens que demonstram um vasto apoio a essa idéia. Em 1981, durante o julgamento do Arkansas, uma pesquisa de opinião da NBC News mostrou que 76% do público pensava que tanto a criação como a evolução deviam ser ensinadas nas escolas, 10% pensavam que apenas a história da criação devia ser ensinada, e apenas 7% pensavam que só a evolução devia ser ensinada. Um estudo de estudantes universitários americanos, de 1986, mostrou que 50% acreditavam na Criação Divina da vida (o estudo também mostrou que 33% dos estudantes universitários acreditavam em discos voadores). E em 1987 uma pesquisa de estudantes universitários de vários Estados concluiu que aproximadamente metade dos estudantes americanos pensavam que tanto o criacionismo como a evolução deviam ser ensinados nas escolas. As percentagens variavam entre 46% em Connecticut, 47% na Califórnia e 57% no Texas. (Por outro lado, as percentagens foram muito mais baixas quando se perguntou "se há uma boa quantidade de evidência científica contra a evolução e a favor do relato da Bíblia sobre a criação" -- a percentagem dos que achavam que sim caiu para 25% na Califórnia, 30% no Connecticut e 47% no Texas.)

O argumento criacionista da "equidade" também foi tratado pelo Juiz Overton. Ele indicou que sob uma forma de governo Constitucional, os direitos de uma minoria estão protegidos contra as opiniões mesmo de uma maioria esmagadora. "A aplicação e conteúdo dos princípios da Primeira Emenda", concluiu Overton, "não são determinados pela opinião pública nem por um voto majoritário. Sob o sistema constitucional de governo, é irrelevante saber se os proponentes da Lei 590 constituem a maioria ou minoria. Nenhum grupo, não importando quão grande ou pequeno, pode usar os órgãos do governo, entre os quais as escolas públicas são os mais visíveis e influentes, para impingir as suas crenças religiosas a outros." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981) A Primeira Emenda era clara, decidiu Overton, ao dizer que doutrinas religiosas não podem ser introduzidas nos currículos das escolas públicas, quer essa idéia seja popular ou não.

O argumento da "equidade" e do "tratamento equilibrado" dos criacionistas é, além disso, enganador, pois o que eles querem não é equidade nem tratamento equilibrado. O que eles realmente querem é que as suas opiniões religiosas particulares sejam adotadas em detrimento de todas as outras. A definição de "ciência da criação", dada pela proposta de lei do Arkansas, por exemplo, é:

"'Ciência da criação' inclui as evidências científicas e inferências relacionadas que indicam: (1) Criação súbita do universo, energia e vida a partir do nada, (2) A insuficiência das mutações e da seleção natural em produzir o desenvolvimento de todas as espécies vivas a partir de um único organismo, (3) Mudanças apenas dentro de limites fixos de tipos de plantas e animais originalmente criados, (4) Ancestralidade separada entre homens e primatas, (5) Explicação da geologia da terra através do catastrofismo, incluindo a ocorrência de um dilúvio global, e (6) Um início relativamente recente para a terra e espécies vivas." (Arkansas Legislature Act 590, 1981)

Esta definição exclui tudo exceto o ponto de vista criacionista sobre uma terra recente, defendido pelo ICR, CRS e afins. A proposta de lei não dá "tempo igual" ou "equidade" a interpretações como a evolução teísta, ou mesmo criacionistas que defendem uma terra antiga, como os teóricos do dia-era ou da lacuna. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, não aceitam a evolução, mas também não aceitam uma "explicação da geologia da terra através do catastrofismo, incluindo a ocorrência de um dilúvio global", nem aceitam "um início relativamente recente para a terra e espécies vivas." Sob os termos das propostas de lei criacionistas do "tratamento equilibrado", seria ilegal ensinar o ponto de vista das Testemunhas de Jeová.

Existem igualmente muitos outros pontos de vista religiosos que postulam uma criação sobrenatural da vida por um ser divino (ou seres divinos). Por exemplo, a seita Hare Krishna, do hinduismo, rejeita a teoria evolucionária. Mas sob os termos da proposta de lei de "Tratamento Equilibrado", seria ilegal ensinar as "evidências científicas" em favor dos mitos da criação hindus, porque tais mitos não incluem "a ocorrência de um dilúvio global". Além disso, diz Morris, a história da criação hindu que descreve a criação sobrenatural do universo é na realidade apenas evolução sob disfarce -- "Os mitos cosmogênicos dos hindus, et al, não são de modo nenhum modelos de criação, são antes sistemas evolucionários esotéricos." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. 15) "Paganismo, humanismo e panteísmo são meramente formas variantes de uniformitarismo evolucionário, tal como no fundo são todas as religiões e filosofias exceto a cristianismo bíblico." (Morris, 1970, p. 16) Essa afirmação -- que todas as opiniões religiosas exceto as dele próprio são realmente apenas "ciência da evolução", é conveniente para Morris, independentemente de quão absurda possa ser.

Os mesmos criacionistas que argumentam com tanta veemência a favor de "tempo igual" e "tratamento equilibrado", além do mais, têm ainda que convidar os evolucionistas, de forma magnânime, para os seus serviços nas igrejas, no próximo domingo, de forma que eles possam dar uma palestra explicando como funciona a teoria evolutiva (tudo no interesse do "tempo igual" e "equidade", claro). A dedicação deles à "equidade" também não os convenceu a permitir que criacionistas judeus, muçulmanos ou budistas se tornassem membros do ICR ou da CRS.

Ao excluírem automaticamente todas as opiniões religiosas exceto as deles mesmos, bem como outras versões da sua própria perspectiva cristã, os criacionistas tornam obvio que o único "tempo igual" e "equidade" em que eles estão interessados é aquele que dá voz ao ponto de vista deles mesmos -- fundamentalismo cristão literalista -- e ao de mais ninguém.

O requerimento de "tratamento equilibrado" também apresenta dificuldades de implementação. A proposta de lei declara explicitamente que a instrução religiosa e a discussão de doutrinas religiosas tem de ser evitada: "O tratamento tanto da ciência da evolução como da ciência da criação será limitado à evidência científica para cada modelo e inferências dessas evidências científicas, e não deve incluir qualquer instrução religiosa ou referências a escritos religiosos." (Arkansas Legislature Act 590, 1981) Porém, como o Juiz Overton indica: "A Lei é auto-contraditória e a conformidade é impossível [...] Não existe maneira de os professores ensinarem o relato da criação de Gênesis de uma maneira secular." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981) Para verificar que a lei é cumprida, e que não são introduzidas nas salas de aula referências ilegais a doutrinas religiosas ou escritos religiosos, o Estado não terá outra alternativa senão analisar todos os manuais criacionistas e escutar as discussões nas salas de aula.

Overton descreve onde leva este processo: "Como vai o professor responder a perguntas sobre uma criação súbita a partir do nada? Como é que o professor vai explicar a ocorrência de um dilúvio global? Como é que o professor vai explicar o conceito de um princípio relativamente recente para a terra? A resposta é obvia pois a única fonte para esta informação está contida no Livro de Gênesis [...] O envolvimento do Estado na análise de textos procurando referências religiosas não permissíveis exigirá que funcionários do Estado façam delicados juízos religiosos. A necessidade de monitorizar a discussão na sala de aula a fim de defender a proibição da Lei contra instrução religiosa envolverá necessariamente administradores em questões que dizem respeito à religião. Estes envolvimentos contínuos de funcionários do Estado em questões e assuntos de religião criam um excessivo e proibido envolvimento com a religião." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981)

Por outras palavras, a proposta de lei criacionista do "tratamento equilibrado" levaria a um envolvimento direto do Estado com decisões religiosas. É claro que os criacionistas não têm qualquer problema com isso, visto que, como vimos, em qualquer caso eles gostariam de acabar com a separação entre igreja e Estado. Porém, para aqueles de nós que acreditam na livre expressão da religião sem interferência do Estado, a possibilidade de envolvimento direto do Estado em tais assuntos religiosos é arrepiante.

Existem outros problemas na abordagem do "tratamento equilibrado". Será que o requerimento legal do "tempo igual" significa que os professores de biologia não podem indicar todas as distorções e imprecisões do "modelo" da criação? Se os professores de biologia apresentarem o "modelo" da criação aos seus estudantes e depois demonstrarem que praticamente toda a "evidência" criacionista é um disparate, será que isso constitui "tratamento equilibrado"? Caso a resposta seja "não", será que os professores são então obrigados a ensinar "ciência" da criação como sendo válida apesar de poderem demonstrar que não é válida? Será que o Estado vai monitorizar todas as aulas de biologia para se certificar que nenhum professor de biologia aponta ilegalmente quaisquer erros na "ciência" da criação -- na prática obrigando que os professores ensinem o criacionismo como se este fosse verdadeiro, quer seja ou não? Como escreve o teólogo Langdon Gilkey, o precedente que aqui é estabelecido é extraordinariamente perigoso: "Não é incomum uma legislatura estabelecer assuntos que têm de ser incluídos nos currículos das suas escolas públicas: uma porção de ciência, uma porção de civismo, uma porção de história americana e local, e assim por diante. Mas é um novo precedente, e um precedente de mau agouro, quando uma legislatura requer que teorias sejam ensinadas entre estes assuntos obrigatórios, quanta ênfase deve ser dada a cada e, por clara implicação, que teorias não podem ser ensinadas [...] Sempre que o governo determinou o conteúdo de um currículo (como por exemplo na União Soviética), a investigação livre e o debate livre na educação desapareceram." (Gilkey, 1985, p. 14)

De fato, os criacionistas estão a tentar usar o poder político do Estado para introduzir à força nas escolas as suas doutrinas religiosas, e ao mesmo tempo tornar essas opiniões legalmente imunes às críticas. E tais táticas são intoleráveis em qualquer forma de governo democrática.

Se levarmos a sério os pedidos de "tempo igual" dos criacionistas, que dizer dos outros? Existem muitas outras "alternativas científicas" por aí, cada uma delas merecendo, presumivelmente, a mesma "equidade" e "tratamento equilibrado" como a "ciência" da criação. Se dermos tempo igual à "ciência alternativa" do criacionismo, por que não fazer o mesmo para "ciências alternativas" como o channeling [mediunidade espírita], poder das pirâmides, cristais, e outras práticas da Nova Era? Por que é que a "ciência alternativa" da alquimia não devia receber um tratamento equilibrado nas aulas de química? A Sociedade da Terra Achatada acredita que os fatos da geologia demonstram que a terra é plana; devia então esta "perspectiva científica alternativa" receber tempo igual nas aulas de geologia? Será que os estudantes de medicina deviam ter livre escolha entre os "modelos alternativos" da Ciência Cristã [uma seita religiosa que rejeita o tratamento médico] e as modernas teorias de tratamento de doença? Não deviam os futuros astrônomos estudar lado a lado o modelo da astrologia e o modelo da astronomia, ou o modelo geocêntrico de Ptolomeu lado a lado com a teoria heliocêntrica? Se as exigências de "equidade" dos criacionistas forem atendidas, por que não atender também as exigências de "equidade" destes outros?

Longe de ser um pedido bem intencionado para discussão aberta, a abordagem criacionista do "tratamento equilibrado" é simplesmente uma tentativa de usar a lei para introduzir nas salas de aula as opiniões religiosas fundamentalistas, em detrimento de todas as outras. Não admira que os tribunais dos Estados Unidos -- incluindo o Supremo Tribunal dos Estados Unidos -- tenham rejeitado vez após vez o argumento do "tempo igual", e tenham excluído a "ciência" da criação das aulas de biologia.

Sob os termos desta lei de "tratamento equilibrado", é provável que muitos, ou mesmo a maioria, dos distritos escolares simplesmente evitem toda a controvérsia deixando completamente de lado qualquer instrução em "ciência da evolução", e resolvam o seu embaraço deixando cair toda a menção de "evolução" na sala de aula, como fizeram durante a era pós-Scopes. (Em 1979, depois da diretoria escolar em Cobb County, Georgia, ter aprovado uma política de "Tempo Igual", os funcionários da escola decidiram abandonar a biologia como requerimento para graduação, em vez de lidar com todos os problemas resultantes.) Se a teoria evolucionária fosse novamente censurada nas salas de aula americanas, os efeitos hoje seriam ainda mais profundos do que na década de 1920. Na sociedade fortemente industrializada e mecanizada dos dias de hoje, conhecimento e inovações tecnológicas são a força vital de qualquer economia nacional, e as ciências da vida, desde a engenharia genética até à medicina e à bio-manufatura, estão exatamente na vanguarda do progresso tecnológico. Todos estes avanços tecnológicos dependem da ciência da biologia e, conforme o biólogo Ernst Mayr indica, a ciência da biologia está ela própria dependente da teoria da evolução: "A teoria da evolução é justamente chamada a maior força unificadora na biologia. A diversidade de organismos, semelhanças e diferenças entre tipos de organismos, padrões de distribuição e de comportamento, adaptação e interação, tudo isto era meramente um caos desconcertante de fatos até a teoria da evolução lhe ter dado sentido" (Ernst Mayr, Population, Species and Evolution [População, Espécies e Evolução], 1970, p. 1)

Se os criacionistas forem bem sucedidos em substituir a teoria da evolução com as suas doutrinas religiosas, será um golpe devastador para as ciências biológicas e para a educação da ciência nos Estados Unidos, a par com a devastação que Lysenko provocou na União Soviética. Conforme o Juiz Overton observou: "A implementação da Lei 590 terá conseqüências sérias e desagradáveis para os estudantes, particularmente para aqueles que planeiam freqüentar a universidade. A evolução é a pedra angular da moderna biologia [...] Qualquer estudante que seja privado de instrução quanto ao pensamento científico prevalecente sobre estes tópicos será privado de uma parte significativa da educação em ciência. Tal privação ao longo do nível secundário teria indubitavelmente um impacto sobre a qualidade da educação nos colégios e universidades do Estado, especialmente nos programas pré-profissionais e profissionais das ciências da saúde." (Overton Opinion, McLean v. Arkansas, 1981)

E não é só a biologia que seria afetada. Conforme o escritor Phillip Kitcher observa: "A biologia evolucionária está interligada com outras ciências, que vão desde a física nuclear até à astronomia, biologia molecular e geologia. Se a biologia evolucionária fosse rejeitada, então os princípios fundamentais das outras ciências terão de ser amputados." (Kitcher, 1982, p. 4) O texto da Lei 590 indica explicitamente: "O assunto da origem do universo, da vida e do homem é tratado em muitos cursos das escolas públicas, como biologia, ciências da vida, antropologia, sociologia, e freqüentemente também na física, química, filosofia e estudos sociais." (Arkasas Legislature Act 590, 1981) Em resultado disso, continua a proposta de lei, as provisões de "tempo igual" requerem tratamento igual do criacionismo não apenas nas aulas de biologia mas também em todas as outras -- e não apenas nas salas de aula, mas também "nos materiais das bibliotecas, tomados como um todo para as ciências e tomados como um todo para as humanidades, e em outros programas educacionais nas escolas públicas, na medida em que tais aulas, manuais, materiais de biblioteca ou programas educacionais tratem de qualquer modo do assunto da origem do homem, da vida, da terra e do universo." (Arkasas Legislature Act 590, 1981)

Por outras palavras, a doutrina do "tratamento equilibrado" não se limitaria às aulas de biologia. Sob os termos dessa lei, seria exigido que metade de todos os livros sobre ciência em todas as bibliotecas das escolas tivessem uma orientação criacionista, e teria de ser dado tempo igual ao criacionismo em aulas tão diversas como astronomia (pois, segundo o criacionismo, o universo realmente não tem 15 bilhões de anos e o Big Bang realmente nunca ocorreu), geologia (geologia do Dilúvio teria de receber o mesmo tempo que a geologia padrão), física nuclear (o criacionismo defende que as taxas de decaimento não são constantes), arqueologia e história mundial (o criacionismo diz que nada ocorreu antes de há 6.000-10.000 anos atrás), química (moléculas orgânicas não se podem formar por métodos naturais), teoria electromagnética (teria de ser dado tempo igual à idéia criacionista do decaimento do campo magnético), e mecânica quântica e relatividade (pois os criacionistas defendem que a velocidade da luz diminuiu). Ou seja, uma tal política levaria ao abandono completo de praticamente todo o conhecimento científico, em deferência para com as doutrinas religiosas dos criacionistas.

Que esse é de fato o objetivo do movimento criacionista é tornado evidente pelo próprio Morris, que diz explicitamente: "A verdadeira educação em todos os campos devia ser estruturada à volta do criacionismo, não à volta da evolução." (Morris, Scientific Creationism [Criacionismo Científico], 1974, p. iii) Em preparação para esta eventualidade, os criacionistas já fizeram um manual de astronomia criacionista (Harold Slusher, The Origin of the Universe [A Origem do Universo], CLP Publications, 1980) e um livro de história mundial criacionista (Albert Hyma e Mary Stanton, Streams of Civilization [Correntes da Civilização], CLP Publications, 1976). Presumivelmente, a estes seguir-se-ão manuais criacionistas de física, de geologia e de química.

É obvio que os argumentos criacionistas do "tratamento equilibrado" e da "equidade" não passam de uma cortina de fumo, e o que eles realmente querem é usar a lei para introduzir as suas opiniões religiosas nas salas de aula, excluindo todas as outras opiniões. Apesar de todo o argumento de exceção usado pelos criacionistas, a "ciência" do criacionismo não é ciência e não tem lugar na sala de aula da escola pública.

Uma das razões porque a "ciência" da criação é tão amplamente aceite nos Estados Unidos, é que a educação da ciência nesse país é abismal. Uma pesquisa realizada em 1988 pela Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional, que testou jovens americanos de 17 anos em relação aos de 12 outros países, revelou que os estudantes americanos ficaram em último lugar em biologia e entre os últimos 25% em química e física. Os Estados Unidos não conseguiram melhor que o 8.º lugar em qualquer categoria de educação. Outra pesquisa de 1988, realizada pela National Geographic Society, revelou que uns espantosos 14% dos adultos americanos não conseguiam identificar os Estados Unidos da América numa mapa. Um estudo da National Science Foundation, realizado em 1989, revelou que apenas 45% (menos de metade) dos adultos interrogados sabia que o período de tempo que a terra demora para dar uma volta ao sol é um ano. A maioria dos americanos são incrivelmente ignorantes no que diz respeito às descobertas e métodos da ciência, o que não prenuncia nada de bom para o crescimento econômico e inovação futura deles num mundo de alta tecnologia. Os esforços criacionistas para fazer o relógio do conhecimento científico reverter para o século XV não têm outro efeito senão encorajar e exacerbar a nossa ignorância científica.

Artigo publicado em 26/08/00


Tradução: João Rodrigues
Original em inglês: http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Hangar/2437/educate.htm
 

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