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Outubro de 2000


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Australopithecus afarensis
e os Criacionistas

por Lenny Flank
© 1995

Do ponto de vista criacionista, a transição evolutiva mais importante de todas é a aparição evolutiva dos seres humanos. Morris disse, "A questão das origens se torna a mais crítica de todas quando lida com o problema da origem do homem. O homem é meramente o produto de um processo evolutivo naturalista ou é uma criação especial, preparada pelo Criador para exercer domínio sobre toda a criação?" (Morris, Scientific Creationism, 1974, p. 171) Como Strahler disse, "Esta brecha é a última linha de defesa para os criacionistas; é o fosso que rodeia o castelo criacionista. Nada é mais importante para eles do que a crença que Deus criou os humanos a Sua própria imagem". (Strahler, 1987, p. 479)

Zoologicamente, os humanos são classificados como Homo sapiens sapiens, um membro da família primata dos mamíferos. Ainda que o registro fóssil da evolução humana inicial seja muito irregular, foi recuperado material homínideo suficiente para formar no mínimo um esboço grosseiro. De acordo com os últimos achados dos paleoantropologistas, os predecessores evolutivos imediatos do Homo sapiens são conhecidos como Homo erectus, cujos restos têm sido encontrados em vários continentes e são conhecidos por vários nomes populares diferentes como "Homem de Java" e "Homem de Pequim". Apesar do Homo erectus caminhar ereto como os humanos, usar fogo e construir ferramentas de pedra grosseiras, a capacidade do seu cérebro era um tanto menor que a dos humanos modernos, e possuía características faciais muito mais primitivas, como arcos superciliares proeminentes e um queixo que se projetava para trás.

Geralmente se acredita que o próprio Homo erectus se desenvolveu do Homo habilis, uma forma bípede com características faciais ainda mais primitivas e um cérebro ainda menor. O Homo habilis foi aparentemente o primeiro fabricante de ferramentas, e milhares de fragmentos de pedras lascadas foram encontradas próximo aos seus restos. Devido ao Homo habilis ter sido um construtor de ferramentas, geralmente é considerado como o primeiro da verdadeira família humana, e é a espécie mais antiga a ser classificada como Homo, ou seja no mesmo gênero do humanos modernos.

Os membros mais primitivos da linhagem humana são classificados no gênero Australopithecus. Diversas espécies de australopitecos foram encontradas, e é uma opinião geral que vários deles são produtos evolutivos divergentes da linhagem humana, que especializaram-se em uma dieta de vegetação dura e que se extinguiram aproximadamente há um milhão de anos. Entretanto acredita-se que duas espécies de australopitecos estão diretamente na linhagem humana. O mais recente destes é o Australopithecus africanus, o qual a maioria dos paleoantropólogos consideram como um ancestral evolutivo do Homo habilis. (Esta interpretação está sendo debatida por algumas autoridades, que argumentam que o H. habilis derivou diretamente de australopitecos mais antigos. Por outro lado, algumas autoridades não consideram o H. habilis como uma espécie válida, e o englobam junto com o A. africanus.)

Esqueleto da Lucy

Esqueleto da "Lucy" (Australopithecus afarensis)

O homínideo mais antigo a ser amplamente estudado é o Australopithecus afarensis, melhor conhecido por um esqueleto quase completo encontrado na Etiópia em 1974, conhecido popularmente como "Lucy". A relação exata entre todas estas espécies é ainda uma questão de alguma disputa, mas a maioria das autoridades concluíram que o tipo "Lucy" de australopitecos foi ancestral tanto da variedade africanus como das demais ramificações evolutivas. Praticamente todos os estudiosos concordam que o Australopithecus afarensis foi o membro mais antigo da linha de bípedes que levou, cerca de quatro milhões de anos mais tarde, aos humanos modernos. E, como veremos, os homínideos "Lucy" compartilhavam uma mescla de características que os coloca exatamente na brecha entre primatas e humanos.

Um equívoco muito disseminado deve ser corrigido aqui. Tem se convertido quase em um axioma entre os não paleontólogos que os "humanos são descendentes dos macacos". Isto de fato não é estritamente correto, ainda que os criacionistas façam o máximo possível para tirar proveito deste equívoco popular. Os homínideos não são descendentes de qualquer um dos macacos modernos. Pelo contrário, os paleoantropólogos concluíram que, aproximadamente há 5 milhões de anos atrás, a linhagem humana e a linhagem dos macacos antropóides compartilharam um ancestral comum, a partir do qual os macacos seguiram em seu caminho distinto, levando aos gorilas, chimpanzés e orangotangos modernos, e a linhagem homínidea seguiu em outra direção, produzindo os australopitecos de cérebro maior e mais recentemente você e eu. Os macacos modernos são deste modo nossos parentes evolutivos, não nossos ancestrais; não descendemos dos macacos modernos do mesmo modo que você não pode descender de sua irmã ou prima.

Não seria incorreto caracterizar os fósseis do Australopithecus afarensis como seres que apresentavam uma cabeça primitiva simiesca no topo de um corpo humanóide. Com aproximadamente 1,20 m de altura, os australopitecos eram muito menores que seus descendentes evolutivos (os machos A. afarensis eram muito maiores que as fêmeas, uma característica que compartilham com a maioria dos macacos modernos mas não com os humanos modernos). O crânio era relativamente pequeno e o cérebro era aproximadamente do mesmo tamanho que o cérebro de um chimpanzé. O crânio apresentava muitas características que distingue os macacos, incluindo arcos superciliares proeminentes e um queixo projetado para trás. Os dentes da maxila tinham forma de um U estreitado com os lados de cada fileira de dentes quase paralela com a outra, justamente como nos macacos. Também havia um espaçamento notável na fileira de dentes, conhecido como diastema, para acomodar os longos caninos, o qual também é um traço exibido por macacos mas não por humanos. Os dentes caninos do A. afarensis tinham raízes grandes e profundas que causavam um engrossamento na mandíbula, como nos macacos -- mas por outro lado, as coroas dos dentes eram pequenas como as dos humanos.

Os braços de Lucy eram intermediários entre os dos humanos e dos macacos. O osso proximal, o úmero, era ligeiramente mais longo, proporcionalmente, que o úmero humano, mas não tão longo como o dos macacos. Os dedos eram um pouco maiores e eram ligeiramente mais curvados que os dedos humanos, mas não tanto como seriam os dedos dos macacos.

Em contraste com as características simiescas da cabeça e dos braços, entretanto, os membros inferiores do Australopithecus afarensis não eram simiescos e são virtualmente indistingüíveis dos membros inferiores humanos. Em humanos, por exemplo, os ossos do calcanhar têm uma almofada alargada composta de osso esponjoso que absorve o impacto gerado pelo nosso modo bípede de locomoção. Os macacos, os quais não caminham sobre as duas pernas mas ao invés se movem apoiando-se sobre suas articulações interfalângicas (dedos), não têm tal almofada óssea, mas os ossos do calcanhar do esqueleto de Lucy exibe os mesmo ossos esponjosos. Ainda que o fêmur de Lucy fosse ligeiramente mais longo, proporcionalmente, que nos humanos, exibia uma série de características claramente humanas. Nos humanos, o colo do fêmur, na parte que se encaixa na articulação do quadril, tem um centro esponjoso grosso como um coxim para absorver o impacto de caminhar, e tem uma camada mais grossa de osso compacto na porção superior da articulação para suportar o esforço. Em macacos, entretanto, o arranjo é totalmente diferente; o colo do fêmur é quase completamente sólido, com apenas um pequeno núcleo central de osso esponjoso. Os fêmures dos macacos também têm uma quilha larga ao longo da parte superior do colo onde se unem com o receptáculo do quadril. O fêmur do Australopithecus afarensis é idêntico em seu arranjo ao fêmur humano.

Ossos do crânio e bacia de Chimpanzé e da 'Lucy'

Fig.2 -- Ossos do crânio e da pelve de um chimpanzé (esquerda) e da "Lucy"(direita/reconstrução)

 

Nos macacos, a articulação do joelho forma uma linha vertical reta desde o osso do quadril até o joelho e continua até a tíbia. Em humanos, entretanto, com seu modo bípede de locomoção, o centro de gravidade deve se deslocar dentro da cintura pélvica, e isto é feito juntando os joelhos de tal forma que caiam diretamente debaixo da pelve. Assim, o osso da coxa em um humano se aproxima da articulação do joelho a partir de um ângulo externo e os membros não têm a configuração em linha reta vista nos macacos. E mais uma vez, o tipo "Lucy" de australopiteco demonstra um tipo humanóide de estrutura ao invés de uma simiesca. Os membros do A. afarensis se encontram formando um ângulo agudo entre a porção terminal do fêmur e a articulação do joelho, como nos humanos.

É na cintura pélvica, entretanto, que as características humanóides do Australopithecus afarensis são mais claramente evidentes. Nos humanos, a cintura pélvica é ampla e está aplanada em uma forma de prato raso para sustentar o peso da parte superior do corpo ao caminhar. Em contraste, os macacos distribuem a maior parte do peso do corpo nas articulações dos dedos quando caminham e a pelve é longa e estreita [veja figura 2]. Na Lucy, a pelve era praticamente idêntica a pelve humana. A única diferença aparecia nos ossos do sacro, na parede posterior da pelve. Nos macacos, o sacro é estreito. Nos humanos, o sacro deve ser largo o suficiente para manter as articulações do quadril separadas para caminhar. O sacro do Australopithecus afarensis não só era largo como o dos humanos ao invés de estreito como o dos macacos, mas era na verdade proporcionalmente mais largo que o dos humanos modernos. Seria impossível para as pessoas modernas terem um sacro proporcionalmente tão largo como o de Lucy, uma vez que isto estreitaria a abertura do canal do parto. Nos humanos, o canal do parto deve ser o mais amplo possível para permitir a passagem de um bebê humano com sua cabeça relativamente grande, mas nos A. afarensis, com suas cabeças e cérebros menores, isto não era um problema. A cintura pélvica do Australopithecus afarensis, portanto, era na verdade mais adequada para o caminhar bípede que a nossa.

Modelo do caminhar de 'Lucy'

Fig.3 -- Modelo do andar de Lucy

Confirmação de que os primitivos australopitecos eram bípedes eficientes veio da descoberta de Mary Leaky de uma série de pegadas hominídeas impressas em uma camada de cinzas vulcânicas úmidas de uns três e meio milhões de anos atrás próximo de Laetoli na África. Três indivíduos bípedes deixaram suas pegadas, aparentemente um macho, uma fêmea e um jovem [veja figura 4]. Os contornos de suas pegadas, nitidamente preservadas nas cinzas endurecidas, claramente mostram que o animal que deixou estas marcas caminhava em uma forma bípede eficientemente, como um humano -- não havia evidência de que o polegar fosse divergente como encontrado nos macacos, e foi encontrado um arco plantar muito similar ao humano [veja figura 5]. Um modelo do pé do A. afarensis reconstruído com a composição de ossos fósseis recuperados, encaixa-se perfeitamente com as pegadas de Laetoli.





Pegadas de Laetoli

Detalhe da pegada

Fig.4 -- Pegadas de Laetoli

Fig.5 -- Detalhe da pegada

 

Assim, ainda que os especialistas discutam acerca dos detalhes, a seqüência básica da evolução humana é clara. A linha hominídea começou com o pequeno Australopithecus afarensis de andar vertical, com sua cabeça simiesca de aparência primitiva e um cérebro pequeno, no topo de um corpo que dificilmente se distingue de um moderno corredor de fundo. Daquele ponto em diante, o plano básico do corpo foi fixado, e praticamente toda a evolução subsequente na linhagem humana aconteceu unicamente do pescoço para cima. Enquanto alguns dos descendentes evolutivos de Lucy caminharam para um beco sem saída, tornando-se cada vez mais especializados como vegetarianos, uma linha de descendentes aumentou continuamente sua capacidade cerebral, acompanhada por mudanças na estrutura dentária e facial, o que levou gradualmente ao Australopithecus africanus, Homo habilis, Homo erectus e finalmente, há cerca de 200.000 anos atrás, aos humanos anatomicamente modernos. Ainda que Lucy não tenha sido o último ancestral comum entre macacos e humanos (uma espécie descoberta recentemente e tentativamente chamada de Arapithecus ramidus parece ter sido o último ancestral comum), ela e sua espécie foi uma forma transicional entre os primatas silvícolas simiescos e os modernos humanos com seu caminhar vertical.

Por conseguinte, os criacionistas considerem tal conclusão não apenas errônea, como herética. As concepções religiosas criacionistas da criação dos humanos não os deixa outra escolha senão afirmar que, "Ainda que os evolucionistas tenham construído várias 'formas transicionais' altamente imaginativas entre o homem e criaturas simiescas baseadas em evidência muito fragmentária, o registro fóssil na verdade documenta a origem separada dos primatas em geral, macacos, símios e o homem." (ICR Impact, "Summary of Scientific Evidence for Creation", May/June 1981)

O registro fóssil, é claro, não "documenta" nada assim. Tipicamente, os criacionistas tentam renegar o status transicional do Australopithecus afarensis negando todas as suas características humanóides. Lucy, eles dizem, era "apenas um macaco":

"Criacionistas, por outro lado, insistem que estes ou são fósseis de macacos ou de homens, não de animais intermediários entre o macaco e o homem." (Morris, Scientific Creationim, 1974, p.171)

"Lucy é simplesmente um macaco extinto sem nenhuma conexão clara com os humanos". (Ray Bohlin, "Human Fossils; 'Just So' Stories of Apes and Humans", Probe Ministries, Richardson, Texas, 1994)

"Obviamente ela [Lucy] também era simplesmente um 'macaco'". (Watchtower Bible and Tract Society, 1985, p. 94)

O maior esforço do ataque criacionista sobre a Lucy vem, surpreendentemente, das característica mais bem estabelecidas dos australopitecos -- seu modo de locomoção. O criacionista M. Bowden afirma categoricamente que Lucy "não caminhava em pé". (Weinberg, 1984, p. 20) Com respeito a articulação do joelho dos australopitecos que foram encontrados na Etiópia e em muitos outros sítios, ele diz, "não pude encontrar nenhuma evidência nas publicações que prove que esta articulação de joelho tivesse exibido bipedismo". (Weinberg, 1984, p.20) Aparentemente Bowden é incapaz de perceber que o joelho de Lucy é idêntico em todos os aspectos (exceto pelo tamanho) com os seus e os meus. Nenhum animal quadrúpede na Terra exibe uma articulação de joelho remotamente parecida a de Lucy. De fato, somente uma família na Terra possui uma estrutura de joelho que seja similar a do Australopithecus afarensis -- os hominídeos.

O ICR também trata de argumentar que Lucy não podia caminhar à maneira dos humanos e que deste modo era apenas um macaco. "Australopithecus, na visão de alguns proeminentes evolucionistas," afirma o ICR, "não era intermediário entre os macacos e o homem e não caminhava em pé." (ICR Impact, "Summary of Scientific Evidence for Creation", May/June 1981) Que o ICR não dê os nomes destes "proeminentes evolucionistas" não é uma surpresa, posto que nenhum paleoantropólogo com alguma experiência negue que Lucy fora perfeitamente bípede e capaz de caminhar em pé como você e eu.

Gish, em seu livro Evolution? The Fossils Say No! [Evolução? Os Fósseis Dizem Não!], não menciona especificamente Lucy, porém fala dos australopitecos em geral, "Foram encontrados alguns fragmentos da pelve, pernas e ossos do pé destes animais e, baseado nos estudos destes fragmentos, houve um consenso entre os evolucionistas que os australopitecos caminhavam habitualmente em pé . . . Nos últimos anos, entretanto, este ponto de vista tem mudado . . ." (Gish, 1978, p.109)

Isto simplesmente não é verdade. Os fósseis dos australopitecos não são "fragmentos", mas consistem de vários esqueletos praticamente completos, incluindo o de Lucy. Estes fósseis mostram clara e convincentemente que Lucy tinha uma marcha ereta, inclusive mais eficiente que a nossa em alguns aspectos.

A última crítica da forma de deslocar-se de Lucy veio por parte do criacionista Ray Bohlin, que declara, "Se Lucy caminhava em pé, era distinta dos macacos e dos humanos. Não exatamente o que você esperaria de uma forma transicional." (Bohlin, "Human Fossils; 'Just So' Stories of Apes and Humans", Probe Ministries, Richardson, Texas, 1994) Devo confessar que a lógica de Bohlin escapa ao meu alcance. Lucy possuía uma cabeça primitiva simiesca com um cérebro pequeno sobre um corpo bípede que é praticamente indistingüível do corpo dos humanos modernos. Se isto não é "exatamente o que você esperaria de uma forma transicional", então estou completamente perdido sobre o que Bohlin ESPERARIA em tal forma transicional.

Evolução? Os fósseis enfaticamente dizem SIM!


Publicado em: 07/10/00
Tradução: Gilson C. Santos
Texto original em: http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Hangar/2437/hominid.htm

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